
A fase é de conhecimento pessoal mais aproximado, troca de ideias entre iguais – afinal são ambos produto das urnas – e salamaleques no nível que se admite entre homens públicos, mas só a realidade dirá como serão as relações e os projetos necessariamente comuns a ocorrer entre o governador Jaques Wagner e o futuro prefeito de Salvador, ACM Neto.
Houve um tempo no Brasil em que a luta política não permitia esse tipo de dúvida, pois era inimaginável que um presidente, governador ou prefeito pudessem, deliberadamente, trabalhar contra os interesses populares para combater o adversário, mas o regime militar, sobrepondo o autoritarismo ao diálogo, afetou também a qualidade dos nossos políticos.
Esperar-se-ia de um partido com os fundamentos do PT, agora que está do outro lado do balcão, um comportamento republicano e democrático como o que sempre cobrou em sua trajetória. Como em outros aspectos, a exemoplo da ética no trato da coisa pública, esse compromisso foi e continua sendo reiteradamente quebrado, de fato não se sabe o que virá.
Com Dilma, na encruzilhada do Planalto – O assunto é debatido com expectativa nos bastidores, ainda agora, que, pelas mãos de Wagner, Neto chega ao gabinete da presidente Dilma Rousseff, encruzilhada de onde os viajantes podem partir em qualquer direção.
A tese prevalente é de que haverá o entendimento formal e a definição meio vaga de projetos, condenados a cair no esquecimento à medida que o tempo for passando e as coisas adquirirem áreas de “normalidade contínua”.
Em outras palavras, será feito em conjunto o mínimo que for possível e o prefeito que se vire, não haverá azeitona na empada. A “sorte” de Neto é que esse mínimo terá de ser muito razoável, em razão da feliz coincidência de ser ele o prefeito da Copa do Mundo.
População espera dos mestres a aula – O Brasil não tem uma tradição de continuidade institucional e política. Ao contrário, em 123 anos de República, tivemos sete Constituições (incluída a emenda da junta militar em 1969), uma revolução, duas ditaduras e outros períodos de Executivo forte, além de diversos golpes e tentativas de golpe de Estado.
Estamos aprendendo a democracia, e a aula atual já dura 24 anos – menos um tanto na Bahia. Vivemos uma experiência absolutamente nova, em que a alternância de poder nos permite conjecturar se o governo atual tratará a oposição como era tratada no passado ou se está disposto a dar um lição positiva à sociedade baiana.
É preciso força contra pressões e vontade – Os entraves são gigantescos. Há interesses concretos e imediatos, há pressão por todo lado, há até sentimentos baixos de que, infelizmente, padece a espécie humana, e não é algo que a vontade unitária simplesmente possa definir, mas que pode impor-se por uma reunião de forças.
Por exemplo, se Wagner e Neto se entenderem, e isso resultar em progresso e avanço para Salvador, ambos poderão ganhar, mas certamente a vantagem maior será de Neto, porque, afinal, o governador está aí há seis anos e a capital do Estado é uma vergonha. Por isso, será preciso altruísmo para antever e topar tal situação. É ver o que vai dar.
Por outro lado, o prefeito eleito, como em sua entrevista de terça-feira, demonstra maturidade, dizendo-se avesso a “gerar factoides” e revelando “disposição para tomar decisões duras”, mesmo que disso decorram “grandes debates públicos”.
É a manifestação de quem sabe que vive um momento decisivo em sua trajetória, que não comporta autoimolação. Uma determinação desse grau poderá, se necessário, estender-se ao plano político, com desdobramento imprevisível. (Por Escrito)
































