
Mais do que a saída de Sergio Moro do governo, a entrevista marca o rompimento com o apoio irrestrito à Lava-Jato e ao discurso de combate à corrupção. Na ruptura com o ex-juiz, havia um receio do presidente com o desgaste que poderia sofrer. Aliados e a militância digital empenharam-se na versão de que houve uma traição do ex-ministro da Justiça, em busca da cadeira do presidente.
A manutenção do patamar de popularidade do presidente mesmo após a saída de Moro deu aos Bolsonaros a confiança para rasgar de vez a fantasia, no auge da crise entre procuradores de primeira instância e o procurador-geral da República, Augusto Aras.
A demonização da “velha política”, personificada no centrão, era a outra metade da persona antissistema que Bolsonaro encarnou na campanha. Nesse ponto, Flávio não teve problemas em atribuir à gestão do pai um parâmetro bem menos rigoroso que o do ex-presidente Michel Temer, cacique do MDB, sigla símbolo do fisiologismo na redemocratização.
Em fevereiro de 2017, pressionado por investigações contra aliados e ministros, Temer anunciou: será afastado o auxiliar denunciado pelo Ministério Público, e o afastamento será definitivo se a Justiça torná-lo réu, mesmo sem condenação, ainda que apenas na primeira instância. O ex-presidente exagerou na tentativa de se mostrar inflexível, e poucos meses depois passou pelo constrangimento de descumprir a promessa para não perder ministros (ele próprio seria alvo de três denúncias da PGR).
Perto de ser denunciado pela suspeita de comandar a rachadinha, Flávio jogou o sarrafo para baixo. Ao defender indicações do centrão para a administração federal, estabeleceu o limite: “se não tem condenação em segunda instância, por que não vai aproveitar?”.
A facilidade em contradizer o discurso é um sinal para o ministro da Economia, Paulo Guedes. Ao dizer que “Guedes terá de arrumar um dinheirinho”, Flávio deixou claro para que lado pende a família na disputa no governo entre os que defendem um aumento dos gastos e investimentos e os que pregam puxar o freio para corrigir o desarranjo



























