
Embora tenha conduzido a política econômica de forma responsável – principalmente a monetária, menos por mérito pessoal e mais por ter relegado o trabalho ao ex-presidente do BC, Henrique Meirelles –, o antecessor de Dilma Rousseff pouco fez para elevar a produtividade e ampliar os investimentos no país.
Diante disso, a chamada Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que mede o volume de investimento na economia doméstica, mostrou nesta sexta-feira a quinta redução trimestral consecutiva. As conseqüências da inação de Lula também começam a ser notadas no segmento de serviços, cuja expansão dá sinais de esgotamento graças ao “apagão” de mão de obra, isto é, a escassez de profissionais qualificados decorrente da péssima estrutura de ensino brasileira. Em outras palavras, o PIB divulgado nesta sexta-feira é a perfeita tradução da ‘herança maldita’ deixada pelo ex-presidente à sua sucessora.
Ciente dos desafios estruturais que tinha para resolver, a presidente Dilma Rousseff assumiu a Presidência da República com notória disposição. O problema, dizem os economistas, é que suas opções, salvo poucas exceções, não foram nada felizes.
Grosso modo, ela optou por uma política que conjuga fechamento da economia – com controle sobre o câmbio, imposição de tarifas sobre importados etc – com políticas de curto prazo para tentar induzir o crescimento – os chamados pacotes, como a desoneração da folha de pagamento, o IPI reduzido dos automóveis, entre outras medidas. Também o chamado tripé macroeconômico (câmbio flutuante, regime de metas de inflação e equilíbrio fiscal), que visa manter a inflação controlada, foi aparentemente abandonado. Com isso, ela tem colhido apenas perda de competitivdade e redução dos investimentos.
Inação – “Essa decepção do crescimento mostra que as consequências da inação do governo Lula estão cobrando um preço muito caro da atual gestão”, disse o economista-chefe da gestora de recursos M. Safra, Marcelo Fonseca. Na avaliação dele, a atual presidente acerta ao tentar destravar investimentos em rodovias, ferrovias, portos e aeroportos por meio de privatizações. “A única questão de médio e longo prazo que parece promissora é esse debate de infraestrutura, mas que está muito aquém do que poderia ser em quantidade e velocidade.”
Fonseca explica que a taxa de investimento cresceu no Brasil entre 2006 e a metade de 2011 graças, sobretudo, ao esforço das empresas exportadoras de commodities, como a Vale e as de agronegócio. Hoje, contudo, também elas são prejudicadas pelos gargalos logísticos do país. “Essas companhias fazem parte de setores onde o Brasil tem vantagem comparativa. Mas elas têm sido penalizadas por essas questões conjunturais, como as próprias deficiências de infraestrutura que prejudicam toda a economia”, lamenta.
As opções de Dilma – Apesar de a presidente Dilma estar disposta a tomar medidas importantes para o país, o que se viu até o momento foram chances desperdiçadas. “Esse excesso de intervencionismo da presidente está cobrando o seu preço nos investimentos. Essa questão é extremamente preocupante”, ressalta o economista da Tendências Consultoria, Juan Jensen.
Enquanto vê o PIB minguar, o governo federal coloca toda a culpa no cenário internacional. Jensen e Fonseca concordam que o empresário fica, de fato, ressabiado com a penúria da Europa e a aproximação do chamado “abismo fiscal” nos Estados Unidos. Temerosos dos efeitos dessa conjuntura sobre o Brasil, os investidores põem o “pé no freio”, ou seja, não investem. Mas essa é apenas parte da explicação para a inércia da economia.
O analista da Tendências lembra que os outros países da América Latina que não mudaram as bases de sua política econômica continuam a crescer com vigor. Nesses mercados, como o Chile e a Colômbia, a taxa investimento cresce, em média, 10% a cada ano a despeito do cenário conturbado no exterior. “O segredo é que eles não mudaram o sistema de metas da inflação, não deterioraram a situação fiscal, não interviram no câmbio, e também não ficam, a todo o momento, mexendo nos setores da economia”, destaca.
Pecando pelo excesso – “A presidente Dilma está mais prejudicando que ajudando o PIB com esse excesso de intervencionismo. Isso acontece porque suas opções estão muito focadas no curto prazo, ao passo que seu esforços deveriam ser o médio e o longo prazo”, diz Jensen. Desonerações, redução de impostos e de arrecadação, queda de juros bancários, estímulos à produção, anúncios de investimentos em infraestrutura, entre outras medidas. Segundo o analista, como as regras mudam a todo o momento, o investidor tende a ficar parado.
André Perfeito, economista-chefe da Gradual Corretora, compartilha da opinião e afirma que agora é a hora de o Planalto parar de tomar medidas para estimular a economia. Para ele, muitas das ações estão sendo mal interpretadas pelo mercado e esse cenário vem prejudicando os investimentos e a atividade. “Não há muito o que fazer. Na verdade, insistir nisso seria pior. Já é disseminada a percepção de que a presidente intervém demais – e isso tem sido um ‘balde de água fria’ no espírito do empresariado”, comenta.
Os sinais, contudo, apontam na direção contrária. O Ministério da Fazenda deve insistir nas seguidas intervenções para tentar, uma vez mais, estimular o PIB. Na véspera do anúncio do IBGE, quando havia pedido aos jornalistas que não esperassem um crescimento espetacular, o ministro Guido Mantega adiantara que o Planalto prosseguirá com suas ações.
Outro legado de Lula – Os economistas apontaram outra herança maldita de Lula que tende a prejudicar, cada vez mais, o PIB de Dilma: o apagão de mão de obra. A escassez de trabalhadores qualificados no país começa a paralisar a pujança dos serviços, como ficou evidente no PIB nulo do setor neste 3º trimestre.
Marcelo Fonseca explica que a produtividade deste segmento já é naturalmente menor por depender da contratação de muita gente. Quando se imagina que a maioria dos recém-contratados não possui boa qualificação, ou seja, são pouco produtivos, entende-se a dificuldade do segmento em continuar a contribuir para a economia. “Desta forma, o crescimento potencial do Brasil não pode ser esse que querem acreditar o mercado e o próprio governo. É menor!”, lamenta. “O setor de serviços também veio zerado porque já cresceu muito. A base de comparação fica muito alta”, acrescenta Perfeito.
É preciso lembrar, no entanto, que parcela importante do mau desempenho de serviços no PIB de julho a setembro foi devido à deterioração da atividade de intermediação financeira. Trata-se de efeito direto da política de juros baixos e da briga dos bancos públicos com os privados para forçar uma redução do chamado spread bancário – cenário que tem afetado os balanços das grandes instituições financeiras do país.
Ante o resultado divulgado nesta sexta-feira – um PIB decepcionante no 3º trimestre e a revisão para baixo da performance do trimestre anterior –, os economistas falam em números piores para o crescimento em 2012 e 2013. Enquanto o mercado vinha falando em expansão de 1,5% para este ano e o Ministério da Fazenda em 2%, analistas refazem suas apostas.
A Tendências Consultoria reduziu sua projeção de alta para 0,8% neste ano, enquanto a Gradual Investimentos fala em 0,95% e o Safra aposta em 0,9%. Para 2013, a Tendências prevê expansão de 3,2%. A Gradual informou à reportagem que deve reduzir suas estimativas para entre 3% e 3,5%. O Safra, por fim, aposta numa alta de apenas de 2,9%.
Cassandra às avessas – Guido Mantega, enquanto isso, continua a repetir o mantra de que a economia avançará consideráveis 4% no próximo ano. Ele é praticamente uma Cassandra às avessas. Enquanto a profetisa da mitologia grega ficou famosa por prever desgraças que ninguém acreditava – devido a uma maldição do deus Apolo –, o ministro é hoje célebre por profetizar coisas maravilhosas que nunca se cumprem. (Naiara Infante Bertão e Talita Fernandes, da Veja)





























