Daniel Mello
Agência Brasil
São Paulo – Para reduzir a evasão na educação de jovens e adultos (EJA), a professora Maristela Gouveia foi buscar as raízes de seus alunos. “Comecei pela árvore genealógica e eles comentaram que tiveram muitas lembranças da família, do local onde moravam” contou a professora da Escola Municipal Raul Pompeia, que fica na periferia da zona norte paulistana. A partir das histórias, Maristela fez com que os alunos pensassem em músicas. Assim, a ideia cresceu e acabou dando frutos como um livro e um sarau, onde uma banda tocou as canções escolhidas pelos estudantes.
Muitas músicas, que remetem a momentos tristes ou saudades comuns aos alunos do segundo período do EJA (equivalente à 3ª e 4ª série do ensino fundamental) emocionaram o público do sarau. Mesmo em uma noite chuvosa, a maior parte fez questão de comparecer e levar a família, assim como a maioria faz questão de continuar os estudos, abandonados ou nunca iniciados. “Com certeza, este ano eles não abandonam o EJA”, comemora Maristela, por ter conseguido fincar as raízes dos alunos na escola.
Um dos maiores obstáculos dos educadores do EJA é manter os matriculados na sala de aula. “Existe grande dificuldade de manter o aluno do EJA dentro da escola. Eles têm muitos problemas, como a questão do horário de trabalho. Eles também têm a autoestima um pouco baixa”, explica Maristela.
Por isso, a professora usou as histórias de vida de cada um como ferramenta pedagógica. “Mediante cada música, a gente foi fazendo uma aproximação. A gente estudou tudo que era possível, literatura, poesia, interpretação, geografia, história. Além de trabalharmos a inclusão, eles se sentirem importantes”, destaca a professora sobre o projeto. “Quando você trabalha com o significativo, com projetos, você segura os alunos, eles se sentem parte do processo”, complementa.
O trabalho permitiu que Maristela percebesse que seus alunoss tinham trajetórias bastante semelhantes, o que se refletia na escolha das músicas para representá-los. “São músicas que falam de partida. Música que fala da seca no Nordeste, que fala do migrante que vem para cá e é discriminado”, conta a professora, que aproveitou a deixa para introduzir os jovens e adultos em atividades que estavam fora de sua rotina. “Percebemos que eles tinham medo e receio de começar pintura a guache. Dobradura, nenhum aluno da sala tinha feito”, comenta sobre a produção que foi transformada em um livro apresentado no sarau.
Tudo era novo para Geraldo Eloi, um mecânico industrial de 71 anos. “É a primeira vez que me sento em uma sala de aula, que tenho uma professora para me ensinar”, relata o estudante que veio para São Paulo aos 14 anos e hoje tem seis filhos, com idades entre 24 e 44 anos. Ele buscou a escola para ganhar familiaridade com as letras. “Escrever corretamente, isso era o mais necessário”.































