Projeção virtual mostra a ponte entre Salvador e Itaparica, que seria a maior estrutura do gênero na América Latina – Foto: Divulgação.
Defendido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pelo ministro Rui Costa, da Casa Civil, o projeto para construção de uma ponte que ligará Salvador (BA) à Ilha de Itaparica, incluído no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), é contestado por especialistas e pescadores, que temem efeitos nocivos ao meio ambiente. Com 12,4 quilômetros de extensão sobre a água, a estrutura localizada na Baía de Todos os Santos seria a maior da América Latina, superando a Ponte Rio-Niterói.
Reportagem do jornal O Globo desta quinta-feira (24), assinada por Luis Felipe Azevedo e Daniel Biasetto informa que no início do mês, Lula afirmou que a construção, isenta de impostos federais, já está “acertada”. Segundo o petista, a obra contará com investimento de R$ 11 bilhões e representará uma “revolução para o desenvolvimento da Bahia”. A execução do empreendimento será viabilizada a partir de uma Parceria Público-Privada (PPP) entre o governo estadual — comandado pelo também petista Jerônimo Rodrigues, que sucedeu o próprio Rui Costa no cargo — e um consórcio chinês.
— Foi um parto difícil. O Rui Costa sabe o quanto ele sofreu. Quantas vezes eu falei: “Oh, meu amigo, e a nossa ponte?” — disse Lula ao “Jornal da manhã” no dia 2 de julho.
Morador de Itaparica, o engenheiro ambiental Joselito Alves cobra uma revisão dos estudos de impacto ambiental. Para o especialista, a obra vai permitir a expansão do agronegócio e da mineração na cidade, o que ameaçaria a biodiversidade local:
— Vai causar grande impacto à Baía de Todos os Santos. É uma área de produção de pescados e migração de espécies, como baleias e golfinhos, que terão agora esse anteparo.
– Os primeiros projetos para uma ponte no local surgiram nos anos 1970, mas não avançaram. Em 2010, o debate foi retomado pelo então governador Jaques Wagner (PT). A previsão da gestão de Jerônimo Rodrigues é a construção comece até junho de 2026.
Rui Costa prometeu em seu governo que a ponte Salvador-Itaparica seria inaugurada em 2016. Atual governador Jerônimo Rodrigues também fez promessas. — Foto: Henrique Raynal/Divulgação Casa Civil
Um inquérito no Ministério Público da Bahia (MP-BA) avalia o processo de licenciamento e os possíveis danos em Itaparica. Uma segunda investigação, conduzida pelo Ministério Público Federal (MPF), analisa como se deu o a consulta prévia aos povos impactados pela obra.
— Há indícios de problemas nos estudos. Identificamos várias lacunas e equívocos. Exigimos, então, uma reconfiguração — afirma a promotora Cristina Seixas, do MP-BA.
Integrante do povo Tupinambá em Itaparica, o pescador Rafael Tamandaré revela o temor de que a obra traga mais especulação imobiliária e desmatamento, além de uma piora no saneamento básico:
— Muitos rios estão poluídos por desgaste do esgoto doméstico, principalmente os que estão perto de comunidades. O impacto é enorme. Para algumas culturas, a natureza não tem muita importância, mas para nós ela é vital.
Um estudo apresentado numa audiência pública realizada pelo MPF em junho mensurou o impacto da obra nos territórios de populações tradicionais. Segundo o documento, há 120 terreiros, dezenas de pequenas colônias de pescadores, comunidades quilombolas, ciganas e indígenas na região. O órgão recomendou acordos para minimizar as consequências na vida destes grupos. Um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) foi assinado pela Defensoria Pública da União (DPU) e pelo governo do estado da Bahia.
Secretário da Casa Civil da Bahia, Afonso Florence afirma que o projeto é uma prioridade para o estado por proporcionar uma expansão metropolitana de Salvador, que “não tem mais para onde crescer”:
—Minha impressão é que a obra é amplamente aprovada na Bahia. Até a oposição reclama, mas que está demorando a sair. Estamos fazendo as pesquisas de forma correta, e as reivindicações dos grupos afetados serão atendidas.
<h3>Administração chinesa</h3>
O consórcio chinês venceu o leilão para a construção e administração da ponte em dezembro de 2019, sob previsão de R$ 7,6 bilhões em gastos. As empresas pediram, posteriormente, um reajuste no valor com o argumento de aumento dos juros e do preço dos materiais de construção e do aço no mercado internacional.
O embate terminou no Tribunal de Contas do Estado (TCE), que recalculou o custo para R$ 10,4 bilhões. O contrato atual estabelece a concessão de 35 anos para construção, operação e manutenção do equipamento. Os próximos passos envolvem a elaboração do projeto executivo e a mobilização dos canteiros de obras em Salvador e Vera Cruz.
Para Claudio Villas Boas, CEO da Concessionária Ponte Salvador-Itaparica, a obra “vai integrar regiões, dinamizar economias locais e promover uma nova redistribuição de riqueza no estado”. Ele afirma que a empresa tem “buscado um diálogo participativo com as comunidades tradicionais da área de influência da obra”:
— É, acima de tudo, um projeto de desenvolvimento econômico e social, que impactará positivamente a vida de mais de 70% da população baiana, em cerca de 250 cidades.
Especialistas ouvidos pelo GLOBO apontam que, se Lula sancinar sem vetos o projeto de lei que flexibiliza o licenciamento ambiental, aprovado na Câmara na semana passada, haverá impacto no andamento da obra da megaponte.
Fonte: Jornal O Globo/Luis Felipe Azevedo e Daniel Biasetto
Leia também:
































