HUMBERTO MIRANDA
Presidente do Sistema Faeb/Senar
A Bahia é uma potência agrícola, mineral e turística, mas manter esse status tem sido um grande desafio frente às dificuldades estruturais que desaceleram o seu desenvolvimento. Com uma população estimada em aproximadamente 15 milhões de habitantes e uma extensão territorial semelhante à de países como a França, por exemplo, o estado possui uma malha rodoviária deficiente e soma poucos investimentos em ferrovias e portos e quase nenhuma integração entre esse modais.
A precariedade logística prejudica todos os setores econômicos, especialmente o escoamento da produção agropecuária, aumentando os custos, diminuindo a competitividade e retardando o crescimento da economia. No ano passado, a Confederação Nacional dos Transportes (CNT) divulgou uma pesquisa que classificou 73,5% das estradas baianas como péssimas, ruins ou regulares e apenas 26,5% como boas ou ótimas – situação que interfere diretamente no aumento do custo operacional dos transportes de cargas e de passageiros. Segundo a pesquisa da CNT, em função da má qualidade das estradas, o custo operacional do transporte rodoviário no Brasil sofre elevação de 32,5%.
A Bahia possui poucas ferrovias ativas, e aquelas existentes operam de maneira limitada e desconectada dos principais polos produtivos.
Aqui eu cito especificamente as rodovias por ser o modal majoritariamente utilizado em nosso estado, mas a Bahia possui uma infraestrutura logística deficitária também no que tange as ferrovias, aeroportos, portos e armazenagem. Por isso, sem medo de errar, tenho dito que o maior desafio do homem do campo está da porteira para fora. O excesso de dependência do transporte rodoviário, associado à má conservação das estradas, traz prejuízos à comercialização da produção no mercado interno e à competitividade no mercado externo.
É sabido que o desenvolvimento econômico de uma região depende, entre outros fatores, da eficiência logística. A capacidade de transportar produtos com segurança, rapidez e baixo custo é determinante para atrair investimentos, ampliar mercados e gerar mais empregos. No caso da Bahia, com vastas áreas de produção agropecuária em praticamente todo o seu território, a logística é um fator estratégico.
Atualmente, cerca de 70% da produção agrícola baiana depende do transporte rodoviário, especialmente a da região Oeste do estado, onde se destacam commodities como soja, milho e algodão. A principal via de escoamento, a BR-242, encontra-se em condições deploráveis em vários trechos – cenário que aumenta o tempo de transporte, eleva os custos com combustível, manutenção dos veículos e frete, além de expor motoristas a riscos constantes.
Outro importante corredor viário para o agronegócio, a BR-020, que corta o Distrito Federal e os estados da Bahia, Goiás, Piauí e Fortaleza, também não tem recebido a devida atenção no trecho baiano. Sua duplicação é uma antiga reivindicação do setor produtivo, mas, ao anunciar, em 2023, intervenções na rodovia, o governo deixou de fora do pacote obras essências, como a construção de mais uma via no trecho de Luís Eduardo Magalhães a Barreiras, além da pavimentação na altura de Campo Alegre de Lourdes.
A soma de todos esses fatores fez muitos produtores rurais optarem por rotas mais longas e utilizarem estruturas mais eficientes de outros estados, como é o caso do Porto do Itaqui, no Maranhão, em detrimento dos portos de Salvador e Aratu, que apesar de mais próximos tornaram-se mais onerosos.
A ausência de alternativas logísticas com outros modais é um fator crítico. A Bahia possui poucas ferrovias ativas, e aquelas existentes operam de maneira limitada e desconectada dos principais polos produtivos. A Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL), que poderia ser uma solução estratégica para o escoamento da produção agrícola e mineral do interior baiano, encontra-se em construção há mais de uma década, com diversos atrasos causados por questões ambientais, burocráticas e falta de investimentos.
Uma das principais vias de ligação entre os municípios das regiões Sul, Extremo Sul e Baixo Sul da Bahia, a ponte sobre Rio Jequitinhonha, localizada na BR-101, no município de Itapebi, está interditada, comprometendo a mobilidade de mais de 2 milhões de habitantes de 70 municípios e causando prejuízos à economia de uma região com forte vocação agrícola, industrial e turística. Após a Faeb, Fieb, Fecomércio e Fetrabase se unirem para oficiar o Ministério do Transporte sobre situação, o governo anunciou a construção de outra ponte no local, mas até lá o transporte de pessoas e cargas é feito por vias alternativas, que são mais longas e não pavimentadas, o que certamente vai refletir nos custos de produção do cacau, café, leite, pecuária de corte, celulose, mamão, banana, pescados e mariscos.
É necessário que haja um diálogo republicano entre o poder público, responsável pelas políticas de desenvolvimento, e a iniciativa privada, que, por sua vez, conhece os gargalos logístico transversais a todos os setores produtivos. Só assim é possível traçar um conjunto de ações articuladas e construir soluções ágeis, baratas, eficientes e sustentáveis. Com isso, consolidamos a Bahia como um dos principais polos econômicos do País, com destaque para o agronegócio, um dos pilares da economia baiana e brasileira.
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