Miranda: O Brasil, como potência exportadora no agronegócio, precisa estar atento e preparado para os desdobramentos que virão.
Por Humberto Miranda (*)
As tensões comerciais entre Estados Unidos e China não são apenas uma disputa por tarifas e influência geopolítica, elas moldam o futuro do comércio agrícola global. O Brasil, como potência exportadora no agronegócio, precisa estar atento e preparado para os desdobramentos que virão. A nova política tarifária adotada pelos EUA, com medidas protecionistas e incentivos internos, pode a curto prazo abrir janelas de oportunidade para exportadores brasileiros, com a conquista de mercados que estão retaliando as tarifas americanas sobre produtos agrícolas. No entanto, não nos deixa isentos de riscos e incertezas.
Historicamente, o Brasil tem se beneficiado de crises entre gigantes. Durante a primeira onda da guerra comercial entre EUA e China, entre 2018 e 2020, as exportações brasileiras de soja para o mercado chinês bateram recordes. Enquanto os EUA enfrentavam tarifas punitivas, o Brasil ganhava espaço, consolidando-se como principal fornecedor de grãos para Pequim.
Contudo, essa vantagem é frágil. A nova política econômica americana, liderada por um discurso de reindustrialização e fortalecimento interno, adota medidas protecionistas que ameaçam o espírito do comércio global. Ao restringir ou dificultar a entrada de produtos estrangeiros, os EUA geram distorções que vão além de suas fronteiras. O Brasil, embora não diretamente envolvido na disputa, sofre os efeitos colaterais: volatilidade cambial, oscilações nos preços de commodities e incertezas nos fluxos logísticos internacionais.
Para o agro baiano especificamente, os EUA são o segundo maior destino, com destaque para a exportação de celulose
Além disso, a posição geopolítica do Brasil torna-se cada vez mais delicada. O país é um dos principais parceiros comerciais da China, mas também depende de investimentos, tecnologias e acordos com os EUA e a União Europeia. Ao intensificar sua guerra tarifária, os EUA empurram seus aliados, ainda que indiretamente, a se posicionarem. E para o agronegócio brasileiro, que precisa de estabilidade, previsibilidade e bons relacionamentos com todos os lados, esse cenário é preocupante. Afinal, não se trata apenas de abrir novas portas, mas de não fechar as existentes.
Atualmente, os EUA aparecerem como o terceiro destino mais importante para os produtos do agronegócio brasileiro, atrás da China e da União Europeia. Em 2024 o país norte-americano respondeu por 7,4% da pauta brasileira no setor, atingindo a marca de US$ 12,1 bilhões.
Para o agro baiano especificamente, os EUA são o segundo maior destino, com destaque para a exportação de celulose, derivados do cacau (manteiga, gordura e óleo), da manga, sucos, café verde, produtos de sisal, peixe, cacau em pó e uvas frescas. Com isso, em 2024, o mercado estadunidenses teve participação de 6,34% nas exportações do agronegócio do estado, atrás justamente da China, que respondeu por 45,9%. Enquanto as exportações para a China totalizaram US$ 3 bilhões no ano passado, os EUA importaram US$ 425 milhões.
O risco maior dessa guerra comercial não está nas tarifas em si, mas no colapso da confiança mútua entre as grandes economias do mundo
A participação dos EUA, apesar de relativamente baixa se comparada ao seu principal concorrente, configura, para nós, um mercado já consolidado. Como bem se posicionou a CNA, através de nota técnica, “para alguns setores, o mercado americano é de grande importância”. É o caso do café verde – principal produto do agro brasileiro destinado aos EUA, com participação de 17% no ano passado; e dos sucos de laranja, que atingiu 31%. A elevação das alíquotas de importação sobre estes produtos pode minar a competitividade do Brasil neste mercado, impactando os rendimentos do produtor. No caso dos sucos de laranja, os EUA contam com alguma produção no mercado doméstico, que seria muito favorecida em relação à alternativa brasileira.
Como se pode ver, o risco maior dessa guerra comercial não está nas tarifas em si, mas no colapso da confiança mútua entre as grandes economias do mundo. Se os EUA e a China iniciarem um processo de desacoplamento econômico mais profundo, o comércio global tende a se tornar mais fragmentado, com barreiras técnicas, sanitárias e ambientais se somando às tarifárias. Nesse ambiente, até mesmo os atuais ganhos do agro baiano e brasileiro podem ser comprometidos por exigências regulatórias, disputas comerciais e retaliações indiretas.
É necessário, portanto, que o Brasil reforce sua política comercial externa com pragmatismo e estratégia. O agronegócio brasileiro é competitivo, moderno e resiliente, mas depende de acesso a mercados e segurança jurídica. Não podemos cair na armadilha de celebrar ganhos pontuais em meio a uma guerra econômica que mina as bases do comércio internacional.
O futuro do agro brasileiro passa, inevitavelmente, pela diplomacia econômica. Em vez de se apoiar em brechas abertas por disputas alheias, o País deve liderar esforços por acordos comerciais equilibrados, defender o multilateralismo e investir em infraestrutura, inovação e sustentabilidade. Só assim estaremos preparados para colher os frutos, mesmo em tempos de tempestade.
(*) Humberto Miranda é presidente do Sistema Faeb/Senar
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