ALBENÍSIO FONSECA
Dos males, o menor. A maioria dos meninos de rua presentes no Centro Histórico de Salvador mora em locais distantes. Geralmente, migram para esta região da cidade provenientes de bairros como Fazenda Coutos, Nova Constituinte, Mata Escura, Sussuarana e Vista Alegre, ou de áreas próximas como o Pelaporco, na antiga Rodoviária. Alguns são oriundos de cidades do interior ou de outros estados como Sergipe e Paraíba. O principal motivo da presença deles (em situação de abandono) nas ruas da capital decorre de conflito familiar, principalmente os maus tratos aplicados pelos pais.

Com o “Axé Buzu”, o projeto vem proporcionando o aceso das crianças e adolescentes em situação de rua a jogos lúdicos, desenhos, leitura e filmes. O velho ônibus, adaptado e equipado com atrativos das linguagens artísticas, inclusive vídeos, tem sido uma ferramenta fundamental no propósito de resgatar as crianças das ruas e do uso de drogas. O “buzu” circula semanalmente em locais do Centro e do Comércio de Salvador. Às segundas e quartas-feiras, permanece durante o dia nas praças das Mãos e do Mercado Modelo; às quintas-feiras no Terreiro de Jesus e, às sextas-feiras, na Calçada, sob o encargo de educadores de rua do projeto.
No Pelourinho, as crianças contam com aulas do professor de Arte Eliomar Tesbita, sob financiamento do Governo do Estado. Na última quarta-feira, 11 meninos e duas meninas, na faixa etária dos 12 aos 17 anos, participavam das atividades no “Axé Buzu”, no Terreiro de Jesus. Os educadores destacaram que “com o trabalho de sensibilização, os que estão mais vulneráveis ao efeito devastador do crack são encaminhados a instituições de saúde, como o Caps AD instalado na antiga Faculdade Medicina”, no Terreiro.

Muitas das crianças alcançadas pelo “Axé” converteram-se em educadores do projeto. Nas áreas do Mercado Modelo e praça das Mãos, boa parte delas passou a frequentar as unidades educacionais. Segundo os educadores Leandro Rodrigues e Edenilda Rangel, cerca de 200 crianças vêm sendo atendidas em dois turnos. No Pelourinho, com aulas de artes visuais e música.
Na Baixa dos Sapateiros, ensino de dança e capoeira. Eles esclarecem que “as unidades são espaços pedagógicos onde se realizam atividades lúdicas, artísticas e culturais, baseadas nos princípios da ética e dos direitos humanos”, numa pedagogia que oferece, digamos, noções tanto do sujeito da cidadania (direitos e deveres), quanto do sujeito do desejo(sobre questões da subjetividade).
Treze jovens são assasinados por dia no país – Informações do Índice de Homicídios na Adolescência (IHA), de 2010, estima que 13 jovens sejam assassinados diariamente no país. A pesquisa, em 267 municípios com população superior a 100 mil habitantes, mostra que 2,03 em cada mil adolescentes brasileiros são vítimas de homicídio antes de completarem 19 anos. A Bahia ocupa o 7º lugar no rank de jovens assassinados no país
Na avaliação das 35 organizações que compõem a Rede de Monitoramento Amiga da Criança, “não houve, nos últimos 20 anos, no Brasil, nenhuma ação transformadora nas condições de vida das crianças em situação de rua ou abrigamento, nem de suas famílias”. Pelo contrário, “cada vez mais as ações se voltam para o aumento da capacidade desses abrigos e para tornar ainda mais severas as punições e os mecanismos repressores”.
Temos, portanto, além da rua, altos índices de jovens cumprindo medidas socioeducativas, sob privação da liberdade, em unidades de internação. Afinal, o que está em jogo nessa grave realidade não é só o futuro desses jovens, mas o da própria sociedade brasileira. (Blog de Albenísio)































