“A internacionalização velozmente multiplicante da Cidade do Salvador, coloca-a, primária, estrutural, básica e fundamentalmente, no topo, no cume, no vértice, no concerto da história universal das grandes metrópoles do mundo.
Não é puxada de brasileiro, coisa do gênero, mas, muito real e verdadeiramente, uma constatação sobejamente evidenciada inclusive, pelos turistas e, principalmente, pelos meios de comunicação, destacando-se, entre estes, o cinema, Glauber que o diga do silêncio inaudível e pacífico do túmulo...
Wellington da Fonseca Ribeiro
Salvador é, assim, por profundas, variadas e fartas razões de ordem histórica, uma cidade literalmente ligada a multiformes fatores que não podem – sob pena de irresponsabilidade e falta de ética histórica – serem considerados de somenos importância. Vamos devagarinho, sem gravames, sem paixões políticas desordenadas e, sobretudo, desorientadas, a esses fatores, os quais se prendem aos contextos interno e internacional.
Conta-nos a história factual que uma expedição portuguesa descobriu a Baía de Todos os Santos em 1501, sítio em que ergue Salvador. A ocupação, todavia, só se efetivou com a criação do governo geral em 1549, pois o Recôncavo fez parte das terras da capitania de Francisco Pereira Coutinho, que não teve êxito.
Tomé de Souza, o primeiro governador geral, nome da atual praça municipal, onde se encontra a prefeitura, trazia, entre outras, a incumbência de fundar uma cidade, a primeira do Brasil. Tomé – não confundir com São Tomé – deu conta do recado e fundou Salvador, sendo esta, capital da Colônia até 1763, portanto, há, precisamente, 219 anos rolados.
Importantemente – talvez por uma questão de fina sensibilidade engenherística e arquitetônica – o governador geral utilizou a Colina da Sé como núcleo original para a construção da cidade. Não é à toa que Salvador é considerada, pelos que entendem do ramo, um documento vivo, visualmente palpitante da arquitetura colonial brasileira.
Introdutoriamente, pretendemos, aqui, com responsabilidade científica do prisma histórico, dizer que a cidade mais velha do país é uma das mais formosas e famosas do mundo deve, efetivamente, guardar, preservar, a imprescindível coerência do ponto de vista da história das civilizações, notadamente.
Para começar, do ângulo topográfico, geográfico, geométrico e histórico, a prefeitura da capital da Bahia está situada na localidade mais coerente com a sua origem pois, como estamos carecas de saber, o Largo do Pelourinho e a área da Sé até a Praça Castro Alves, formam o centro da cidade antiga. Isso, sinceramente, para um povo que tem o mínimo de respeito para com a história de sua cidade é ponto de importância principal e fundamental.
Outro aspecto, realçante, é que a Cidade Alta e a Cidade Baixa são características principais desta cidade mundialmente conhecida e bem conhecida como a cidade de dois andares. Pois bem: a prefeitura se encontra - como a perpendicular no meio da reta em termos geométricos – entre (mais ou menos no meio) de sua mais notável característica.
Sintetizando, parcialmente, além da prefeitura se encontrar na parte original, nascente desta cidade, está, ainda, significativamente entre sua característica geográfica principal, as já mencionadas cidades Alta e Baixa. Isto, reflexivamente, sob os critérios de responsabilidade de unidade arquitetônica merece, por lógica, detida e acurada compreensão.
Vejamos, ainda, outras razões que robustecem o que estamos acima afirmando. Salvador, no século XVI, concentrava-se na área hoje compreendida entre o Pelourinho e a Praça Castro Alves, no sentido norte-sul. Limitada a leste pela escarpa, estendia-se para oeste até um vale, não ocupado até então, que corresponde a atual Baixa dos Sapateiros. O enriquecimento proveniente da expansão da lavoura canavieira no Recôncavo se reflete na cidade, que continua crescendo no século XVII.
Data da segunda metade e da primeira do século XVIII a construção de palácios e solares, conventos e igrejas, que marcam os limites dessa nova fase de expansão urbana; predominante pelo alto das colinas: para o norte, o Convento do Carmo e a Capela de Santo Antônio; para o sul, o de São Bento e para o oeste, o do Desterro.
Como se vê, a prefeitura localiza-se nas proximidades dos grandes monumentos arquitetônicamente mais ricos, famosos e fortemente demandados pelos turistas de todos os quadrantes interno e externo que nos visitam.
Sendo assim, Salvador uma capital turística de fama internacional ascendente, é justo e sobretudo racional que sua prefeitura funcione nessas áreas além, é óbvio, das razões supra.
Por isso, de propósito, não citaremos as razões mais decantadas como, por exemplo, morte do comércio no centro, dentre muitas outras, para, só, exclusivamente, enforcarmos a feição histórica da metrópole, a qual, por si só, por uma questão de lógica e de história, defenderemos que a prefeitura deve permanecer na parte secularmente mais velha desta cidade que no próximo ano completará 434 anos.
Uma coisa, entretanto, é certa: pelo gosto da grande maioria dos brasileiros, que moram em Salvador, jamais a prefeitura sairá do centro histórico da capital. Caso exista algum órgão com vocação e formação democrática nesta terra, que faça proceder uma votação para se saber quem concorda com transferência da prefeitura. Que não prevaleça, assim o ‘animus’ de um só soteropolitano ou de alguns. Salvador não pertence só a Bahia, ao Brasil, mas, sem prolixidade, ao patrimônio histórico universal. Por isto, sua prefeitura terá que continuar no centro histórico da mais velha cidade brasileira.
Que os senhores vereadores procedam esforços em todos os níveis – cultural, cívico-comunitário, jurídico, político –, para garantir a prefeitura no centro da cidade, no coração de Salvador, como bem disse o frei Vicente do Salvador – ‘O rei criou a baía para que fosse como um coração no meio de um corpo’. Não tem lógica, poesia, filosofia, unidade arquitetônica, romantismo, boemismo, a prefeitura fora do peito esquerdo da Cidade de São Salvador. – “Do lado esquerdo do peito no fundo ela nos quer bem”. Fiat lux!
(Texto publicado no Jornal A Tarde, seção Opinião do Leitor, edição de 5 de janeiro de 1983, há, portanto, 27 anos rolados.)
Governa Salvador, de 461 anos, um Prefeito reeleito, evangélico, talvez, o primeiro da cidade nessa condição, tendo o mesmo derrotado, por duas vezes, a deputada Lídice da Mata, aspirante à PMS em 2004. Em 2008, o atual Prefeito superou ambos (ele e ela) em segundo turno. A mais extraordinária das novidades é que Pinheiro e Lídice são candidatos ao Senado Federal em outubro próximo. Quem não pode se queixar de nada é o bom ortopedista Otto Alencar. Qualquer piripaque que der no governador, ele entra. Adiós! Prefeitura no coração e não saiu mesmo!
* Wellington Fonseca Ribeiroé jornalista, OAB-BA, número 5588, último suplente de deputado federal, de esquerda, pelo PDT-BA.