Santiago do Chile - O ex-presidente Ricardo Lagos, que governou o Chile de 2000 a 2006, propôs hoje eixos fundamentais "para construir a unidade nacional", com o objetivo de reconstruir a nação após o devastador terremoto de fevereiro.
Em uma carta publicada pelo jornal La Tercera, Lagos apontou que é fundamental definir "a que Chile queremos chegar, como financiaremos de uma forma adequada a reconstrução e quais medidas concretas vamos implementar imediatamente".
"O Chile praticamente não tem dívidas do setor público. Será que seremos afetados com uma dívida de 10% do Produto Interno Bruto? Essa cifra no mundo de hoje é muito, muito pequena. A Alemanha, por exemplo, tem uma dívida pública da ordem de 70% do produto", continuou.
Recordando a recente campanha eleitoral, que terminou com a eleição do atual mandatário, Sebastián Piñera, vencedor do segundo turno das presidenciais, Lagos lembrou que "todos enfatizaram a necessidade de melhorar a distribuição dos ingressos", e após o abalo sísmico este plano não deve ser mudado, "quando discutirmos sistemas tributários para financiar a reconstrução, coloquemos esta meta na discussão".
O ex-chefe de Governo do país, integrante da opositora Concertación, lançou ainda advertências aos que fizeram doações para as vítimas do tremor. "Nestes dias, vimos expressões de solidariedade, mas as doações realizadas têm que ser doações, ou seja, sem esperar nada em troca".
"Não é adequado alguém realizar uma doação e logo parte dela ser deduzida de seus impostos, porque nesse caso está doando dinheiro de todos os chilenos", esclareceu.
Lagos, que já foi enviado da ONU para assuntos relacionados à mudança climática, falou também que, no futuro, o Chile terá que competir pela emissão de gases do efeito estufa, por isso a reconstrução pode ser uma oportunidade de "fomentar a energia renovável não-convencional".
"Se é preciso construir milhares de habitações, por que não exigimos que todas tenham também seu próprio sistema de energia solar ou eólica?", questionou.
"O terremoto é uma oportunidade para nos unirmos e dar novo impulso ao país que todos queremos", com decisões que reflitam "verdadeiros consensos onde a participação de todos é relevante", opinou o ex-chefe de Governo.
O movimento telúrico de 8,8 graus na escala Richter e o consequente tsunami que atingiram o centro-sul chileno no dia 27 do último mês deixaram pelo menos 500 mortos, diversos desaparecidos e mais de dois milhões de pessoas afetadas. Estima-se que cerca de 500 mil construções foram destruídas parcial ou totalmente.
Ontem, ao visitar um bairro da capital Santiago, Piñera anunciou que seu governo implantará "uma economia de guerra" e uma "profunda austeridade" nos gastos públicos. "Planejamos um corte geral de 5% nos gastos correspondentes aos bens de consumo, compras de equipamentos e maquinarias em todos os ministérios", explicou.