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:: Opinião ::
Educação
Prorrogação da matricula e a crise do ensino
  • Rubens Neuton *
  • Terça-feira, 09/03/2010 16:48

    A abertura, no início da semana passada, do ano letivo de 2010 nas escolas da rede estadual da Bahia, foi anunciada com certo destaque pela imprensa, que, no entanto, não atentou para um fato que vem ocorrendo com o sistema de ensino nos últimos anos: o alto índice de evasão escolar e, o mais grave, o progressivo esvaziamento dos colégios públicos, em Salvador e em muitas outras cidades do interior do estado.

    Preocupante, o fenômeno expõe o processo de falência do ensino oficial e revela que a educação brasileira vem, ano a ano, se deteriorando pela ausência de políticas públicas, que, efetivamente, atendam às exigências de um novo modelo social, diversificado e coerentemente articulado com a contemporaneidade.

    Foto
    Rubens Neuton é jornalista e advogado.
    A impressão que se tem, é que a crise do ensino público na Bahia está sendo ignorada ou, no mínimo, subdimensionada. A sociedade tem preferido se comportar como se desconhecesse a situação, enquanto os dirigentes da política educacional têm enfrentado a realidade com paliativos, do tipo “enturmação” de alunos, sem atacar a origem e as causas do problema. Pelo menos é o que sido noticiado. Sem a mesma repercussão na mídia, procedimentos mais drásticos, inclusive a desativação do turno da noite e até o fechamento de escolas, já foram adotados, mas, até então, não se divulgou nenhuma providência que possa reverter o lamentável quadro, cuja tendência tem se agravado a cada ano.

    É realmente estranho o que vem ocorrendo com a educação pública brasileira e em especial a baiana, o que tem levado desestímulo à nobre carreira do magistério, desistência da profissão e desânimo àqueles professores que insistem em manter a sua atividade como um sacerdócio em favor da formação de novas gerações.

    Em Salvador, de acordo com informações divulgadas pela imprensa, foram fechados, no final de 2009, colégios públicos tradicionais como o Luiz Viana, Marquês de Abrantes, Divino Mestre, Erwin Mongernrot e o Colégio Estadual Marco Antonio Veronese, uma medida que surpreendeu a muita gente, sobretudo diante da expectativa da criação de novas escolas para atender ao natural crescimento da população da cidade.

    Ainda de acordo o noticiário da imprensa, mais de um milhão de alunos está de volta às salas de aula das escolas públicas baianas, mas o total de vagas na rede oficial do ensino não foi preenchido, levando a Secretaria Estadual da Educação a decidir pela prorrogação das matriculas até o dia 31 de março e apelar, por meio de anúncios publicitários na televisão, aos estudantes ou aos seus responsáveis, para procurarem os postos informatizados ou a secretaria das escolas nos municípios onde não existem os postos, para efetuarem a matricula.

    Quem milita na área sabe o quanto uma medida emergencial com esta pode atrapalhar a rotina dos colégios e o cumprimento do calendário escolar, mas prorrogar a matrícula foi o mínimo que a Secretaria da Educação poderia ter feito para encarar uma situação de esvaziamento, que até bem pouco tempo era impossível de registrar nas escolas baianas.

    Fui professor do ensino médio em Salvador nos anos 80/90 e em vez de espaços ociosos, professores excedentes, turnos desativados e escolas fechadas, vi salas superlotadas, produtivas reuniões de professores e muita agitação nos corredores e pátios das escolas, comandada pela saudável, alegre e irreverente presença dos estudantes. Um cenário freqüente no bairro de Nazaré, local de tradicionais colégios públicos, como o Central, Severino Vieira e Teixeira de Freitas, hoje, lamentavelmente, ostentando uma apática vida estudantil.

    O que vem acontecendo com o ensino público é, realmente, muito preocupante. Falo desse problema não como um especialista, mas como um cidadão que vive a realidade de seu tempo e acompanha atento a dinâmica de sua época, de acordo com os acontecimentos que mobilizam a sociedade e exigem mudanças para se adaptar a essa nova realidade social.

    Não tenho dados oficiais para fundamentar o que venho observando com relação à educação oficial, deixando, obviamente, esta tarefa para os especialistas e estudiosos do setor. Apenas faço um alerta, preferindo acreditar que o tema já seja motivo de preocupação para muita gente, considerando o fato de o processo de falência do ensino e de esvaziamento dos colégios já venha ocorrendo há alguns anos.

    Este ano, o problema apenas assumiu uma dimensão maior, ao ponto da Secretaria da Educação ter reconhecido publicamente a preocupante realidade, ao adotar a medida extrema de prorrogar a matricula. O que em anos passados chamava atenção por meio de faixas afixadas na frente dos colégios convocando alunos para o período regular das matriculas – o que já era um sintoma da crise dos dias atuais - agora virou matéria paga na TV, com uma diferença: matricule mesmo fora do prazo, antes que outras escolas fechem suas portas por falta de estudantes.

    Algo inconcebível e impossível de se imaginar na rede oficial do ensino do meu tempo de professor, quando uma vaga na escola pública era disputada por muita gente, ao ponto de muitos até dormirem na porta dos colégios para garantir a matricula e assegurar o seu direito de estudar. Se a escola de hoje está dissociada da realidade contemporânea e já não atrai a atenção dos alunos, é preciso, com urgência, se pensar em novas propostas pedagógicas e em um modelo educacional, que preserve a função institucional da educação publica e fortaleça o seu papel de formador da cidadania e de construtor da sociedade.

    * Rubens Neuton é jornalista e advogado.

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