“Em verdade vos digo que o Brasil usou as fragilidades as deficiências e o caos do meu país. Fez do Haiti base para granjear simpatia à sua imagem no exterior. Manipulou a nossa pobreza e obscurantismo em “nome” da ONU para conseguir um assento no Conselho de Segurança”.
Historiador, professor, brasilianista, Jean Pierre Dumont é um haitiano que atravessou as montanhas da República Dominicana e se refugiou nos Estados Unidos. Seu pai foi assassinado pela policia do ditador Duvalier Papa Doc.
A seguir, trechos de sua mais recente mensagem-depoimento: “há raças e povos que se transformam em países e que dão certo, progridem, e outros não. Antes da chegada dos espanhóis, os astecas e os maias estavam em extinção, as tribos bárbaras que sacudiram o império romano desapareceram como força social e militar. Antes do Brasil o Haiti proclamou-se independente. Invadimos e dominamos a outra parte da ilha descoberta por Colombo. A população do Haiti maior que a da Republica Dominicana produzia mais, era mais rica. Mas a corrupção e o obscurantismo foram nos solapando. De 1843 a 1915 tivemos 21 presidentes assassinados ou destituídos. Com medo de uma nova escravidão nos isolamos, proibimos estrangeiros de possuir terras e fechamos nossos portos para judeus, árabes, europeus. Passamos a imagem de povo hostil. A economia sempre foi a de subsistência. O país isolou-se enquanto o vizinho, com apoio da Espanha e depois dos EEUU, criou indústrias e uma economia de exportação de cacau, tabaco, café, cana-de-açúcar e frutas, é o maior exportador de abacate no mundo. Fomos destruindo as nossas florestas. Enquanto o vizinho tem 74 parques e reservas nacionais, enquanto o presidente Balaguer usando o exército prendeu destruidores de florestas e fechou serrarias no Haiti, nós derrubamos para fazer carvão, o meio ambiente foi devastado, nossos rios e mananciais secando, o solo, super usado sem forragem e nutrientes virou áreas desérticas.
O povo voltou-se mais ainda para o vodu (magia negra, quimbanda) em busca de soluções para seus problemas e o creole, dialeto falado só no Haiti isolou ainda mais o país. Temos dois presidentes vivendo, e bem, no exterior, Baby Doc na França e Jean Aristide na África do Sul. Não há grupos de resistência, há um conformismo político e cultural tão devastador como a AIDS, malária, tuberculose, total falta de alternativas. A França lavou as mãos, alguns franceses tocam negócios turísticos e falam do palácio que Napoleão deu para a sua amada Josephine A dinâmica comercial e de consumo precária. Taxa de crescimento populacional de 3% ao ano. País pobre e super povoado a consumir suas reservas naturais. Não é verdade que os EUA simplesmente foram lá e invadiram. A primeira guerra mundial, a defesa do Canal do Panamá, a Segunda Guerra, o caos interno e os conflitos com o vizinho forçaram os EUA a tomar medidas preventivas no Caribe, como agora, ao enviar essa colossal ajuda, tem que blindar o Haiti fragilizado e alvo de fácil infiltração por narcotraficantes, terroristas e crime organizado. “É triste reconhecer, mas, o Haiti é de uma pobreza material, social e cultural tão grande, com poucos recursos naturais, com pouca gente treinada e educada que é difícil saber por onde começar a reinventar o país. Com o terremoto pior ainda”.
O papel do Brasil - Concordo com Jean Pierre Dumont. Ao usar o Haiti fragilizado e sem alternativas o governo meteu o Brasil numa “fria”. Vendeu-nos a lorota de guerrilhas e gangues militares, inexistentes. Batemos continência à também fragilizada Organização das Nações Unidas e voilà, soldados brasileiros foram salvar o Haiti do caos há muito estabelecido. A política do cala-boca com Bolsas foi exportada. Com o bom comportamento dos soldados, remédios, farelo de soja, fraldas e umas partidas de futebol, principalmente, com os dois RR que os haitianos adoram tudo ia às mil maravilhas. Facilidades para Evo; negócios “milionários” com Chávez; doações; anistia de dividas para países africanos; blablablá em Davos; elogios no Le Monde, jornal de Sarkozy de olho na venda dos aviões; o “Cara” de Obama, um elogio de duplo sentido; confete nos editoriais de El País mantido pelos bancos e multinacionais de telefonia espanhola que adoram os lucros no Brasil; jantar com a Rainha Elizabeth; sorrisos de Bill Gates que sonha em fazer do Brasil uma Microsoft Inc; parabéns do Irã. Pronto, a diplomacia costurou os votos suficientes ao assento no Conselho de Segurança da ONU. Amorim no Panteão da Glória! Mais uma Mentira para o mundo e para nós. O Haiti apenas como meio.
Tiro pela culatra - Meu avô diria que o tiro saiu pela culatra e aqui se faz aqui se paga. O terremoto derrubou o circo montado, mas, em longo prazo, com o Brasil atuando e gastando mais, a nova e devastadora tragédia pode ser benéfica ao tão cobiçado assento na ONU. No choro pela morte de brasileiros o secretário do presidente da República diz que o Brasil deve adotar o Haiti, que tem o pior IDH do mundo, tirante a África. Ele não sabe qual o IDH** do nosso Haiti, o Maranhão? Será que o Gabinete de Crise agirá com a mesma rapidez e eficiência em novas tragédias no Brasil como o fez para o Haiti? Catarinense criada no Paraná eu gostaria de saber.
Dava para o Brasil sair do atoleiro diplomático no Haiti, agora não dá mais.
**Índice de Desenvolvimento Humano resulta da combinação de educação, padrão e duração de vida.