Enfim, apareceu alguém, com competência comprovada, para fazer um diagnóstico rápido, mas consistente sobre a crise do sistema ferryboat. E que o pessoal do governo deveria analisar com profundidade e aproveitar. Atenção, portanto, Secretaria de Infra-Estrutura. Atenção Agerba, órgãos responsáveis pela regulação e fiscalização da TWB. É bom ler com calma, conhecer um pouco da história do sistema para não ficar aceitando tudo o que a TWB quer. Atenção secretário João Leão: o senhor que deu o aumento recente de 10% à TWB e que agora fala em "baixar o preço" porque está muito pesado para o povo pagar, tenha um pouco de paciência e se dedique com atenção ao que diz Wilson Andrade, que é presidente atual da Associação Comercial Brasil-China e que foi presidente da extinta Companhia de Navegação Bahiana (com H mesmo) no governo de Waldir Pires. É sempre bom aprender um pouco, secretário! |
| Wilson Andrade, em 1988, no governo Waldir Pires, modernizou o sistema ferryboat com idéias simples. E acabou com o déficit da estatal CNB, o que para muitos era impossível. Mas no governo Paulo Souto (1966), o sistema foi entregue ao Comab, depois à Kaimi até parar nas mãos da TWB. Nada mudou, tudo piorou. |
O ex-presidente da Companhia de Vageação Bahiana (CNB), Wilson Andrade, resumiu assim a crise sem fim do sistema ferryboat comandado pela TWB.
"A administração da TWB adota uma política suicida e de afastamento da clientela. A empresa mostra uma planilha com prejuízo e o Governo autoriza o aumento. Assim, muita gente deixa de viajar e novamente vem o prejuízo e, posteriormente, mais um aumento de tarifa".
Quer mais que isto? Foi realmente o que aconteceu no final de ano. A TWB alegou que estava no vermelho porque o governo lhe devia 18% de reajuste de tarifa. O governo foi lá e deu 10%. A empresa agradeceu, vai faturar alto no Verão, mas quando chegar no inverno, praticando tarifas irreais, vai chorar de novo nos pés do papai governo.
É muito caro, mas caro mesmo, se pagar R$ 100 por uma passagem de ida e volta para a Ilha de Itaparica, para quem viaja em um carro pequeno. Só a TWB, que é muito mal administrada e nunca adotou práticas modernas de gestão, que não enxerga isso.
Wilson Andrade, para quem não sabe, foi o presidente da CNB, que era a estatal do Governo do Estado encarregada de operar o sistema ferryboat. Foi ele, no governo de Waldir Pires, que implantou o sistema de venda de bilhetes com hora marcada e teve a brilhante idéia de transformar dois ferries tradicionais em dose-dupla, que estão até hoje operando, apesar de serem os mais antigos da frota (1972). Estamos falando dos navios Agenor Gordilho e Juracy Magalhães Jr.
Foi com Wilson Andrade que o sistema ferryboat bateu um recorde que até hoje não foi superado: em 1988, a CNB transportou 5,5 milhões de passageiros e mais de 1 milhão de veículos. Vejam só: isto há 22 anos atrás.
Hoje a TWB diz que transporta por ano 700 mil veículos e perto de 5 milhões de passageiros. Um retrocesso que comprova a tese de Wilson Andrade: não é aumentando tarifa que o sistema se tornará viável.
Mais ainda sobre Wilson Andrade: quando o então governador Paulo Souto, em 1995, anunciou que o sistema ferryboat seria transferido para uma empresa privada, Andrade colocou sua empresa para participar da "concorrência". Mas foi sumariamente alijado e nem chegou a entregar os envelopes.
Paulo Souto e o secretário dos Transportes, Eraldo Tinoco (já falecido) preferiram optar por um "consórcio" chamado de Comab, formado aqui na Bahia e muito às pressas. A arrumação tinha como chefe principal o empresário paulista W. Washington, aquele mesmo ligado a Celso Pitta, na época prefeito de São Paulo.
O resultado da escolha de Souto e Tinoco todos na Bahia já sabem: o sucateamento completo da frota do sistema ferryboat e de outras embarcações entregues pela CNB ao consórcio, como o navio Maragojipe e a Lancha Maré, esta incendiada misteriosamente no Terminal de Bom Despacho.
Quando Paulo Souto e sua equipe optaram pela desastrada concessão do sistema ao Comab, Wilson Andrade alertou ao então governador:
"Recomendei ao governador Paulo Souto para não entregar o sistema a uma empresa apenas e sim para duas ou três, para que houvesse concorrência entre elas".
Precisa mais que isto? Era a concorrência entre duas...três concessionárias que poderia melhorar a operação do sistema e, consequentemente, oferecer aos baianos um serviço digno. Não é aumentando tarifa e não é o governo injetando dinheiro numa empresa privada, através da compra de motores para os ferries, que a a crise da TWB será resolvida.
Andrade fez essa recomendação a Souto porque quando presidente da CNB conheceu vários sistemas tipo o nosso ferryboat na Europa e Estados Unidos. Ele sabia, na época, que se a concorrência fosse aberta, apareceriam empresas até de outros países interessadas. Andrade chegou a apresentar filmes com embarcações modernas que já operavam em travessias curtas, parecidas com a Salvador-Ilha de Itaparica, em outros países.
Navios modernos, velozes e que ganhariam de goleada do ferry "Ivete Sangalo", que a TWB aponta como "tecnologia do outro mundo". Mas Paulo Souto e Eraldo Tinoco preferiram o Comab, a Kaimi e agora a TWB, para azar dos usuários do ferryboat.
"A grande maioria dos ferries modernos não realiza manobras, são como cobras de duas cabeças e viajam nas duas direções. Por isso, o sistema baiano deveria adotar outro sistema de motorização, no qual o motor gira 360º. Isso encurtaria o tempo de viagem e significaria redução de custo, pois gastaria menos combustível", revela Wilson Andrade".
Pois é. A "modernidade" do "Ivete Sangalo" da TWB
não é uma cobra de duas cabeças. O "Ivetão" faz manobra, entra de ré, na reversão, quando atraca no terminal de São Joaquim. Isto a TWB não quis ver e nenhum órgão do governo se preocupou. Onde estavam os técnicos da Agerba? Será que não viram o projeto antes? É um detalhe que influencia, sim, na operação e que não poderia faltar a um projeto ''revolucionário'' como a TWB diz que é o "Ivete Sangalo".
Wilson Andrade reaparece em um momento muito oportuno. O Estado não deve nem pode temer uma intervenção na TWB. Ter medo de que? Os ferries não são da TWB... são todos do Estado! Falta determinação para colocar um interventor?
Então, como se diz por aí, "este é o cara" (Wilson Andrade) para o governador Jaques Wagner chamar e mandar assumir o ferryboat. Foi assim que Waldir Pires fez e deu certo.
ATENÇÃO: Vale muito ler esta matéria: ----> •
Ferry-boats apodrecem depois da privatização