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Educação
Volta da Filosofia e da Sociologia às escolas é uma vitória da Bahia
  • Por Rubens Neuton
  • Quinta-feira, 05/11/2009 - 11:35

    Entrevista: Wellington Fonseca Ribeiro

    Foto: Silfredo Freitas
    Wellington da Fonseca Ribeiro
    Cassadas do Ensino Médio brasileiro nos primeiros anos da ditadura militar (1964/1985), a Filosofia e a Sociologia voltaram, por força de lei federal, a partir deste ano, obrigatoriamente, às escolas públicas e particulares. Só na Bahia, cerca de 650 mil alunos estão matriculados no ensino médio. Nesta entrevista ao Jornal da Mídia, o jornalista, professor licenciado em Filosofia e advogado (OAB nº 5588) Wellington Ribeiro, que coordenou a campanha na Bahia em defesa das duas matérias, responde a 12 perguntas sobre a repercussão da medida e resume a história do movimento, que, 41 anos depois, comemora a vitória da luta contra essa decisão do governo ditador, considerada, na época, pela comunidade acadêmica e intelectual, arbitrária, autoritária e prejudicial à formação da juventude e aos próprios interesses pátrios.

    Jornal da Mídia – A partir deste ano, a reinclusão da Filosofia e da Sociologia na grade curricular do Ensino Médio brasileiro tornou-se obrigatória por lei federal, corrigindo um erro de 1968 cometido pelo governo da ditadura militar (1964/1985), ao banir as duas matérias acusadas de conteúdo subversivo e prejudicial à formação da juventude. A intelectualidade brasileira, inclusive a baiana, reagiu à medida por considerá-la arbitrária e reacionária. Na sua opinião, o que levou o governo da época a tomar a decisão e quais a repercussão desse ato?


    Wellington Ribeiro – A maior vitória do golpe ideológico de 1964 foi ter destruído, de propósito, o ensino público a partir do antigo primário até o final do curso médio, para, efetivamente, imbecilizar e incapacitar, despatrioticamente, a nossa juventude.

    JM – Desde o início, a Bahia se destacou na luta pelo retorno das duas matérias e você, na época (1981), jovem recém-formado em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia e estudante de Filosofia da mesma instituição, foi o coordenador principal do movimento baiano em defesa da causa. Como transcorreu o movimento e quais as conseqüências da medida autoritária do Governo para a formação intelectual, humanística, política e social da juventude brasileira?

    WR – Só os jovens são capazes, quando devidamente instrumentalizados e politizados, de mudar e transformar a sociedade para melhor. Todos os grandes movimentos transformadores (Dois de Julho, Independência do Brasil) foram movimentos produzidos por jovens que são as forças motrizes da História. O golpe militar de 1964 teve como missão precípua subordinar os interesses brasileiros aos desígnios multiimperialistas dos Estados Unidos, dentre outros países do comando capitalista mundial. Então, enfraquecer politicamente a juventude era uma necessidade peremptória para que isso acontecesse.

    JM – Como a decisão do Governo repercutiu na comunidade acadêmica e qual a reação dos estudantes, professores e intelectuais da Bahia à medida? Conte um pouco do histórico do movimento, inclusive da participação da Bahia na luta pela volta das duas matérias ao Ensino Médio.

    WR – A participação da Bahia na campanha pela recolocação obrigatória da Filosofia e da Sociologia no Ensino Médio foi de capital importância, porquanto a tradição de destacados educadores baianos, como Anísio Teixeira e Carneiro Ribeiro, já apontava para isso. A Filosofia e a Sociologia foram banidas do curso médio em 1968, exatamente para diluir o caráter ideológico e político do alunado do Ensino Médio que antecede a formação superior. Tudo começou a partir da 34ª Reunião Nacional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada em Salvador, em 1981, no campus de Ondina, da Universidade Federal da Bahia, quando a plenária aprovou moção de minha autoria defendendo a volta das duas matérias. Depois disso, deslanchou-se, sob minha coordenação, uma campanha vigorosa na imprensa baiana e na comunidade acadêmica docente e discente pela reimplantação da Filosofia e da Sociologia no currículo do Ensino Médio, consideradas fundamentais no dia a dia de cada pessoa. Nessa época, eu era jornalista formado pela UFBA, tendo inclusive presidido o Diretório Acadêmico Wladimir Herzog (1974/1975), sempre atuando em defesa dos direitos humanos, da desconcentração da renda, da democracia, da cultura e dos interesses dos menos favorecidos.

    JM – O que agora é obrigatório por força de lei federal, já vinha ocorrendo em alguns colégios brasileiros a partir de resolução dos Conselhos Nacional e Estadual de Educação. Apesar de válida, a iniciativa dessas escolas não produziu resultados capazes de reparar esse erro do governo militar. Você acha que agora há condição de reconquistar a importância dessas disciplinas para as novas gerações e, caso positivo, o que pode ser feito para se alcançar esse patamar e recuperar o tempo perdido?

    WR – Muito importante. Dois temas são mundialmente prioritários em todos os países do globo: Educação e Meio Ambiente. Os recursos geobionaturais, começando pela água, flora e fauna, estão indo a passos largos para a extinção. Diante disso, é absolutamente imprescindível um fortíssimo nacionalismo patriótico para defendermos as nossas riquezas, acima e no interior do nosso solo. O sentimento nacionalista aflora mundialmente com altíssima repercussão na América do Sul, na América Central e na América do Norte. O ensino obrigatório da Filosofia e da Sociologia vai ajudar a nossa juventude a tomar consciência de todo esse problema e lutar até a morte, se for o caso, em defesa de nossas riquezas, que são propriedades de todos os brasileiros.

    JM – Em recente entrevista, a professora Sônia Santos, coordenadora de Ensino Superior da Secretaria da Educação da Bahia, reconheceu que há limitação de professores para ensinar as duas matérias nas escolas da rede estadual, principalmente no interior do estado, tendo informado que as universidades públicas estariam se mobilizando para criar cursos de Filosofia e Sociologia e formar novos professores. Como você analisa essa questão e qual a sua opinião sobre a adoção de medidas emergenciais para solucionar o problema?

    WR – A lei do grande mestre Darcy Ribeiro, parceiro de Anísio Teixeira, vai nessa direção: cursos de Licenciatura em Filosofia e em Sociologia, num primeiro momento, podem ser abertos pelas universidades públicas que têm muito mais condição de implantá-los, por serem instituições oficiais. Isso facilita, portanto, a preparação de professores especificamente para lecionar ambas as matérias. Até que cheguemos a isso, as secretarias de educação devem preparar professores das áreas de humanas para atender a essa exigência legal.

    JM – Exatamente pela falta de professores se adotou a prática de reimplantar as duas matérias de forma gradual, ou seja, em 2009, na 1ª série do Ensino Médio; 2010, 2ª série; 2011, 3ª série e, 2012, na 4ª série, para os cursos com quatro anos de duração. Para você, considerando a situação das escolas, essa medida é a mais correta?

    WR – Já que não há condição de adotar em todas as séries, a melhor decisão foi a reimplantação das duas matérias de forma gradual.

    JM – Também em recente entrevista, o professor Rui Oliveira, coordenador geral da APLB/Sindicato, entidade que congrega os professores e trabalhadores da Educação na Bahia, fez sérias criticas à Secretaria Estadual de Educação, que, segundo ele, não se preparou para reimplantar as duas matérias nas escolas da rede estadual. Disse que este ano não haveria condições de iniciar o ensino das disciplinas por falta de professores. Diante dessa constatação, como fica o cumprimento da legislação que tornou obrigatória a volta da Filosofia e da Sociologia ao Ensino Médio?

    WR – Por muitos anos essas matérias ficaram fora do ensino de nível médio. É natural que tudo isso esteja acontecendo e o importante é não deixar que conservadores e reacionários aproveitem dessa situação para remassacrar a Filosofia e a Sociologia, inimigas de todos aqueles que preferem ver uma sociedade composta de imbecis, idiotas, bonecos, insetos e robôs.

    JM – Mesmo a “toque de caixa” como admitiu o professor Rui Oliveira, a volta obrigatória das duas matérias à grade curricular do Ensino Médio das escolas públicas e privadas de todo o Brasil tem sido considerada uma grande vitória da comunidade estudantil. Porque a Filosofia e a Sociologia são tão importantes para a formação do cidadão brasileiro?

    WR - Ao invés do professor Rui Oliveira vir com essa história de “toque de caixa”, ele tinha mais era que criticar os dois vetos do ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso impedindo a volta das matérias.

    JM – Em 1981, você conseguiu aprovar, durante a 34ª Reunião Nacional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada aqui em Salvador, uma moção em defesa da volta das duas disciplinas ao Ensino Médio. Como você a avalia essa medida e qual a sua repercussão em torno do movimento?

    WR – A aprovação da moção pelo retorno obrigatório da Filosofia e da Sociologia desencadeou, em nível de Bahia e do Brasil, uma dinâmica e vigorosa campanha encetada pelas universidades e pela imprensa em defesa dessa causa. A Filosofia é ensinada no Brasil desde 1580, quando aqui chegaram os padres jesuítas responsáveis pela implantação do ensino formal no país. Portanto, nunca foi estranha ao ensino brasileiro. O historiador Fernando Cardim (1625) registra que em 1580, já se ensinava a Filosofia no Colégio da Companhia de Jesus, de Olinda-Pe.

    JM – Você tem uma história de lutas democráticas que marca a sua vida desde a adolescência, juventude até os dias atuais. Em 1983, depois já formado em Jornalismo e concluindo o curso de Licenciatura em Filosofia, ambos pela Universidade Federal da Bahia, você foi expulso da UFBA. Você acha que essa decisão tem alguma relação com a sua participação à frente da campanha pela volta das duas matérias ao Ensino Médio?

    WR – Provo, tranqüilo e calmo e rigorosamente com base nos melhores documentos possíveis, que a minha expulsão da UFBA, em 27 de outubro de 1983, e o meu desligamento em 3 de novembro deste mesmo ano, foi um ato escancaradamente pusilânime, praticado pelo ex-reitor Macedo Costa, tido naquela época, como um gestor afinadíssimo com a patota linha duríssima, inimigos mortais da Sociologia e da Filosofia, como Miguel Reale, da USP, o general Meira Matos e o senhor Raimundo Padilha. Só tomei conhecimento formal da minha expulsão em 3 de novembro de 1983, 24 horas depois que Macedo Costa deixou o reitorado, para não responder pelo seu indigno e repulsante ato, baseado num processo administrativo disciplinar completamente desmoralizado.

    JM – Hoje, o contexto da Educação é bem diferente. As duas matérias banidas pelo governo militar daquela época ainda são imprescindíveis ao currículo do Ensino Médio no Brasil?

    WR – Internacionalmente. Muitíssimo importante para todos os currículos do nível médio e técnico, tanto no Ocidente, como no Oriente. Ao contrário do que parece, pois estamos vivendo no hedonismo, no consumismo e no materialismo, o mundo é, cada vez mais, mais ideológico e muito mais político. Vivemos uma era de escassez de recursos naturais e ambientais e tudo indica que os povos disputarão essas últimas riquezas na base do pau, da guerra, da invasão e do assalto aos recursos primários. Aconteceu a Primeira Guerra Mundial, houve a Segunda Guerra Mundial, aumenta a produção das armas letais nos países de tecnologia atômica, nuclear. Será que a Terceira Guerra Mundial é uma coisa ufológica, sonâmbula, utópica e irreal? A realidade aponta que não. Então, brasileiros, venezuelanos, argentinos, paraguaios, peruanos... preparemo-nos. Eles vão querer beber da nossa água e comer da nossa comida. Concluindo: a Filosofia e a Sociologia abrem uma visão micro e macro das coisas, dos seres, da vida e do mundo.

    JM – Finalizando: O movimento para a recolocação da Filosofia e da Sociologia, obrigatoriamente, no currículo (“grade”) dos cursos médio e técnico públicos e particulares em todo o país se saiu vitorioso?

    WR – Extremamente sim! Ambas, Filosofia e Sociologia, foram cassadas, banidas, rigorosamente expulsas do Ensino Médio em 1968, há, portanto, 41 anos passados –período em que as universidades produziram poucos professores licenciados para o ensino delas. Como parte do aniquilamento do teor ideológico e político da educação média, vez que a meta máxima mais importe do golpe de 64 era atrofiar, enfraquecer “los estudiantes” que sempre foram as forças vivas, dinâmicas, da História, despolitizando-a, tornando-a débil, porém, tudo isso bem encetado, de acordo com os ditames do imperialismo multicapitalista, neoliberal, parceiro poderoso do golpe para nunca mais!

    A recolocação obrigatória das duas matérias no Ensino Médio é uma vitória da Bahia, de Anísio Teixeira, Ruy Barbosa e do queridíssimo major Cosme de Farias, lutador permanente contra o analfabetismo. Até a morte.

    Tudo começou em 1981, no Campus da Universidade Federal da Bahia, em Ondina, durante a inesquecível 34ª Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Salvador, quando eu, na condição de jornalista formado e licenciando em Filosofia da mesma universidade, redigi – tendo os professores Joviniano Neto e Maria Brandão como participantes –, a moção que foi aprovada por unanimidade pelo alto colegiado cientifico que é a SBPC, detonando na imprensa baiana – A Tarde, Correio da Bahia, Tribuna da Bahia e Jornal da Bahia – a campanha nacionalmente vitoriosa.

    Em 1975, ainda estudante de Jornalismo, após estágio na Câmara dos Deputados, onde fui escolhido orador da turma, pelo voto das bancadas universitárias do Rio Grande do Sul, Paraíba e Bahia, fui preso, internado pelos agentes da polícia universitária, conduzido, coativamente, para o Hospital Psiquiátrico Ana Nery, onde fui amarrado em cama de ferro, isolado em quarto forte, completamente dopado por drogas químicas. Nunca usei isso como muleta política, como costumam fazer alguns ex-presos políticos, que disputam mandatos implorando piedade e voto.

    Em 1982, fui rigorosamente garfado no concurso de professor auxiliar da Facom, tendo à frente o intelectualmente confuso e desonesto Florisvaldo Matos, na época professor da Facom e um dos examinadores, a quem proponho que me processe, para que eu tenha a boa oportunidade de provar, documentalmente e com testemunhas, que Matos é o que afirmo acima. Neste mesmo ano de 1982 fui aprovado monitor de Ética II, do Departamento de Filosofia da UFBA. Em 1983, fui expulso da mesma universidade pelo direitista e conservador reitor Macedo Costa, por estar tocando a campanha de recolocação das matérias em foco.

    Em longo artigo publicado no jornal do extraordinário baiano Ernesto Simões Filho, onde comecei como repórter em 1975, no dia 6 de agosto de 1983, página 6, na coluna “Opinião do Leitor”, sob o título “Educação”, fecho o escrito da seguinte maneira:

    “Encerrando, diante dos números, dos rombos que assolam o país, diante da corrupção de cima baixo e de baixo para cima, posso entender porque o senhor Miguel Reale, o general Meira Matos e o senhor Raimundo Padilha, dentre outros babalorixás iguais ou mais reacionários do Ministério da Educação e do Conselho Federal de Educação não aceitam, não querem a recolocação da Filosofia no ensino médio: a meta é imbecilizar, fazer com que a juventude colegial raciocine menos e, até, não pense, não compare, não interprete, tudo robô... Afinal eles sabem mais do que todos nós, que a Filosofia é o amor, a sabedoria...Sabidos poucos, burros quase todos. A Filosofia, cassada, golpeada, arrancada do ensino médio por interesses confessados e divulgados, quer anistia. Colegiais, pré-vestibulandos, gente que está no fim do 2º Grau esta luta é de vocês. Movam-se. Agora. Já.”

    Menos de 90 dias depois da publicação do artigo acima referido (em 3 de novembro de 1983), fui desligado da UFBA com base no Processo Faced-0018/83, o último ato do ex-reitor Macedo Costa.

    Levo essa vitoriosa campanha para as executivas Estadual e Nacional do PDT, com ênfase na Educação e no Meio Ambiente, para o presidente Carlos Lupi, para a esquerda socialista do partido.

    Getúlio Vargas, nosso máximo guru, criador do Ministério da Educação, era fascinado pela Educação, assim como Leonel Brizola e o cachoeirano Ernesto Simões Filho. E o bem-aventurado major Cosme de Farias, com o seu fenomenal 5º ano primário, foi o maior doutor informal da Bahia.

    Finalmente, agradeço à doutora Ronilda Noblat, ilustre advogada, já falecida. Ela derrubou a expulsão no Tribunal Federal da 1ª Região. Ganhei o diploma de professor licenciado. Isto, para mim, é um instrumento de luta das várias causas públicas nas quais estou envolto.

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