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:: Opinião ::
Colonizados
Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu
  • Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa
  • Segunda-feira, 20/04/2009 12:52

    Lá se vão muitos anos, é verdade. Foi em 1940 que a burguesia carioca, hoje chamada de entreguista e colonizada, se ofendeu com sua adorada estrela, Carmen Miranda. Depois de um sucesso estrondoso nos EUA, para onde foi com o espírito de quem ia conquistar a America em nome do Brasil – e levava isso muito a sério – a excelente cantora voltou ao Rio e foi de imediato convocada para cantar em uma festa beneficente organizada por dona Darci Vargas.

    Ingênua, ainda crente que os brasileiros estariam felizes com seu sucesso lá fora, ela iniciou o show cumprimentando a platéia em inglês, “Good night, people”. Um silêncio sinistro.

    Mas a cantora não se deu conta ou não compreendeu a extensão da burrice da platéia e cantou logo de cara “South American Way”, com todo o gingado e os trejeitos que, com sua linda voz, tanto seduziram o exigente e muito mal habituado público americano quando lá o que não faltava, e não falta, são bons músicos e excelentes intérpretes. O silêncio ficou mais forte e mais ensurdecedor...

    No final, Carmen foi vaiada e saiu de lá arrasada.

    Isso ainda foi no tempo em que a burguesia e o poder público eram colonizados, dependentes do Império ao Norte, hein! Assim como a Bossa Nova só foi realmente amada depois de dois momentos sublimes: o sucesso no Carnegie Hall e Tom num banquinho e com um violão cantando com ninguém menos do que Francis Albert Sinatra. Nada contra, primeiro porque sou da geração colonizadíssima pelo cinema e pela música americana, e depois porque Sinatra é um dos 5 homens que mais amei, o amigo certo nas horas certas e incertas.

    Meu espanto é outro. Estou pasma com esta geração de brasileiros puros, não infectados, para quem a Coca-Cola e chicletes são venenos, para quem Nova York é onde fica o tal portão que Dante alerta para todos tomarem cuidado antes de entrar, e onde o cheiro de enxofre é tão forte que incomodou as sensíveis narinas de Hugo Chavez, aquele senhor tão frágil e distinto.

    Não sei bem o que se passou, mas essa geração que sofre da coluna de tanto carregar ‘Yankees Go Home”, “Abaixo o FMI”, “Fora Tio Sam”, coitados (como sofreram sob a angústia de ver o Brasil se curvar diante dos States), agora está em êxtase com a admiração e o afeto desinteressados de Barack Obama pelo Excelentíssimo Presidente da República do Brasil.

    Até aí, compreende-se.

    O que me deixou assombrada foi ver a alegria com a homenagem prestada pelo desenho animado “South Park” ao presidente Lula. Prefiro o humor inglês ao americano e não costumo assistir esse desenho. Mas, diante da homenagem, lá fui eu em busca desse momento magnífico da TV americana. Fui ler também sobre a análise que os críticos americanos de TV fazem do programa, que é considerado rude, surreal, de humor negro, satirizando religião, política, sexualidade, e outros temas, de modo grosseiro, mas com bonequinhos e cenários engraçadinhos.

    No episódio “Pinewood Derby”, que foi ao ar nos EUA nesta quarta-feira, 15/4, o pai do garoto Stan mata um alienígena tido como perigoso. A polícia espacial aterrissa na cidade e pergunta pelo alienígena. O pai do garoto, que está numa conversa pelo telefone com alguns líderes mundiais, pergunta se algum deles viu o alienígena.

    A polícia espacial explica que o alienígena é procurado por roubar milhões em dinheiro do espaço e os quatro mentem sobre o paradeiro do dinheiro. A Finlândia fica indignada ao ver o pai do Sam dividir o dinheiro com aqueles quatro, Lula, Sarkozy, Gordon Brown e Ângela Merkel e ameaça revelar a verdade. Diante disso, os outros resolvem acabar com a Finlândia.

    A polícia espacial volta para mais investigações, os personagens tornam a mentir, menos a Finlândia e o garoto Sam, e aí aparece novamente o presidente Lula, respondendo aos policiais: “No changes”.

    Quer dizer, tudo com dantes no quartel d‘Abrantes. O final é tão bobinho que é melhor pular. Ficam todos mal, essa é que é a verdade, mas isso é humor e como humor deve ser considerado. Hoje, nas minhas pesquisas sobre tão momentoso assunto, vi um episódio de 24 de maio de 2007 sobre as "manifs" francesas no qual, no final, um personagem francês pergunta, assim como quem não quer nada: "Se você ganhasse muito dinheiro, o que compraria primeiro?”. E outro responde: “Un Ministre”.

    Não soube nem da França em êxtase porque Sarkozy e os franceses foram incluídos num episódio do South Park, nem zangada ou humilhada.

    Amanhã começa outro episódio da novela Latino America versus USA. Não sei se vão cantar como em outras reuniões aqui em nossa parte do mundo. Se forem, aconselho o presidente Lula a aprender rapidinho, e cantar, a bela resposta que Carmem Miranda deu àquela platéia que mencionei ao abrir este já longo artigo:

    Disseram que eu voltei americanizada

    Com o burro do dinheiro

    Que estou muito rica,

    Que não suporto mais o breque do pandeiro

    E fico arrepiada ouvindo uma cuíca.

    Disseram que com as mãos estou preocupada

    E corre por aí - que eu sei - um certo zum-zum

    Que já não tenho molho, ritmo, nem nada

    E dos balangandãs, já não existe mais nenhum.

    Mas pra cima de mim, pra que tanto veneno?

    Eu posso lá voltar americanizada?

    Eu que nasci com o samba, e vivo no terreiro

    Topando a noite inteira a velha batucada?

    Nas rodas de malandros, minhas preferidas,

    Eu digo mesmo que te amo e nunca I love you

    Enquanto houver Brasil,

    Nas horas das comidas,

    Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu.

    (de Vicente Paiva e Luis Peixoto, 1940).

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