Até que enfim o governo brasileiro terá base científica para sustentar o argumento de que a cadeia produtiva do álcool obtido a partir da cana de açúcar brasileira emite menos CO2 – um dos principais gases causadores do aquecimento da Terra - do que os combustíveis fósseis. Até hoje, os defensores da transformação do álcool em commodity internacional brandiam o argumento de que o etanol agora chamado desta maneira para agradar ouvidos estadunidenses era menos poluente do que os combustíveis fósseis e que, por isso, deveria ser transformado no substituto verde do petróleo, o vilão das mudanças no clima.
A situação mudou agora, com o estudo que a Embrapa divulgou nesta quarta (1 de abril). A pesquisa, que ainda está sendo consolidada em um texto para divulgação pelos quatro cientistas que a elaboraram, mostra que de fato o etanol emite menos CO2. Da produção ao consumo, o álcool produz, no mínimo, menos 73% de gás carbônico do que o mesmo ciclo de vida da gasolina.
OK, mas, uma pergunta que se impõe é: e daí? Ainda há muitas outras questões tão importantes a serem respondidas no que toca a esse combustível.
Ainda é necessária dedicação redobrada para esclarecer outras dúvidas e superar problemas históricos em relação à indústria canavieira no Brasil, antes que o governo brasileiro mascateie mundo afora o álcool de cana como panacéia contra o aquecimento do planeta.. E, dentre todas as questões pendentes, há pelo menos três que são emergenciais.
A primeira é a utilização em larga escala do trabalho degradante e, em muitas vezes, análogo à escravidão na indústria da cana, desde a sua implantação, no século 16. Para comprovar que este problema apesar de velho é atual, o jornal Folha de São publicou em 17 de março que “Relatórios do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) cruzados com dados do Ministério do Trabalho e do Ministério Público do Trabalho revelam que, no ano passado, o banco desembolsou R$1,1 bilhão para três usinas de açúcar e álcool multadas pela situação degradante de trabalhadores -duas das multas foram aplicadas antes da liberação dos recursos”. É inaceitável a existência de escravos modernos no Brasil.
Outra questão é a ausência de qualquer estudo estratégico do impacto sobre os recursos hídricos que estão sendo causados pela expansão desmesurada da produção de álcool. Sequer os órgãos ambientais dos estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, onde se verifica uma crescente fronteira de implantação de novos e cada vez maiores projetos sucro-alcooleiros estão aparelhados para acompanhar devidamente a expansão dessa indústria, como afirma o presidente da Agência Nacional de Águas, José Machado.
A terceira questão é: para que se destina tanto combustível? Afinal, esse produto visa a alimentar o transporte individual (automóveis, mesmo que do tipo flex) e não ao transporte de massa (trens e metrô, por exemplo), que do ponto de vista energético são incomparavelmente mais produtivos do que o carro que transporta poucas pessoas.
Em resumo, é a própria civilização do automóvel que está em cheque, e não apenas um de seus insumos. Alguns pesquisadores estão propondo abertamente o “retorno sustentável”. A tese advoga a retirada pura e simples de carros das ruas, já entupidas deles, e a sua substituição por sistemas de transportes coletivos.
Observe-se o exemplo, registrado pela Agência Brasil: “Pesquisador em meteorologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Meteorologia, Prakki Satyamurty defende que o mundo adote outro caminho para reverter o quadro de destruição do meio ambiente que tem como conseqüência as mudanças climáticas.
Para ele, o desenvolvimento sustentável já não é o caminho mais aconselhável para a reversão desse quadro. A saída agora, segundo Satyamurty, seria a retirada sustentável, ou seja, a diminuição drástica do consumo de recursos naturais, aliada a um controle de natalidade que levasse a um crescimento menos acelerado do número da população mundial.
O argumento ambiental não passa de estratégia comercial para a introdução de uma nova commodity internacional – o álcool, ou etanol. E olhar o problema das emissões apenas por esse ângulo contribui mais para confundir do que para explicar.