Sempre ouvi dizer que o Brasil era o país do futuro. Agora, pergunto: será que o futuro chegou e já passou, e estamos caminhando de volta para o passado? Quer parecer...
A África do Sul, país onde a segregação racial era institucional, finalmente se viu livre dessa aberração. A segregação, que abastardava aquele país, não foi vencida pacificamente, foi preciso muita dor para que deixasse de ser política governamental.
O outro exemplo mais formidável de segregação, eram os EUA. Apesar do banho de sangue que foi a Guerra Civil (1861-1865), do assassinato do maior defensor da união nacional, Abraham Lincoln, da escravidão ter sido abolida e o racismo proibido como política de governo, a alma do americano médio estava contaminada pela velha noção de raças, e pela convicção de que a raça branca era mais perfeita que a raça negra, ou de qualquer outra cor.
A derrota dos Confederados não se traduziu, de pronto, pela vitória do bom senso. Foram necessários mais de cem anos, muitas batalhas, algumas vitórias, muitas derrotas, outras batalhas, novas derrotas e vitórias, para que, finalmente, pudesse surgir um homem mestiço, filho de branca com negro, de cristã com muçulmano, inteligente, instruído, com visão moderna, atual, digna do século que se inicia e que é fruto de todos os séculos passados. Nada surge por acaso, tudo vai sendo empilhado como torre montada por pecinhas Lego.
Obama levantou uma nação, a mais importante e influente do mundo, com sua campanha onde a inteligência venceu: a frase com a qual ele conseguiu essa proeza é, como todos sabemos, Yes, We Can. Qual o elemento mais poderoso dessa sentença? Sim? Podemos? Ou NÓS? Evidentemente, é o pronome pessoal da primeira pessoa do plural que rege a mudança que ele quer – e vai, tenho fé – implementar.
Nós, índios, negros, brancos, hispânicos, orientais, eslavos, homens, mulheres, gays, nós, foi o que Barack Obama pregou por todo aquele imenso país, durante muitos meses. A maioria se sentiu chamada a lutar pelo que ele pregava, que nada mais é do que a continuidade do sonho dos que lutaram pela união de todos os americanos, sem distinção.
Obama, por ser um homem deste século, fez absoluta questão de não se autonomear representante desse ou daquele grupo social: Nós, foi a palavra chave, a palavra mágica, o Abre-te Sésamo. Sei que isso foi repetido à exaustão e que todos vocês estão cansados de ouvir sobre Obama e sua bela campanha.
O problema é que nosso país parece ter ficado surdo, talvez devido aos berros de Lula nos palanques da vida. Então, torna-se necessário repetir o Nós do Obama inúmeras vezes, para ver se penetra na cabeça dos membros da República Sindicalista em que transformaram nosso país. Nós, o povo, não queremos estacionar, nem voltar à metade do século XIX. Nós queremos viver plenamente o século XXI. E queremos ver competência.
Mas os poderosos, em vez de unir, querem desunir. Cotas universitárias baseadas na cor da pele; delegacias policiais para negros separadas de delegacias para brancos; grupo de deputados afro-descendentes representando o Legislativo brasileiro na posse de Obama; cota racial para cargos de confiança nos órgãos da administração direta e indireta da cidade do Rio; cotas raciais para empresas que pretendam participar de contratos para prestação de serviços com o município carioca; e, coroando isso tudo, a frase da candidata do Lula para substituí-lo: “O século XXI é dos negros e das mulheres e isso vai ser muito bom para o mundo”.
Dona Dilma é candidata à Presidência da República. É mulher, mas tem o grave defeito de não ser negra. Como resolver essa equação? Simples. Vou aproveitar uma imagem usada pelo senador Demóstenes Torres: “trouxeram o trombone de vara e agora querem mandar na gafieira”. Numa singela homenagem, sugiro para a festa da posse, “Boneca de Pixe” (1930, Ary Barroso e Luiz Iglesias). Dona Dilma vai precisar dar um jeitinho, mas isso não é difícil. Deve haver botox preto. E parceiros para ela é o que não há de faltar.
‘Ele:
Venho danado com meus calos quentes Quase enforcado no meu colarinho Venho empurrando quase toda gente Eh, eh! Pra ver meu benzinho Pra ver meu benzinho...
Ela:
Nego tu veio quase num arranco Cheio de dedos dentro dessas luvas Bem o ditado diz: Nego de branco... Eh, eh! É sinal de chuva É sinal de chuva...
Ele:
Da cor do azeviche Da jabuticaba Boneca de pixe É tu que me acaba Sou preto e meu gosto Ninguém me contesta Mas há muito branco, Com pinta na testa”.