Parte do elenco de "Birdwatchers - A terra dos homens vermelhos", produção ítalo-brasileira que conta com participação do ator Matheus Nachtergaele e de mais de 200 índios brasileiros, foi às lágrimas nesta segunda-feira durante a coletiva de imprensa para a apresentação do filme que concorre ao Leão de Ouro do Festival de Cinema de Veneza.
As lágrimas e a comoção vieram sobretudo de uma das índias protagonistas, Eliane Juca da Silva, que desabafou: "estou comovida, mas a minha presença aqui é uma grande esperança. Não quero julgá-los, mas não temos mais floresta e precisamos caçar e pescar e não há mais nada, não há mais rios, não há mais florestas. E não há nem mesmo oportunidade para os jovens. Somos seres humanos como vocês, utilizamos as mesmas roupas que vocês. Nossos chefes religiosos não podem nem mesmo pregar. Os fazendeiros nos julgam invasores, mas nós queremos apenas a nossa terra".
O filme, rodado em parte no Mato Grosso do Sul, narra o embate violento entre os fazendeiros e os índios que reclamam suas terras. Os primeiros possuem campos de cultivo de plantas transgênicas e passam as noites na companhia dos turistas que vão à região para observar os pássaros. Enquanto isso, nos limites de suas propriedades os índios vivem todos os problemas de uma integração aparentemente impossível. Problemas estes que levam muitos dos jovens ao suicídio.
Em um certo ponto do filme um grupo de índios Guarani-Kaiowa, guiados por Nadio (Ambrosio Vilhalva), acampa no limite de uma propriedade para reivindicar sua terra, no começo timidamente e depois com força.
Durante a coletiva de imprensa, Vilhalva, o verdadeiro inspirador do filme do diretor italiano Marco Bechis, comentou: "os Brasileiros conseguem nos ver apenas através de nossos suicídios. O índio não tem nenhum direito e quando descobre isso é levado a se suicidar. Estes suicídios falam, não há justiça".
"Conhecia um garoto de 19 anos que queria se matar porque esperava um filho e não sabia como fazer. Eu lhe dizia para combater, para esperar, mas ele no final acabou se suicidando mesmo", continuou Vilhalva.
Já o diretor Bechis, ao final da aplaudida projeção para imprensa de hoje, comentou: "não houve a necessidade de inventar coisas, bastou eu encontrar Ambrosio Vilhalva e falar de sua história. Sou cético que alguma coisa possa realmente mudar no Brasil para os índios. A potência econômica da agricultura é muito forte. Bastaria dar somente 20% das florestas aos índios para mudar as coisas. Mas não acredito que isso irá ocorrer jamais".