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África
Despejado, fazendeiro zimbabuano 'acampa' com família
  • AGÊNCIA LUSA
  • Sábado, 30/08/2008 - 10:54

    Johannesburgo - O agricultor Kobus Joubert que vive com a família e diversos dos seus trabalhadores à beira da estrada que liga Harare a Bulawayo, há mais de uma semana, considera-se “um indigente com 40 anos de serviços prestados à agricultura do Zimbábue e três fazendas expropriadas por agentes do regime de Mugabe”.

    Joubert, que em 1995 ofereceu voluntariamente duas das suas propriedades ao governo no âmbito do programa de reforma agrária e de redistribuição de terras da Zanu-FP, foi despejado no último dia 16 da última fazenda que explorava em Chegutu, província de Mashonaland Oeste, 110 quilômetros a sudoeste da capital Harare.

    Em declarações à Lusa por telefone a partir de Chegutu, o fazendeiro citou que um grupo de veteranos de guerra - “muitos dos quais nem sequer reconhecidos pela liderança da sua própria organização” - chefiados por Gilbert Moyo, uma controversa figura que tem supervisionado e orquestrado muitas expropriações, “lançou uma campanha de intimidação" contra si, a sua família e os seus trabalhadores há largos meses, que culminou, no último sábado, com a expulsão da propriedade e confiscação de quase todos os seus bens, incluindo veículos, máquinas e equipamentos agrícolas.

    Kobus Joubert acusa o tribunal de Chegutu e as autoridades locais de terem cedido a pressões do principal beneficiário da expropriação da sua fazenda e que é, nem mais nem menos, que Félix Mhlanga Pambukani, funcionário no gabinete da presidência e alto quadro do Central Inteligence Office (CIO), nome oficial dos serviços secretos do Zimbábue.

    “À semelhança de centenas de outras propriedades agro-pecuárias roubadas aos seus legítimos proprietários, também a minha fazenda (Scotsdale) foi parar às mãos de um alto quadro do partido Zanu-FP e do governo”, desabafou Joubert à agência Lusa.

    “A fazenda Scotsdale, que contava com 1.056 hectares depois de já ter sido sub-dividida e algumas das suas parcelas ocupadas por “veteranos de guerra” em anos recentes, era altamente produtiva, cultivando-se ali tabaco Virgínia, milho, trigo e com criação de gado de alta qualidade”, disse à Lusa Trevor Gifford, presidente da Associação de Agricultores Comerciais do Zimbábue (com a sigla original CFU).

    O “espetáculo” de uma família de fazendeiros e muitos dos seus trabalhadores acampados à beira da principal estrada que liga a capital Harare, à segunda maior cidade do país, Bulawayo, a dormirem no chão, tem suscitado uma enorme curiosidade pública e constitui neste momento um embaraço para as autoridades.

    “Sou zimbabuano de 5ª geração, perdi tudo após 40 anos de trabalho árduo e sucesso na agro-pecuária, não me resta outra alternativa senão acampar. Não tenho qualquer outra residência, não possuo dinheiro fora do país, os tarecos que consegui tirar da quinta quando me expulsaram são os meus únicos bens”, citou Kobus Joubert confessando “não saber o que fazer à vida”.

    Com ele está também a família de Hendrik Steyn, um outro fazendeiro branco que perdeu as suas terras e ocupava nas últimas semanas uma pequena casa na fazenda dos Joubert no momento em que esta foi invadida pelos “veteranos de guerra”.

    Desde 2000 mais de 4.600 fazendeiros brancos foram expulsos das suas propriedades. Muitos mudaram-se para as cidades, onde vivem com mais ou menos dificuldades, outros aproveitaram ofertas de países da região, como a Zâmbia e a Nigéria, e exploram fazendas nesses países, outros mudaram-se para a África do Sul.

    Pouco mais de 300 agricultores brancos estão ainda em atividade no Zimbábue, um país que era nos anos 80, após a independência, um celeiro da região e é hoje totalmente dependente de ajuda externa para alimentar a sua população.

    Segundo estimativas do Programa Alimentar Mundial (PAM) e da FAO, mais de cinco milhões de zimbabuanos necessitarão, a partir de janeiro de 2009 de ajuda alimentar de emergência.

    O governo de Robert Mugabe, por sua vez, proibiu todas as atividades de organizações não-governamentais de caráter humanitário, e que são responsáveis por grande parte da distribuição de ajuda externa no país.

    Mugabe e o seu regime acusam as ONG’s de “estarem ao serviço do colonialismo britânico e norte-americano”.

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