Brasília - A estratégia de aumentar impostos e os preços dos produtos derivados do tabaco é capaz de reduzir o consumo de cigarro, principalmente entre os jovens, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca). A chefe da divisão de controle de tabagismo do órgão, Tânia Cavalcante, destaca que a medida faz parte das recomendações do Banco Mundial e da Organização Mundial da Saúde (OMS) e pode ter eficácia, sobretudo, em um país que produz um dos cigarros mais baratos do mundo.
“Esse é um fator que facilita o acesso dos jovens, junto com a capilaridade dos ponto de venda. Sem dúvida, o Brasil precisa avançar, já que o aumento dos preços é uma medida parte de um tratado internacional, a Convenção Quadro para Controle do Tabaco”, disse a especialista em entrevista concedida hoje (29), no Dia Nacional de Combate ao Fumo.
Dados do Inca indicam que o tabaco responde por 45% das mortes por infarto do miocárdio, por 85% das mortes por doença pulmonar obstrutiva crônica (enfisema), por 25% das mortes por doença cérebro-vascular (derrames) e por 30% das mortes por câncer.
O cigarro mata, anualmente, 5 milhões de pessoas em todo o mundo. No Brasil, são 200 mil mortes a cada ano. Se a atual tendência de consumo for mantida, em 2020 a média mundial subirá para 10 milhões de mortes por ano, das quais 70% ocorrerão em países em desenvolvimento. De acordo com o Inca, essa estimativa superaria a soma das mortes por alcoolismo, aids, acidentes de trânsito, homicídios e suicídios.
Tânia Cavalcante explica que, sob a ótica da saúde pública, a possibilidade de evitar que as pessoas comecem a fumar por meio do aumento do preço é uma manobra importante para evitar futuros “adoecimentos” e mortes de jovens que se tornarão dependentes caso experimentem o cigarro. A população brasileira que possui menor renda e menor escolaridade, segundo a especialista, é a que mais concentra, atualmente, a prevalência do tabagismo no país. “O bolso vai ser uma outra forma de estímulo.”
A especialista rebate as críticas de que a medida, na prática, não seja eficaz na redução do consumo de tabaco porque os usuários buscariam outras alternativas para ter acesso ao cigarro. Ela admite, entretanto, que o mercado ilegal representa uma ameaça à estratégia e um “problema de saúde pública” por disponibilizar o produto ao consumidor com preços ainda mais reduzidos.
“No Brasil, a maior parte da população que fuma é a de baixa renda e isso é considerado pelo Banco Mundial e pela OMS um fator agravante da pobreza e que impede o desenvolvimento sustentável. Muitos chefes de famílias dependentes deixam de comprar alimentos e outros bens de consumo que vão propiciar um bem-estar para a sua família porque têm que comprar o cigarro, porque são dependentes de nicotina.”