São Paulo - "Ingrid Betancourt procurou seu seqüestro", declarou o escritor e cineasta colombiano Fernando Vallejo, que acha que a ex-candidata presidencial, seis anos em poder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), quis dar um "golpe de marketing" para conseguir votos na campanha de 2002.
Em uma entrevista à ANSA, o autor de "A Virgem dos Sicários", que vive no México há três décadas (onde inclusive se naturalizou), criticou duramente toda a classe política colombiana, o presidente Álvaro Uribe e as Farc, ao comentar sobre a libertação de 15 reféns na última quarta-feira.
"Na Colômbia há milhares de seqüestrados. As Farc têm 700 seqüestrados e, dos milhares que foram seqüestrados, foram buscar somente duas: Ingrid Betancourt e Clara Rojas", disse o autor de "O Despenhadeiro", Prêmio Rómulo Gallegos em 2003.
Clara Rojas foi libertada no dia 10 de janeiro deste ano. Era vice na chapa de Betancourt (Partido Verde Oxigênio) na campanha eleitoral para a sucessão de Andrés Pastrana, que foi vencida por Uribe.
Ambas foram seqüestradas em San Vicente del Caguán no dia 23 de janeiro de 2002, cinco dias depois que os diálogos entre o governo de Pastrana e as Farc foram suspensos.
"Deixa-me indignado a forma como tratam o assunto. Quando o governo de Pastrana retomou o controle de Caguán, Ingrid tentou dar um golpe de marketing e foi para lá com Clara Rojas só para aparecer. Tinha 1% das intenções de voto. Pastrana advertiu que não poderia garantir a segurança delas e elas insistiram em se meter. E suas famílias, tão midiáticas, apoiaram...", comentou Vallejo.
Durante a operação para o seqüestro das duas dirigentes políticas, "Rojas e Betancourt causaram a morte de um soldado das Farc, que pisou numa mina e faleceu", indicou o escritor.
"Agora livre, que moral ela tem de se mostrar como uma heroína depois de sua impudicícia?", indagou.
O escritor está no Brasil para participar da 6ª edição do Festival Literário Internacional de Paraty (Flip), onde faz o lançamento de "O Despenhadeiro" em português.
Vallejo, de 65 anos, conhecido por suas provocações e seus duros questionamentos à Igreja Católica, disse que Betancourt "é mais francesa que colombiana".
"Ela tem nacionalidade francesa. Pergunto-me por que ela não ficou na França para disputar as eleições de lá com (o ex-presidente) Jacques Chirac. E isso é escandaloso, porque o atual presidente (Nicolas Sarkozy) se mete em assuntos internos da Colômbia por razões publicitárias de Betancourt", afirmou.
Para o escritor, a família de Betancourt "armou uma novela com manifestações de 15 pessoas em Paris, dizendo que ela estava à beira da morte, com malária".
"É uma imoralidade muito grande, compartilhada por toda a classe política, muito daninha e muito corrupta. Ingrid não tem méritos para ser presidente. Antes de ser seqüestrada, ia esquiar nos Alpes italianos e agora dá uma de heroína", declarou Vallejo.
O escritor disse que o presidente "Uribe faz parte da gentinha vinculada aos paramilitares. Ele ajudou a criá-los, assim como a esquerda do Pólo Democrático".
Também falou que "não se pode defender as Farc, um bando de seqüestradores, de narcotraficantes e de assassinos".
A respeito de Manuel Marulanda (Tirofijo), líder da guerrilha que morreu no dia 26 de março aos 67 anos por causa de problemas no coração, Vallejo disse que "Tirofijo morreu de morte natural, impune. Uribe não pôde matá-lo", enfatizou.