Fui ao São João do Pelourinho na noite de 23 de Junho, dia de maior movimento dos festejos e o mais apropriado para avaliar o resultado da festa, que atraiu um grande público ao Centro Histórico de Salvador. A maciça presença de pessoas nas estreitas ruas do antigo centro da cidade chamou a atenção, principalmente daqueles que acompanham, nos últimos anos, o condenável processo de esvaziamento do lugar. Realmente, foi impactante e até surpreendente ver aquela multidão contrastando com a situação de decadência, que tem preocupado baianos e motivado protestos de empresários, moradores, simpatizantes e freqüentadores da área.
Comparado ao movimento do ano passado, quando, por falta de participação popular, muitos bares, restaurantes, barracas e outros equipamentos de lazer encerraram as atividades pouco depois da meia noite, pode-se afirmar que a festa ressurgiu com força total e foi a melhor alternativa para boa parcela da população da capital, além de muitos turistas, comemorar o São João. O apelo publicitário do governo, apoiado em uma diversificada agenda de famosas atrações artísticas, contribuiu para a retomada dos áureos tempos e motivou o público, que atendeu ao chamamento da promoção e prestigiou a festa durante todos os dias da programação.
Ávido por festa, o povo se divertiu à vontade, mas não deixou de apontar falhas e exigir providências, para evitar que problemas semelhantes voltem a comprometer futuras promoções no Pelourinho. De olho no São João como um grande atrativo turístico para a Bahia, as autoridades do estado se empenharam, mas a organização deixou a desejar. Houve falhas primárias que, se eliminadas a tempo, teriam evitado desgaste da promoção e o protesto dos participantes, que lotaram o centro antigo da capital baiana, desde a rua Chile ao Largo do Pelourinho, incluindo vias intermediárias, com destaque para as praças Municipal, da Sé e Terreiro de Jesus.
Muitos problemas teriam sido evitados se o planejamento e estruturação da festa estivessem mais atentos aos detalhes da organização, que falhou em diversos aspectos, começando pela acanhada preparação da área para receber o grande público. Ficou a impressão de que os responsáveis subestimaram a capacidade de atração e improvisaram medidas sem se atentarem a para a importância e dimensão dos festejos. A despeito da boa agenda de shows e de outros tipos de atração, a área da festa, palco dos acontecimentos, salvo as tradicionais bandeirolas e acanhados balões decorativos, não recebeu tratamento a altura da grandiosidade da promoção.
Quem foi de carro próprio enfrentou problemas antes de chegar ao centro da folia. Engarrafamentos gigantes e falta de espaço para deixar o veículo abriram o leque das imperfeições. Muita gente acabou desistindo e quem insistiu teve que se submeter à exploração dos donos de estacionamentos ou dos improvisados guardadores de rua, que atuavam sem qualquer controle nas vias periféricas ao local dos festejos. Estacionamento tradicional, o Well Park, com acesso pela Baixa dos Sapateiros, suspendeu o sistema de cobrança por hora e impôs aos usuários taxa única de R$ 10,00 com pagamento antecipado, independentemente do tempo de permanência no local.
Mas a escassez de áreas para estacionamento e os engarrafamentos quilométricos não foram os principais problemas que empanaram o brilho da festa junina no Pelourinho. O policiamento reduzido deixou muita gente apreensiva e intranqüila, com medo de assaltos, furtos, brigas, agressões e outros tipos de violência muito comuns na área. Outro ponto negativo foi o pequeno número de sanitários químicos, obrigando as pessoas que circulavam pelas ruas a apelarem para os banheiros de bares e restaurantes ou então a usarem a via pública, contaminando -a com o mau cheiro da urina, além do constrangimento que esse tipo de atitude acaba provocando.
A iluminação da área poderia ter sido melhor, inclusive na Baixa dos Sapateiros, via muito utilizada pelos pedestres para ter acesso ou deixar a festa, onde também havia poucos policiais, o que deixou as pessoas ainda mais apreensivas, inseguras e temerosas. Houve reclamações contra defeitos na programação artística, como atraso dos shows, serviço de som deficiente, atrações sem qualidade e sem apelo junino, mas o maior número de queixas ficou por conta da infra-estrutura deficitária. A escassez de transportes coletivos, problema grave de Salvador que fica ainda pior em dias de grandes comemorações, afetou a muita gente que mora em bairros mais afastados e teve que enfrentar, na hora de voltar para casa, longa espera em terminais inseguros, como a Estação da Lapa, Terminal da França, da Rua Chile, Barroquinha e Aquidabã.
Não só os organizadores da festa falharam. Os comerciantes do Centro Histórico, que há dois anos vêem denunciando o esvaziamento progressivo do local, parece que não acreditaram na possibilidade do sucesso da promoção e também não se preparam devidamente para atender a programação festiva. Na noite de maior movimento, a véspera do São João, muitos bares e restaurantes estiveram fechados, surpreendendo antigos freqüentadores, que procuraram os estabelecimentos e voltavam decepcionados. Com raríssima exceção, quem funcionou ofereceu um atendimento precário, tanto em nível de eficiência como de qualidade dos serviços prestados, provocando insatisfação e muitas queixas. Um casal reclamou do atendimento ruim no Restaurante Odoyá, nas imediações do Cruzeiro de São Francisco. Lembrou, inclusive, que esse tipo de postura afasta a clientela baiana do Centro Histórico, além de prejudicar o movimento liderado pelos empresários, exigindo medidas do governo para combater a decadência do local.
Mesmo com o lado capenga, a festa agradou mais do que decepcionou e provou que o baiano, além de correr atrás do trio elétrico, também tem espírito de bom forrozeiro. Sem pular a fogueira, o São João do Pelô deu o salto para sair do marasmo, provando que o local só precisa de atenção para fazer uma animada festa junina. Espera-se que a atual euforia se estenda a outras comemorações e que os erros de agora sirvam de lição para promoções futuras, bem como, para a valorização do Centro Histórico de Salvador, seja pela sua importância cultural, como pelo potencial turístico e pela capacidade de abrigar grandes manifestações populares em benefício dos baianos e de seus visitantes.