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:: Opinião ::
Festa
O salto do São João no Pelô
  • Rubens Neuton *
  • Segunda-feira, 30/06/2008 07:43

    Fui ao São João do Pelourinho na noite de 23 de Junho, dia de maior movimento dos festejos e o mais apropriado para avaliar o resultado da festa, que atraiu um grande público ao Centro Histórico de Salvador. A maciça presença de pessoas nas estreitas ruas do antigo centro da cidade chamou a atenção, principalmente daqueles que acompanham, nos últimos anos, o condenável processo de esvaziamento do lugar. Realmente, foi impactante e até surpreendente ver aquela multidão contrastando com a situação de decadência, que tem preocupado baianos e motivado protestos de empresários, moradores, simpatizantes e freqüentadores da área.

    Comparado ao movimento do ano passado, quando,
    por falta de participação popular, muitos bares, restaurantes,
    barracas e outros equipamentos de lazer encerraram as atividades pouco
    depois da meia noite, pode-se afirmar que a festa ressurgiu com força
    total e foi a melhor alternativa para boa parcela da população da
    capital, além de muitos turistas, comemorar o São João. O apelo
    publicitário do governo, apoiado em uma diversificada agenda de
    famosas atrações artísticas, contribuiu para a retomada dos áureos
    tempos e motivou o público, que atendeu ao chamamento da promoção e
    prestigiou a festa durante todos os dias da programação.

    Ávido por festa, o povo se divertiu à vontade, mas não deixou de apontar falhas e exigir providências, para evitar
    que problemas semelhantes voltem a comprometer futuras promoções no
    Pelourinho. De olho no São João como um grande atrativo turístico para
    a Bahia, as autoridades do estado se empenharam, mas a organização
    deixou a desejar. Houve falhas primárias que, se eliminadas a tempo,
    teriam evitado desgaste da promoção e o protesto dos participantes,
    que lotaram o centro antigo da capital baiana, desde a rua Chile ao
    Largo do Pelourinho, incluindo vias intermediárias, com destaque para
    as praças Municipal, da Sé e Terreiro de Jesus.

    Muitos problemas teriam sido evitados se o planejamento e estruturação da festa estivessem mais atentos aos
    detalhes da organização, que falhou em diversos aspectos, começando
    pela acanhada preparação da área para receber o grande público. Ficou
    a impressão de que os responsáveis subestimaram a capacidade de
    atração e improvisaram medidas sem se atentarem a para a importância e
    dimensão dos festejos. A despeito da boa agenda de shows e de outros
    tipos de atração, a área da festa, palco dos acontecimentos, salvo as
    tradicionais bandeirolas e acanhados balões decorativos, não recebeu
    tratamento a altura da grandiosidade da promoção.

    Quem foi de carro próprio enfrentou problemas antes
    de chegar ao centro da folia. Engarrafamentos gigantes e falta de
    espaço para deixar o veículo abriram o leque das imperfeições. Muita
    gente acabou desistindo e quem insistiu teve que se submeter à
    exploração dos donos de estacionamentos ou dos improvisados
    guardadores de rua, que atuavam sem qualquer controle nas vias
    periféricas ao local dos festejos. Estacionamento tradicional, o Well
    Park, com acesso pela Baixa dos Sapateiros, suspendeu o sistema de
    cobrança por hora e impôs aos usuários taxa única de R$ 10,00 com
    pagamento antecipado, independentemente do tempo de permanência no
    local.

    Mas a escassez de áreas para estacionamento e os engarrafamentos quilométricos não foram os principais problemas que
    empanaram o brilho da festa junina no Pelourinho. O policiamento
    reduzido deixou muita gente apreensiva e intranqüila, com medo de
    assaltos, furtos, brigas, agressões e outros tipos de violência muito
    comuns na área. Outro ponto negativo foi o pequeno número de
    sanitários químicos, obrigando as pessoas que circulavam pelas ruas a
    apelarem para os banheiros de bares e restaurantes ou então a usarem a
    via pública, contaminando -a com o mau cheiro da urina, além do
    constrangimento que esse tipo de atitude acaba provocando.

    A iluminação da área poderia ter sido melhor,
    inclusive na Baixa dos Sapateiros, via muito utilizada pelos pedestres
    para ter acesso ou deixar a festa, onde também havia poucos policiais,
    o que deixou as pessoas ainda mais apreensivas, inseguras e temerosas.
    Houve reclamações contra defeitos na programação artística, como
    atraso dos shows, serviço de som deficiente, atrações sem qualidade e
    sem apelo junino, mas o maior número de queixas ficou por conta da
    infra-estrutura deficitária. A escassez de transportes coletivos,
    problema grave de Salvador que fica ainda pior em dias de grandes
    comemorações, afetou a muita gente que mora em bairros mais afastados
    e teve que enfrentar, na hora de voltar para casa, longa espera em
    terminais inseguros, como a Estação da Lapa, Terminal da França, da
    Rua Chile, Barroquinha e Aquidabã.

    Não só os organizadores da festa falharam. Os comerciantes do Centro Histórico, que há dois anos vêem denunciando o
    esvaziamento progressivo do local, parece que não acreditaram na
    possibilidade do sucesso da promoção e também não se preparam
    devidamente para atender a programação festiva. Na noite de maior
    movimento, a véspera do São João, muitos bares e restaurantes
    estiveram fechados, surpreendendo antigos freqüentadores, que
    procuraram os estabelecimentos e voltavam decepcionados. Com raríssima
    exceção, quem funcionou ofereceu um atendimento precário, tanto em
    nível de eficiência como de qualidade dos serviços prestados,
    provocando insatisfação e muitas queixas. Um casal reclamou do
    atendimento ruim no Restaurante Odoyá, nas imediações do Cruzeiro de
    São Francisco. Lembrou, inclusive, que esse tipo de postura afasta a
    clientela baiana do Centro Histórico, além de prejudicar o movimento
    liderado pelos empresários, exigindo medidas do governo para combater
    a decadência do local.

    Mesmo com o lado capenga, a festa agradou mais do que decepcionou e provou que o baiano, além de correr atrás do trio
    elétrico, também tem espírito de bom forrozeiro. Sem pular a fogueira,
    o São João do Pelô deu o salto para sair do marasmo, provando que o
    local só precisa de atenção para fazer uma animada festa junina.
    Espera-se que a atual euforia se estenda a outras comemorações e que
    os erros de agora sirvam de lição para promoções futuras, bem como,
    para a valorização do Centro Histórico de Salvador, seja pela sua
    importância cultural, como pelo potencial turístico e pela capacidade
    de abrigar grandes manifestações populares em benefício dos baianos e
    de seus visitantes.

    * Rubens Neuton é jornalista e advogado.

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