Pequim - Foram oficializados os boatos que circulavam no começo de junho sobre o "vazio" que estaria sendo registrado nos hotéis de Pequim. "A capital chinesa tinha previsão de hospedar cerca de 500 mil turistas estrangeiros durante as Olimpíadas, mas estas estimativas eram muito otimistas", admitiu o presidente da Associação de Pesquisa Econômica das Olimpíadas, Chen Jian.
Poucos dias atrás, a confirmação da própria Secretaria do Turismo, que divulgou as últimas estatísticas sobre o número de reservas dos hotéis, 2% mais baixo do que há dois meses atrás. Não apenas 54,5% dos quartos não têm reservas para o mês de agosto, mas o preço médio por uma diária nos hotéis quatro ou três estrelas é respectivamente 2185 yuan (cerca de 200 euros) e 1523 yuan (cerca de 143 euros), quatro euros a menos do que o previsto. Os hotéis com duas estrelas chegaram a reduzir o preço em oito euros.
Os únicos capazes de segurar a inesperada "crise" parecem ser os hotéis cinco estrelas, com quase 80% dos quartos reservados e preços que subiram em média vinte euros. Mas não é o suficiente para consolar o setor do turismo, iludido por previsões otimistas.
No ano passado, a imprensa local anunciava com grande alarde que os hotéis de luxo teriam em breve registrado 100% de ocupação, com preços que chegariam a 200 mil yuan (quase 19 mil euros) por duas semanas no mês de agosto. Os 5.892 hotéis da capital chinesa se apressaram para oferecer 336 mil quartos e 660 mil camas.
De 2004 até este ano, só o número de hotéis cresceu de 613 para 815. Mas, surpreendentemente, os turistas que deixaram para reservar seu quarto na última hora poderão pagar preços mais convenientes do que aqueles que se organizaram com maior antecedência. Já começam as primeiras reclamações: segundo uma pesquisa conduzida pelo Centro de Pesquisa do Turismo de Pequim, 63% dos gerentes de hotel esperam prejuízos no final do ano.
Se as autoridades da Secretaria de Turismo atribuem a onda de pessimismo ao fato dos hotéis da periferia terem gerado mais interesse do que aqueles mais centrais, e mais caros, têm opinião diferente os especialistas entrevistados pelo jornal de Hong Kong, South China Morning Post. "A situação internacional é complicada", afirma Zhang Hui, do Departamento de Turismo da Universidade de Estudos Internacionais de Pequim.
À repressão das manifestações contra a China no Tibete e o conseqüente apelo da comunidade internacional pelo boicote a Olimpíada, se somaram os desastres naturais que devastaram o país nas últimas semanas, do terremoto de magnitude 7,9 na província de Sinchuan, que matou mais de 80 mil pessoas, às enchentes no sul do país. Uma série de fatores que iniciou um círculo vicioso.
Por um lado, a queda do entusiasmo de muitos turistas em potencial, por outro, a reação do governo chinês, que nas últimas semanas passou a dificultar a concessão de vistos e intensificou o controle, o que deve ser mantido por toda a duração das Olimpíadas e das Paraolimpíadas (em setembro), proibindo, por exemplo, qualquer tipo de reunião pública espontânea.
Pequim teme o olhar indiscreto dos "turistas" interessados em aumentar a lista de polêmicas. Não se tornou difícil apenas conseguir um visto de permanência, mas também um simples visto de turismo, que "no papel" não exige uma documentação complexa. Às centenas de estrangeiros interessados em visitar o país durante as Olimpíadas, são exigidos um registro na polícia, a reserva de um hotel ou o contrato de aluguel de um quarto, e uma conta em um banco chinês com um saldo de 75 euros para cada dia de permanência na China.