Moradores da Estrutural enfrentam frio de maio para assistir a filmes
Domingo, 25/05/2008 - 11:14
Brasília - Até começar a sessão, eram apenas cadeiras vazias e meia dúzia de pessoas em frente à tela branca. Mas, assim que a imaginação aflorou com a projeção no vídeo, olhares vibrantes e atentos encheram a sala de cinema improvisada na Estrutural, uma das regiões mais carentes do Distrito Federal, cerca de 12km de Brasília.
A poeira e a falta de infra-estrutura deram lugar a um palco de fantasias com a exibição dos filmes brasileiros A Enciclopédia do Instituto e O Casamento de Louise. As obras de esgoto, asfalto, e as primeiras escolas começaram este ano, depois de uma década da criação da cidade, onde moram atualmente cerca de 35 mil pessoas.
Cerca de 150 moradores da Estrutural enfrentaram o frio de maio e deixaram as casa de madeirite, na maioria, para assistir às produções nacionais na noite de ontem (24). A Mostra Brasil Candango – Cinema Itinerante é um projeto do Instituto Latinoamerica, que está na terceira edição, e conta com o patrocínio da Petrobrás e o apoio do Ministério da Cultura.
A idéia é realizar 67 exibições em 22 cidades do Distrito Federal e de Goiás. O foco são as comunidades carentes que não têm acesso a atividades culturais. Segundo o coordenador da mostra e presidente do Instituto Latinoamerica, Atanagildo Brandolt, o projeto quer levar produções cinematográficas a comunidades onde não existem salas de exibição.
“O objetivo é permitir que as pessoas mais afastadas possam tenham acesso ao cinema nacional que, quando passa na televisão, passa de madrugada. Ele [projeto] permite também que os cineastas possam mostrar seu trabalho”, argumentou.
Segundo Brandolt, este ano, há seis curta-metragens de cineastas brasilienses em exibição na mostra. O coordenador explica que o projeto exibe filmes reflexivos, que levem o público a repensar alguns valores sociais e que permitam uma identificação dos espectadores com a obra.
Maria Auxiliadora do Nascimento Melo é empregada doméstica e mora na Estrutural. Ela assistiu às duas sessões da mostra. “O filme de anteontem [sexta-feira (23)] foi sobre os sem-terra. Foi igual ao começo da nossa vida aqui da Estrutural”, relembrou. A cidade existe há cerca de 13 anos e começou como vila em torno de um lixões de Brasília.
Para incluir os filmes no projeto, Atanagildo Brandolt explica que é preciso pagar uma taxa para as produtoras e distribuidoras. O preço da exibição de um média-metragem durante 60 dias é R$ 700. Um longa-metragem custa R$ 2 mil para ser exibido durante o mesmo período.
Mas além dos filmes, o Cinema Itinerante vai realizar oficinas de audiovisual no próximo mês. Atanagildo Brandolt conta que as atividades serão desenvolvidas com alunos de escolas públicas da Candangolândia, do Paranoá, ambas no Distrito Federal, e de Alexânia, em Goiás. Estão previstas oficinas também em São Sebastião e em Valparaíso, município goiano limítrofe ao DF.
Segundo o coordenador, o papel das oficinas é desmistificar o processo de produção audiovisual da TV. “É propiciar que as pessoas organizem as idéias, a pesquisa, a elaboração de roteiro e edição de imagem”, explicou.
Brandolt adianta que o Instituto Latinoamerica pretende fazer um documentário sobre essas oficinas e exibi-lo nas próximas mostras, além de oferecê-lo às TVs públicas.