'Só Bin Laden não vai gostar, diz diretor de filme sobre Maomé
Agência ANSA
Domingo, 18/05/2008 - 21:07
Para o jornalista francês Daniel Leconte, cujo filme sobre a polêmica das vinhetas de Maomé (deflagrada em 2006) participa do 61º Festival de Cannes, somente uma pessoa não vai gostar do que verá nas telonas: o chefe da Al-Qaeda, Osama Bin Laden. Ao contrário do que se temia, a projeção em Cannes de "C'est dur d'être aimé par des cons" (É difícil ser amado por esses imbecis) não teve nenhum tumulto.
"Tem alguém que, de fato, não vai gostar do filme, e só pode ser Bin Laden", brinca o diretor, que não se surpreendeu com o fato de seu filme ter sido bem-recebido por todos. "Para ele, meu filme é verdadeiro pesadelo, pois dá voz e leva respeito a todos. Justamente o contrário desse desvio fascista que é o fundamentalismo cego", continua Leconte, com tom mais sério.
O longa-metragem fala sobre a publicação, na França, das charges do profeta Maomé, dois anos depois de sua publicação na Dinamarca, que provocou uma série de protestos por parte dos muçulmanos. A União das organizações islâmicas francesas chegou a acusar de blasfêmia o diretor da publicação, Philippe Val, abrindo um processo judicial contra ele.
"Meu trabalho é um manifesto de respeito às idéias e posições mais distintas, que me foram expressas durante o processo de filmagem", conta o diretor. Através de uma série de entrevistas e imagens de arquivo, Leconte relata os acontecimentos antes e logo depois do processo de Val. Apesar do teor polêmico, o filme não causou manifestações calorosas, não chegando nem mesmo a encher a sala de exibição.
Segundo o tribunal francês que julgou o caso, as charges não podem ser consideradas ofensivas e até mesmo a caricatura mais polêmica, de Maomé com a bomba no turbante, se encontra aos olhos da justiça, "nos limites da liberdade de expressão".
"Sobre todo esse caso eu tenho idéias já formadas, mas, como cineasta, me esforcei em colocar na tela as posições de todos. Acredito que, no fim das contas, foi feito um grande serviço à cultura islâmica, que pôde ter o devido respeito mesmo em uma aula de justiça republicana. Não é à toa que somos o país de Voltaire", concluiu o jornalista francês.