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:: Opinião ::
Política
A sucessão fortifica governistas
  • Wellington da Fonseca Ribeiro *
  • Terça-feira, 12/02/2008 00:12

    Se todos os pré-candidatos forem escolhidos em seus partidos, realmente candidatos ao Palácio Thomé de Souza - la house de vidro -, é quase certo que haverá um second time, segundo turno. Fora Olívia Santana, do PC do B, tem mais uns dois ou três Barack Obama, um deles ex-prefeito biônico.

    Depois do Carnaval, a sensação local, municipal, paroquial, é mesmo o calendário eleitoral, que, d'agora para frente, tomará ritmo mais aguçado, acelerado, rápido, acelerado. Embora sem discordar completamente com o axioma inglês de que time is money prefiro este: the time is life, o tempo é vida.

    Foto: Silfredo Freitas
    Wellington da Fonseca Ribeiro é jornalista, professor e bacharel em Direito pela UCSal em 1987.
    Em política notadamente em eleição ou qualquer tipo de votação, o "senhor da razão", el tiempo, tem significado muito, muitíssimo especial, especialíssimo. Ao contrário do atletismo, dos esportes, do desporto, a dinâmica e excitante atividade política pode ser exercida por pessoas de até mais de 100 anos. Basta, bastante, não significa muito, contudo, aquilo que basta, satisfaz. Basta, para exercer a atividade partidária, política, eleitoral, que o cidadão tenha saúde, pique e, claro, agilidade mental.

    Percebo, vejo, observo a sucessão do prefeito João Henrique Carneiro - que tem demonstrado não ser cordeiro -, ou mesmo a sua possibilidade e probabilidade de reeleição, decomplicadamente.

    Quatro ou mais candidatos ao cargo de prefeito quase ou certamente facilitará que a decisão ocorra, como em 2004, em segundo turno. Quatro, cinco ou mais postulantes ao governo da capital, não incomoda muito ao atual administrador soteropolitano. João 15 disputará novo pleito - como preceitua o instituto da reeleição - sentado ou em pé diante da primeira cadeira da cidade.

    Dos Carneiro, na política, o maior deles é o ex-governador e atual senador João Durval, praticamente da mesma idade do ex-ministro da Defesa, Francisco Waldir Pires, sucessor do então governador Durval Carneiro, em 1987, porquanto, em 1986, Waldir derrotou estrondosamente um dos maiores socialistas do país, a serviço da chefia do manjado PFL da época, Josaphat Marinho, bom jurista, bifacial ideologicamente, com mais de 1,5 milhão de votos na Bahia.

    Depois da eleição de Antonio Lomanto Júnior, em 1962, para governador, foi a segunda grande derrota, pelo voto, da direita mais conservadora, reacionária e tradicionalista do Estado, pela escolha direta, secreta, a maior arma não mortífera, sem bala, do cidadão-eleitor.

    João Durval é um homem magro, alto, dentista, sertanejo, simples, comunicativo. Tem muita (muita!) sorte na política.

    Elegeu-se governador numa situação de comoção social na Bahia, em 1982, na primeria eleição direta para o Executivo estadual, depois do golpe de 1964, o qual, a bem da realidade, de propósito, para valer, destruiu o ensino público - esta, sim, a maior vitória dos golpistas - pois, povo ideologicamente rude, ignorante, despolitizado, é muito mais fácil de ser manipulado e é isso que a maior parte da elite política e econômica quer para sempre. E sem fim!

    Durval foi eleito governador em 1982, depois da tragédia aérea que matou Clériston Andrade, dentre outros políticos, numa situação um pouco semelhante com a morte de Lauro de Freitas, ambos, Lauro e Clériston, este ex-presidente do ofertado Baneb, candidatos ao governo baiano, cada um em sua época, no século findo.

    A comoção social, em nível estadual, motivada pelo acidente fatal que tirou Clériston Andrade da disputa, ajudou muito a vitória de João Durval Carneiro, derrotando Roberto Santos, da oposição.

    Por último, aos 80 anos, sua eleição para o Senado Federal, pelo PDT, tornando-se o primeiro senador baiano eleito por este partido, contrariando, frontalmente, o presidente regional da legenda, deputado Severiano Alves. Alves, hábil contorcionista, gostaria, no pleito de 2006, que Durval fosse mais uma vez aspirante ao governo estadual. Esparro!

    Evidentemente, que o senador, dentro do PDT - afinado com Lula e Wagner -, move-se em favor da recandidatura de João Henrique.

    Wagner e Durval, Durval e Wagner, ganharam o último pleito majoritário na Bahia, juntos, coligados, colados, em quase todos os grandes eventos e momentos da campanha que desbancou o grupo que estava no poder há 16 anos seguidos.

    Os Carneiro têm muita sorte. Vejam o Sérgio. Depuitado estadual, federal, suplente de vereador, depois eleito vereador na capital e, novamente, deputado federal eleito pelo PT, em 2006.

    Agora, Sérgio Carneiro é pré-candidato escolhido a prefeito da segunda mais importante cidade do Estado, que é Feira de Santana, esperta, quente, nossa "Princesa do Sertão", também chamada "Terra de Lucas". Sérgio, dentro do PT, certamente fará muitos movimentos em favor de sua candidatura à prefeitura feirense e, também, da nova postulação do brother João XV. Como, na atualidade, o PMDB, novo partido de João Henrique, está entre "tapas e beijos" afinado com o PT, a postulação de Sérgio, indiretamente, representa, se for o caso, a possibilidade de um bom negócio político (e eleitoral) para o grupo durvalista, visando, por exemplo, o fortalecimento reeleitoral do irmão prefeito da capital.

    O prefeito João Henrique Carneiro, vitorioso no segundo turno em 2004, surrando, eleitoralmente, o senador César Borges, obtendo 75% dos votos válidos, é, sem dúvida, bafejado pela sorte. Os pré-candidatos da área governista ou situacionista são: o próprio João Henrique, Nélson Pelegrino - com visível desgaste -, Walter Pinheiro, este com certa facilidade em se compor com o atual prefeito. O deputado federal negro Luiz Alberto, do PT, é sabido, não tem muita chance de ser candidato. Aliás, o que não falta no momento é pré-candidaturas negras. Olívia Santana, Edvaldo Brito, do PTB de Roberto Jefferson, fora o barbudinho do Psol.

    Lídice da Mata, ex-prefeita e atual deputada federal, eleita com boa votação nesta capital, no último pleito proporcional, é, também, uma pré-candidata. Seu maior parceiro político no Estado é o ex-deputado (aposentado ou não?) Domingos Leonelli, atual secetário de Turismo do Governo do Estado. Lídice é uma parlamentar da base governista e sua postulação também passará pelo crivo dos governos estadual e federal. Sua força política no Estado é, pragmaticamente, inferior ao do grupo durvalista.

    O básico, primário e fundamental, é que quem for eleito prefeito de Salvador em outubro próximo, dia 5, terá que administrar a cidade por um período de dois anos, ou seja 50% do mandato, sob os governos do presidente Luiz Lula e do governador Jaques Wagner. Anos e anos seguidos, o governo da capital vem sendo ajudado fortemente pelas administrações estadual e federal. Ou seja, por sucessivos períodos administrativos quem tem segurado a onda da Prefeitura de Salvador são as verbas e os recursos do Estado e do governo federal. Isso as pessoas informadas sabem.

    Raimundão Varela, Antonio Imbassahy e ACM Neto, durante longos anos, pertenceram ao mesmo grupo político, o qual, realmente, mandou na Bahia, somando-se os últimos 16 anos, uns bons 40 anos. Dos três, o radialista e apresentador de TV Raimundo Varela foi o que menos, na esteira partidária, dependeu do jeito carlista de governar, embora, sempre foi afinado com os altos membros do não tão antigo PFL (UDN, Arena, PDS, PFL) e agora Democratas, um novo rótulo de marketing que visa colocar nas mentes eleitorais esquecidas que, ao se chamar democratas, a legenda renega sua passagem pela Aliança Renovadora Nacional, Arena, defensora do amplo período ditatorial, mas sempre mudando de nome para disfarçar, levando em conta a fraca memória das camadas eleitorais menos preparadas, inferiores.

    Raimundão Varela pode gritar, pular, dar centenas de tapas na mesa, mas não conseguirá - marqueteiro nenhum conseguirá - desvincular sua imagem de cidadão político da imagem do ex-prefeito Fernando José. Os dois homens de rádio e televisão. Ambos inicialmente postularam o cargo de prefeito. E, de quebra, trabalharam com o repórter e ex-vereador de Salvador, Guilherme Santos, que dizia, assim, no final de suas reportagens na mídia eletrônica, rádio e TV: "Pode, Fernando?" E Fernando José, da outra ponta, respondia: "Pode nãããão, Guilherme!"

    Raimundão Varela tem prestígio, sim! Principalmente nas camadas populares, fortemente contempladas pela mídia eletrônica. Por ser neófito, novato, às vezes confunde o Raimundão político com o Varela comunicador. E aí ele chuta todas, todas, todas. As minorias - homossexuais, biriteiros, os noturnos, prostitutas e libertários de modo geral - não gostam dele. Quem vive na cidade sabe disso.

    ACM Neto e Antonio Imbassahy e, de certo modo, o próprio Raimundo Varela são da mesma esteira política. Imbassahy só foi candidato a prefeito de Salvador depois de passar por bons cargos técnicos e políticos - deputado estadual, presidente da Assembléia Legislativa, governador interino do Estado -, preparando-se com o melhor currículo possível para ganhar uma eleição direta na capital, uma vez que o seu antigo grupo político sempre respeitou a tendência, digamos assim, progressista, do eleitorado soteropolitano.

    Imbassahy, na última eleição para o Senado, obteve a terceira colocação na capital. Ele não tem mais aquele sistemão de comunicação. Administrou a cidade durante oito anos com forte apoio federal e estadual. Tem prestígio visível nas classes sociais de maior renda. Como seu ex-vice prefeito, Marcos Medrado, muy amigo, quedou-se para o radialismo.

    ACM Neto é o neto que sucede o tio, o deputado Luís Eduardo Magalhães. Por decisão do senador ACM é o principal herdeiro deste e, para provar tudo isso, para confirmar isso, terá que ser candidato na primeira eleição depois do falecimento do antigo coronel. Em 2006, ACM Neto obteve, para deputado federal, algo em torno de 100 mil votos na capital.

    Política é fato concreto, pragmático, real. É muitíssmo difícil de se acreditar - por mais sabido ou ingênuo que o eleitor seja -, que, sendo eleito um dos três - Raimundo Varela, ACM Neto ou Antonio Imbassahy -, qualquer um destes terá o mesmo apoio que um candidato da área governista obterá. No momento que os candidatos da área governista (Wagner-Lula) começarem a informar ao eleitorado que um deles tem mais condições de fazer pela cidade do que os oposicionistas - Varela, ACM Neto e, de certo modo, Imbassahy, do PSDB dividido - o eleitor, para votar nestes últimos, vai pensar algumas vezes.

    Recentemente, dos postulantes à vaga de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE), deu o pofessor Zilton Rocha, ex-deputado estadual do PT, inclusive, concorrendo com o ex-deputado federal (aposentado?), por vários mandatos, Leur Lomanto, remotamente Arena, PDS, mas, hoje, no PMDB. As preferências dos executivos federal e estadual, quando do mesmo partido, sempre recaem nos postulantes do bloco de sustentação dos dois governos.

    Depende a cidade fundada em 1549, por Thomé de Souza, no limiar dos seus 459 anos de edificação, de fortes cooperações e recursos dos governos federal e estadual desde, ou talvez, antes da deposição, em 1964, do prefeito eleito deposto Virgildásio Sena. Governismo ajudar, contribuir, cooperar, com candidato eleito pela oposição é um jogo de cena e morreu bucha de sena. Pode até ajudar, pero no mucho, para livrar a cara.

    Em política o impossível pode acontecer. Por exemplo, Getúlio Vargas e Luiz Carlos Prestes, o maior comunista clássico deste país, do antigo Partidão, atualmente PPS, unidos numa campanha eleitoral no século anterior. Tem apenas uma coisa: o impossível em política só acontece poucas vezes. Raríssimas ocasiões. Governismo é governismo. Oposicionismo é oposicionismo. Às vezes, sem rodeios, até os bons técnicos de futebol dizem: "Não muda nada, não muda nada, não muda nada!". Ou, por outras palavras, uma coisa é o discurso para ganhar eleição. Depois, temos visto, o novo governo eleito só faz o que lhe é possível. O resto é blá, blá, blá... e não adianta chorar.

    Wellington da Fonseca Ribeiro é o último suplente de deputado federal pelo PDT-Bahia em 2006. É Campoalegrense-Remansense (BA).

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