A declaração que li no site da Agência Câmara em uma matéria sobre a MP 380/07, conhecida como MP do Sacoleiro, mexeu com minha inteligência e memória.
"Já o coordenador especial de vigilância e repressão da Secretaria da Receita Federal, Mauro Brito, disse que a MP tenta minimizar o desemprego gerado com o combate ao contrabando de produtos do Paraguai."
É isso mesmo. A declaração partiu do próprio Mauro de Brito. Quem diria! Agora o ex-delegado da Receita Federal que comandou a repressão com mãos de ferro, demonstra preocupação. Mas, o faz para defender os interesses do Governo Federal.
As palavras de Mauro de Brito servem apenas para reforçar a realidade de que Foz do Iguaçu é usada para atender os interesses governamentais quando isso é conveniente ao governo.
Como o governo deseja ver aprovada a MP 380, reconhece a crise e o drama social provocados pela repressão desmedida e sem qualquer ação compensatória.
Durante a permanência de Mauro de Brito em Foz ele determinou, e em alguns casos decidiu, medidas repressivas. Seus sucessores seguiram o mesmo caminho com a chancela dos superiores.
Combateram com a mesma arma e barulho, o descaminho e o contrabando. Contrabando que em vez de reduzir, cresceu. Aplicaram o veneno como remédio. E o fizeram sob o manto falso da reconversão econômica e proteção à formalidade e empregos da indústria nacional.
Não estavam sós. Contavam com o apoio de alguns arautos da moralidade que, influenciados ou em conluio com algumas associações e Institutos de objetivo e missões duvidosas, aplaudiam e emudeciam diante das ações promovidas.
Mauro de Brito agora cria um novo vocábulo o "importabando" para alertar sobre a invasão de produtos contrabandeados através de São Paulo. Reconhece que somos pequenos na indústria do descaminho e do contrabando estabelecida em portos e aeroportos de todo o Brasil.
O problema é que apanhamos como gente grande. Pagamos o preço aviltante da insensibilidade repressiva governamental. Fomos mergulhados no drama social que hoje parece estar preocupando o ex-delegado e atual chefe da Divisão Nacional de Combate ao Contrabando e à Pirataria da Receita Federal.
Resta saber se a declaração de que São Paulo está se convertendo em "um grande Paraguai" com preços subfaturados, faturas falsas ou classificação irregular do produto - denuncia feita por Mauro de Brito no 'Estadão' do dia 31 de agosto - vai provocar a mesma sede repressiva destinada à fronteira de Foz do Iguaçu com Ciudad del Este ? É claro que não.
Nunca deixei de dizer, pessoalmente ou publicamente, ao ex-delegado - até pela boa relação pessoal que sempre tivemos - as conseqüências sociais destas ações. Verbalmente, ou através de artigos publicados desde 2001, tenho enviado recados claros e concisos sobre o drama social que hoje parece sensibilizar o coração de um dos artífices desse processo.
Meu discurso era entendido por alguns ignorantes e hipócritas como de defesa da ilegalidade e da informalidade. Por outros era visto preconceituosamente pela minha origem fenícia ou árabe. Quando na verdade se trata de independência e coragem. Não temo me expor para defender, de forma intransigente, nossos legítimos direitos.
Pensando bem, intimamente prefiro pensar que não se trata de ignorância, hipocrisia ou preconceito, mas sim de covardia dos meus caluniadores silenciosos.
É preciso salientar que os métodos pouco ortodoxos utilizados pela Receita Federal para defender a legalidade e a formalidade, eram apoiados por uma pequena e auto-intitulada "elite empresarial", representada pela "nossa" Associação Comercial e Industrial de Foz do Iguaçu - ACIFI.
Durante a incansável tarefa de arrocho da fiscalização, apoiados pela imprensa mal informada ou mal intencionada que permitia a manipulação de informações, os sacoleiros foram classificados como bandidos, criminosos, lavadores de dinheiro, instrumentos para evasão de divisas.
Houve quem afirmasse que os sacoleiros seriam incompatíveis e indesejados pelo nosso receptivo turístico. Para alguns estudiosos locais desta matéria, os "sacoleiros" sujavam nossas ruas. Esqueceram que a atividade representou mais de cinqüenta por cento do circulante financeiro da economia local.
Em razão do que se criou sem alternativas, o que vemos hoje é o comércio estagnado, ruas abandonadas e esburacadas, terrenos tomados pelo mato, queda nas atividades econômicas, desemprego alarmante, criminalidade em crescimento vertiginoso. E o que é verdadeiramente preocupante: sem nenhuma perspectiva capaz de amenizar o caos social instalado pela ação repressiva sem compensações.
De repente os olhos do governo se voltam para o segmento informal da economia ocupado por uma legião formada por pessoas de bem que buscavam o sustento de suas famílias. Aqueles que foram marginalizados podem ser transformados em "micro empresários" de carteirinha. E quem os criticava aplaude. Quem torcia o nariz para atividade e a entendia como um estorvo, agora elogia. Quanta hipocrisia.
E continuamos sem respostas. Senão vejamos: Quais grupos a repressão servia quando a aplicação da lei foi amainada pelo Estado? E depois a quem servia quando mesclaram o descaminho, que exige tratamento diferenciado, ao contrabando que deve ser combatido com rigor. E hoje?
Resta saber de onde vem a pressão para regulamentar uma medida inócua e desmoralizante para o governo. Não consigo crer que, de uma hora para a outra, corações tecnocratas tenham sido tocados pelo sofrimento alheio a ponto de admitirem o que trataram com arrogância, prepotência e uso de força excessiva no combate.
Não posso crer que estão sensibilizados com os desempregados e excluídos - filhos relegados de uma sociedade que as ações repressivas esquartejaram comprometendo atividades econômicas LÍCITAS com ações impensadas, mal planejadas e mal conduzidas.
Mas não está tão ruim que não possa piorar. Mais uma vez os assuntos relativos aos interesses iguaçuenses, continuam sendo tratados por pessoas despreparadas, alguns oportunistas e muitas delas desconhecedoras do histórico interesse dos Governos Brasileiro, Paraguaio e, principalmente das grandes empresas nacionais e multinacionais que durante muito tempo foram favorecidas pela permitida triangulação de mercadorias e que nas últimas décadas usaram a região como e quando lhes convinha.
Alias, não é privilégio nosso. Isso ocorre a décadas em São Paulo e em outras importantes regiões do Brasil. Pena que os Órgãos de Repressão e o Mauro de Brito só descobriram agora.