Londres - A Anistia Internacional (AI) acusou nesta quinta-feira o Vaticano de intolerante e reafirmou sua postura a favor das mulheres e meninas que enfrentam ameaças ou coerção ao defender seus direitos sexuais e reprodutivos.
"A Igreja Católica, através de um relato enviesado de nossa posição sobre aspectos do aborto seletivo, está colocando em risco o trabalho em defesa dos direitos humanos", declarou Kate Gilmore, subsecretária geral da AI.
A ONG, em um comunicado divulgado hoje em Londres, respondeu ao informe do Vaticano, que declarou na quarta-feira que deixaria de doar dinheiro ao órgão de direitos humanos por sua posição sobre o aborto.
"A Anistia Internacional rebateu a afirmação do cardeal Renato Martino, chefe do Conselho Pontifício para a Justiça e a Paz, sobre o fim do financiamento do Vaticano à Anistia", destacou a ONG.
"Nós não temos aceitado doações do Vaticano", corrigiu Kate.
"Milhões de pessoas em todo o mundo, de diferentes credos e religiões, fazem doações à Anistia Internacional como indivíduos. Entre eles, agradecemos as doações de membros da Igreja Católica", acrescentou.
A subsecretária geral da Anistia afirmou que sobre o tema do aborto, a entidade não se manifestou nem contra, nem a favor.
"A posição da Anistia Internacional não está a favor do aborto como um direito, mas sim a favor dos direitos humanos das mulheres para que elas estejam livres do medo, da ameaça e da coerção depois de serem vítimas de estupros e outros abusos graves de direitos humanos", explicou Kate.
Na quarta-feira, o Vaticano anunciou "a suspensão de contribuições financeiras" da Igreja à Anistia Internacional, por considerá-la promotora do aborto.
Martino havia explicado que essa "suspensão" era conseqüência inevitável da decisão da Anistia de promover o acesso ao aborto para as mulheres vítimas de violência ou quando sua saúde corre sério risco.
Além disso, Martino acusou a Anistia de "trair sua missão" e disse que "os indivíduos e as organizações católicas devem retirar seu apoio", ao grupo.
"Justificar o aborto seletivo, inclusive em casos de estupro, é definir a criança inocente que está no útero como um inimigo, uma 'coisa'que deve ser destruída", disse Martino.
Em resposta a essas acusações, a Anistia afirmou que é a favor "da descriminação do aborto para que as mulheres tenham acesso a uma atenção sanitária quando surgem complicações".
"A Anistia Internacional defende as vítimas e sobreviventes de violações aos direitos humanos. Nossas políticas refletem nossa obrigação de solidariedade como movimento de direitos humanos, por exemplo, quando uma vítima de estupro em Darfur, que ficou grávida do inimigo, é exilada por sua própria comunidade", explicou Kate.
"Nós somos um movimento que protege o cidadão, incluindo os crentes, mas que não impõe crenças", defendeu a ONG que tem sede em Londres.
"Pedimos aos líderes católicos que lutem pela tolerância e o respeito de liberdade de expressão para todos os defensores dos direitos humanos, inclusive a Anistia Internacional, já que a Anistia continuará defendendo a liberdade de religião", concluiu.