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:: Opinião ::
Medicina
  • Ana Beatriz B. Silva e Mirian Pirolo *
  • Sexta-feira, 08/06/2007 09:54

    No último dia 3 de junho uma jovem de 15 anos, vítima de Anorexia Nervosa, foi internada num hospital em Feira de Santana, a 108 quilômetros de Salvador, através de mandado judicial de busca e apreensão, uma vez que os pais eram contrários a internação.

    A jovem de 1,59m de altura, que pretende ser modelo, está com apenas 35kg, muito abaixo do peso considerado saudável para sua faixa etária e correndo sérios riscos de vida.

    Infelizmente, o problema vem crescendo assustadoramente nos últimos tempos, em função da ditadura da beleza, e chamou a atenção do público brasileiro, em geral, com a morte da modelo Ana Carolina Reston em novembro de 2006.

    A Anorexia Nervosa é um transtorno alimentar, onde o paciente se impõe a rígidas restrições alimentares, com acentuada perda de peso, em virtude do temor intenso e injustificável de engordar.

    O transtorno acomete preferencialmente adolescentes e adultos jovens entre 10 e 30 anos, sendo que a faixa etária entre 12 e 16 anos do sexo feminino é a campeã absoluta dos casos observados. Nesta idade muitas adolescentes não se conformam com as mudanças corpóreas, que são naturais da idade. Comparam-se com suas amigas e frustram-se quando são obrigadas a usar manequins maiores que os anteriores. Embora em escalas infinitamente menores, os homens também são acometidos. No entanto, independentemente da sexualidade, a taxa de mortalidade nos quadros de Anorexia Nervosa é altíssima.

    A princípio, os pacientes recusam-se a ingerir alimentos ricos em carboidratos (açúcares) e lipídeos (gorduras) e, quando o quadro já é mais grave, comem poucos tipos de alimentos (maçã, folhas e água, p. ex.) e com jejuns que duram vários dias.

    Os anoréxicos estipulam metas muito rigorosas de perda ponderal e, mesmo aqueles que já se apresentam extremamente emagrecidos ou caquéticos, possuem um "pavor" descabido e inexplicável de ganhar peso. Perdem totalmente a autopercepção de seus corpos e, mesmo que todas as evidências demonstrem que estão muito abaixo do peso saudável, consideram-se gordos. Torna-se um tipo de vício ou compulsão e buscam, de forma insaciável, a beleza e a perfeição que julgam existir. Entram numa espiral que nunca se fecha, iniciando uma busca incessante de auto-superação.

    Infelizmente, na maioria absoluta dos casos, os familiares só percebem a grande perda de peso dos pacientes muito tempo depois que o quadro se iniciou. Isto ocorre, muitas vezes, porque os anoréxicos utilizam vários "truques", no sentido de enganarem seus pais quanto à ingesta de alimentos e usam roupas largas para disfarçar sua magreza.

    Os anoréxicos se empenham ao máximo em inibir seu apetite. Muitos chegam a comer gelo com o intuito de "tapear" a fome. Costumam trocar "receitas mágicas" e perigosas com amigos - pessoalmente ou pela internet (blogs e Orkut) - visando perder peso rapidamente. Nessa busca obsessiva, os anoréxicos podem, além de suprimir alimentos, tentar "eliminá-los" provocando vômitos ou ainda utilizando laxantes, diuréticos, excesso de exercícios físicos e medicamentos redutores de apetite.

    A Anorexia Nervosa traz sérias complicações clínicas e mentais, cujo tratamento, via de regra, requer uma equipe multidisciplinar como médicos, psicólogos, nutricionistas e, muitas vezes, internações hospitalares.

    É importante frisar que os anoréxicos não procuram tratamento de forma espontânea. São conduzidos por seus pais e contra a sua vontade. Para eles a anorexia não é um problema e sim uma solução para suas insatisfações físicas. Pelo medo desmedido de engordarem não aceitam tratamento, muito menos internações.

    Por isso é tão importante que as pessoas mais próximas tenham conhecimento sobre o assunto, além do "bom e velho" senso de observação. Na maioria das vezes a doença se instala em seus lares sem os pais perceberem e, quando são alertados, muitas vezes, não valorizam o problema com o peso que a situação exige.

    Os anoréxicos não comem porque estão adoecidos mentalmente, perderam a noção da sua imagem corporal e preferem morrer a serem "gordos". A colaboração dos pais é fundamental para salvar a vida de seus próprios filhos que na maioria são adolescentes, quase crianças. Se não houver empenho dos cuidadores, a justiça pode e deve agir por eles.

    * Dra. Ana Beatriz B. Silva é médica psiquiatra, escritora, professora Honoris Causa da UniFMU (SP), diretora das clínicas Medicina do Comportamento (RJ e SP). Autora de "Mentes Insaciáveis: anorexia, bulimia e compulsão alimentar", Ediouro.

    * Dra. Mirian Pirolo é assessora literária e farmacêutica-bioquímica - Medicina do Comportamento (RJ).

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