Qualidade de vida está no equilíbrio da mente e do corpo
Aline Wolff da Fontoura
Quinta-feira, 10/05/2007 - 23:11
Porto Alegre - O segredo do bem-estar é aceitar-se e amar-se através da auto-estima. Mesmo com os adventos da modernidade, terapias alternativas e tratamentos de última geração para o rejuvenescimento estético, nem todo o público maduro desfruta dos aprendizados que a vida oferece.
Um relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) apresenta que até 2050 o número de pessoas com 60 anos ou mais poderá triplicar. Um dos motivos é a medicina avançada, os cuidados com sigo e a preocupação qualidade de vida. A psicóloga Márcia Papaléo diz que ter qualidade de vida na terceira idade significa realizar atividades físicas e emocionais prazerosas, que contribuam para a melhoria interna e o fortalecimento da estima. Nesta fase, a depressão e a solidão são constantes no dia-a-dia. “Mas não é difícil manter-se bem, basta aceitar o envelhecimento e ter amor próprio”.
Quando a pessoa estiver solitária, sem vontade de viver, e quando esta situação estiver prejudicando a rotina, sem a perspectiva da solução, algumas ações são bem-vindas, como contatos grupais, atividades físicas, acompanhamento terapêutico o amor da família. Graças Azevedo de Gusmão é testemunha. Há alguns anos não imaginava o trabalho interessante que participaria. Nem ela, nem uma dúzia de outras meninas entre 52 e 76 anos de idade que se engajaram numa idéia nobre em 2005 e 2006: as Gurias do Calendário, que eternizou a beleza da maturidade em fotos de nu artístico.
Márcia Papaléo é a coordenadora do projeto. “As Gurias do Calendário e o Guris do Calendário chamam a atenção da sociedade para todas questões a respeito dos conceitos, valores e preconceitos sociais que giram em torno do adulto maduro e do idoso, além de resgatar a estima valorizando a sexualidade e a vivacidade. O cuidado com a imagem, neste sentido, é muito importante”, ressalta.
Graça, a corajosa, diz que o impulso foi pelo trabalho voluntário, onde os recursos captados pela venda do material se direcionaram ao Instituto de Mama do Rio Grande do Sul e ao Multipalco do Theatro São Pedro. “Mas foi além, muito além. Para a realização tive que estar muito bem comigo mesmo. Isso o grupo trabalhou com força”. Depois dos cinqüenta, as pessoas tendem a sentir-se só, se acharem pouco úteis. Passam a vida cuidando dos filhos, da casa, da família. De repente perdem vínculos. “Vi muita gente triste, e em nossas passagens por cidades, estado e países, tive um retorno gratificante. Com simplicidade, dançamos, conversamos e viajamos”.
Quais são os segredos para sentirmos-nos jovens, saudáveis e importantes? A estética influi diretamente com a estima, mas conforme a psicóloga Márcia, não adianta arrumar a casa e internamente não estar bem. Dr. Flavio Borges Fortes, cirurgião plástico membro titular da Saciedade Brasileira de Cirurgia Plástica, confirma: “qualidade de vida significa equilíbrio perfeito entre espírito, mente e corpo obtido através do enriquecimento cultural, vivências e cuidados com a saúde”.
Se olhar e não se gostar é um grande problema. Por isso, clínicas estéticas recebem cada vez mais o público da terceira idade. Procedimentos não invasivos, não radicais, como botox, preenchimentos, bioplastia, lifting sem cirurgia, tratamentos de manchas, fotorejuvenescimento, entre outros, são bastante procurados. Todos menos traumáticos e de rápida recuperação. Esta tendência, explica Flavio, se deve ao fato de que as pessoas não querem grandes mudanças, preferem manter suas características, com resultados mais naturais. O que é o ideal. “A melhora de um determinado aspecto estético jamais irá trazer de volta os anos de juventude, evidentemente já passados e perdidos no tempo. O resgate da auto-estima deve sim, nesta fase da vida, servir como um alimento para o espírito e para a alma”. A terceira idade, enfatiza, deve ser vivida com toda a plenitude. “Procure ouvir sua voz interior, em busca do equilíbrio corpo/mente/alma. Aspectos estéticos de sua aparência devem ser considerados. Veja o quanto uma mudança pode lhe trazer satisfação e alegria de viver”.
Para Lísia Brandão, psicóloga e mestre de Yoga, idosos que se olham no espelho e não se gostam devem mudar a causa e não o resultado. “É simples”, explica. “Temos um padrão social em que as mulheres são as principais vítimas. Usamos a experiência que a vida nos dá e chegamos à conclusão de que não quereremos voltar a ser guriazinhas de 20. Podemos ser bonitas, de acordo com a nossa idade. Como um vinho, percebe? De uma safra invejada, requintado, ou um vinagre”. Manter a atividade física e obter objetivos de vida gera prazer, novos passos e novas conquistas. “Neste momento deixamos de nos preocupar com o tempo”, conclui.
Pesquisas científicas enfatizam que a leitura, bem como outros estímulos da mente, oxigenam o cérebro e mantém a máquina que é o ser humano se reciclando. Exercícios físicos liberam a endorfina e auxiliam na produção da energia vital ao corpo. Viver intensamente, buscando conhecer e fazer novas amizades é a dica, como o refrão do jingle criado nas atividades de Márcia Papaléo: “quero viver a minha vida, quero me permitir”. O coração feliz, sempre, é o sinal do caminho certo.