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Energia
A sinuca do gás boliviano
  • Por Luiz Leitão *
  • Quarta-feira, 08/11/2006 - 20:29

    O consumidor brasileiro e as indústrias que utilizam gás natural, estão numa sinuca, criada pelo governo, que incentivou o uso do gás natural em veículos, residências e fábricas. Não faz tanto tempo assim que a Comgás, empresa que distribui o produto em São Paulo, alardeou as vantagens da conversão dos fogões e outros equipamentos do gás de petróleo (GLP) para o natural (GNV, GNP).

    A culpa, é claro, cabe ao distinto público, que não aprende a desconfiar de políticas de incentivo governamentais. Esqueceram-se os consumidores da falta de planejamento que redundou na escassez de álcool ali pelo fim da década de 80, de tal sorte que ninguém queria sequer ouvir falar em carro a álcool. Com o advento dos veículos flex, ninguém mais precisou se sujeitar aos humores dos usineiros, podendo optar pelo combustível verde somente quando o preço compensar.

    Mas muita gente fez a conversão de seus automóveis para o uso do GNV, investindo considerável quantia, e muitos pequenos empresários se endividaram para capacitar suas oficinas a fazer a adaptação dos veículos.

    Quando a crise do gás boliviano se instalou, o presidente Lula foi o primeiro a declarar que o preço do gás não subiria; se houvesse aumento do produto nas negociações com a Petrobrás, ela teria de absorver a diferença. Isto foi dito em maio, e é bom que os consumidores cobrem de Sua Excelência o cumprimento da promessa, que a reeleição não invalidou.

    Onde há fumaça, há fogo, e a Agência Nacional do Petróleo já prepara o terreno, dando a entender que a Petrobrás terá de aumentar os preços. Evo Morales, presidente da Bolívia, quer um acréscimo de 25%, levando o custo do produto ao mesmo nível suportado pela Argentina, em recente acordo com a Bolívia, que se comprometeu a fornecer, dentro de alguns anos, uma quantidade de gás da qual, hoje, não dispõe, apostando no aumento da produção, o que demandaria investimentos da ordem de U$$3 bilhões, que o país não tem, como não possui sequer capacidade técnica para operar suas refinarias, que, na verdade, são da Petrobrás. Ou eram.

    O pomposo “decreto supremo” de Morales irá expropriar as unidades da empresa brasileira que, todavia, terá direito a uma indenização, já que os brilhantes condutores de nossa política externa não haverão de se atrever a atender o desejo do presidente boliviano, que as pediu de presente. Ingrato, abusado, Evo se esquece que Lula perdoou uma dívida de seu país da ordem de US$500 milhões, meio bilhão de dólares.

    Morales é beligerante por natureza, mau negociador. Não só porque vende o que não tem, ou por não respeitar contratos, mas por sua gritante inconseqüência. Mas, a Petrobrás, que “viciou” os consumidores no gás natural, já dá sinais de que vai mesmo aceitar o aumento boliviano – e repassá-lo a sua distinta clientela.

    Marco Aurélio Garcia, assessor de Lula e defensor da política boliviana de expropriação, diz que não há ameaças da parte de Evo. Quem foi, então, que ameaçou mandar seu exército invadir as instalações da Petrobrás, se o acordo - leia-se coação - não fosse aceito?

    Está certo, a Bolívia é um país pobre, e desse ponto de vista, talvez o Brasil deva mesmo aceitar o aumento. Mas Lula já conhecia a situação da nação andina, quando asseverou que os consumidores não sofreriam aumento. Também é verdade que não convém fechar as portas para um fornecedor de energia tão próximo, porque já falta gás para nossas termoelétricas - é possível que a próxima grande guerra se dê em razão da disputa por fontes de energia -, mas é difícil negociar nestes termos.

    Outra face da contenda é a intenção da Bolívia de retirar do GNV parte substancial de seus componentes nobres – o que dimuirá seu poder calorífico – para destiná-los a uma joint-venture com a PDVSA, a estatal petrolífera da Venezuela.

    É um jogo duro, a Bolívia se arrisca, ante uma negativa da Petrobrás, ainda que improvável, a perder os excelentes técnicos brasileiros. Quem pode mais?

    Quanto aos consumidores, de duas, uma: ou aprendemos a não confiar nas promessas - e negativas ou afirmações - de nossas autoridades, ou elas aprendem a não apregoar o que não sabem se poderão cumprir.

    Luiz Leitão é administrador e articulista.

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