O patriotismo futebolístico dos brasileiros é, cada vez mais, mais interessante. A televisão é, no momento, a grande responsável por isso. Honra nacional, esse esporte movimenta milhões, bilhões de dólares no planeta. Altíssimo negócio. Por isso, os bancos estão nessa.
Milhares de meninos e meninas sonham em ser cantor, dançarino ou jogador de futebol. Os meios de comunicação - com ênfase, novamente, para as emissoras de televisão - pouco ou quase nada falam, propalam, dos grandes feitos históricos do País. Comem datas, fatos e títulos historicamente sagrados, consagrados.
Wellington da Fonseca Ribeiro é jornalista, professor e bacharel em Direito.
Sem história, sem memória, zeradas, as massas são mais fáceis de serem manipuladas pelo marketing dos poderes. Entendam, marketing, aqui, como o conjunto dos meios que atuam em favor de determinadas causas. Prevalece o patriotismo de resultado, de ocasião.
A Conjuração Baiana - ou Revolução dos Alfaiates - produzida em 1798 e que neste ano completa 200 anos, é simplesmente desprezada nas escolas de todos os níveis da Bahia, terra-mater da História do Brasil. Povo que não cultua sua história é gente de terceira categoria. Irrefutável.
A Conjuração promovida por alfaiates, escravos, soldados e pequenos comerciantes, a qual, mais tarde, 25 anos depois, desaguou no 2 de julho de 1823, "data melhor para lembrar que a independência do Brasil consolidou-se na Bahia", como bem diz material publicitário da Fundação Gregório de Mattos, não pode ser olvidada, esquecida, apagada ou anulada.
Revejamos o que eles defenderam: libertar o Brasil de Portugal; acabar com a escravidão; aumentar os salários dos soldados; melhorar as condições de vida do povo; abrir os portos brasileiros para outros povos.
Foram dedurados, presos, processados e condenados à forca e ao esquartejamento, vítimas de criminosa sentença, podre e infame sentença de 7 de novembro de 1799, os baianos João de Deus, alfaiate, Manuel Faustino, 17 anos, aprendiz de alfaiate, e os soldados Luís Gonzaga e Lucas Dantas. Sem piedade!
Em novembro do próximo ano, os bons conspiradores farão dois séculos de eliminados, enquanto a "capital de um novo mundo" fará 450 anos de fundada. História relembra história . Antes deles, praticamente do mesmo modo, foi liquidado o tenente Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes, mártir da Independência, herói nacional (agora é Taffarel) em 21 de abril (data danada) de 1792.
Escrevo neste domingo triste, à noite, 12 de julho de 1998, poucas horas depois da Seleção do Ricardão ter conquistado na França o título de vice-campeã mundial de futebol. A mesma França que exportou para os revolucionários baianos o lema liberdade, igualdade e fraternidade. Sinto melancolia, todavia, rápido, entro em outra. De São Cristóvão dirijo-me ao bar do Aeroporto, onde tomarei algumas.
De lá, certamente não partirei de avião com destino à felicidade, como gostaria. Levo, no entanto, dentro da cabeça esta constatação: os craques chuparam a laranja, porém, engasgaram-se quando foram comer o pão francês. Somos, entretanto, tetra e vice-campeões do último mundial deste século atômico que vai desaparecendo.
Penta, agora, só no pós-atômico Século XXI, no ano 2002.
* Wellington da Fonseca Ribeiro é jornalista, professor, bacharel em Direito e suplente remoto de deputado federal pelo PDT/2006. É Campoalegrense-Remansense (BA).
• Este artigo foi publicado originalmente no jornal "O Bancário", do Sindicato dos Bancários da Bahia, em 21 de julho de 1998, quando muitos baianos lamentavam a mudança do nome do aeroporto de Salvador, que deixou de ser Dois de Julho - data magna da história da Bahia - para levar o nome do ex-deputado Luis Eduardo Magalhães.
Desde então surgiu um movimento para devolver ao aeroporto seu nome original. No momento, dois projetos de lei - de autoria dos deputados federais Luís Alberto (PT) e Colbert Martins (PSB) - tramitam no Congresso Nacional para restabelecer a vontade histórica do povo da Bahia.
Um episódio emblemático que retrata esse desejo aconteceu na madrugada de 1º para 2 de outubro, por volta das 3 e meia da manhã, na sede do TRE, quando tornou-se irreversível a vitória de Jaques Wagner para o governo do Estado. Embora cansada e com sono, parte da galera que acompanhava a apuração comemorou a vitória do petista repetindo, emocionada, como um mantra, um grito que não quer calar: "Aeroporto é Dois de Julho".