Emigração 'é para ricos', dizem jovens de Guiné-Bissau
AGÊNCIA LUSA
Sábado, 30/09/2006 - 16:44
José Sousa Dias, Varela, Guiné-Bissau - Os jovens de Varela, no extremo noroeste de Guiné-Bissau, não querem ouvir falar da emigração clandestina para a Europa e, embora saibam que muitos africanos tentam dessa forma a sua sorte, afirmam que "isso é para os ricos".
"Nós aqui não temos nem dinheiro para comer, como poderíamos ter dinheiro para uma aventura dessas? Isso é tudo falso", afirma à Agência Lusa o jovem Omar Sambu, carpinteiro, pescador, comerciante e eletricista, mas desempregado.
Extremamente pobres, falando entre eles em francês, uolof (idioma senegalês), flupe (ou njola, dialeto local) ou ainda em dialetos guineenses - poucos são os que falam português -, os moradores nem sorriem quando perguntados se Varela se tornou num dos pontos de partida para as novas rotas da imigração clandestina.
Isolados
"Não há dinheiro para nada. Não há dinheiro a circular em Varela. Não há comércio. Os hotéis estão todos fechados e em ruínas. Só comemos o que os pescadores nos trazem, que trocam pelo arroz que os agricultores cultivam", lamenta-se à Lusa Landim Sadjo, o presidente do Comitê de Estado de Varela.
Varela é hoje uma povoação triste, desoladora e isolada, com cerca de 50 pescadores que ainda confiam no mar generoso e, sobretudo, em Deus.
"Dieu est avec nous (Deus está conosco)" é o nome de uma das mais de duas dezenas de pequenas embarcações (foto), cavadas em espessos troncos de árvore, em que diariamente os pescadores vão ao mar para garantir o alimento de subsistência, que se juntará, mais tarde, aos recolhidos da terra.
No cargo desde a independência formal de Guiné-Bissau, em 1974, Sadjo diz que as razões da miséria são sempre as mesmas: conflitos militares, irresponsabilidade do poder central de Bissau e a infelicidade que é residir fora da capital guineense, que não tem um único médico nem um enfermeiro, sendo que o mais próximo está em São Domingos, 55 quilômetros para o leste.
Varella é acessível apenas pela estrada que parte de São Domingos, no entanto, percorre-la atualmente seria um verdadeiro inferno, pois a passagem está inundada com as águas das chuvas.
Para agravar ainda mais a situação, a ponte de madeira que liga o trecho de cerca de 20 quilômetros entre Varela e a cidade de Susana foi destruída após um acidente com um caminhão carregado de arroz para a população local, deixando a estrada inutilizada "até que alguém se lembre" de repará-la.