Há muito tenho me intrigado com uma questão que virou rotina e que está se tornado uma prática usual nos diversos segmentos da sociedade. É a incoerência das ideologias que no mercado dos acertos nacionais ganha em disparada de valores como princípios, caráter e ética, transformados em mercadorias com preços que variam conforme o interesse de quem participa desse lucrativo negócio de bens, antes tidos como inalienáveis. É triste a constatação, mas não dá para aceitar esse jogo que, a não ser no exclusivo campo da flexibilização das idéias, é inescrupuloso e inaceitável como regra de conduta para qualquer tipo de relação séria, que deve primar pela honestidade e respeito aos direitos das pessoas.
Rubens Neuton é jornalista e advogado.
Não é preciso ir muito longe para se deparar, freqüentemente, com exemplos dessa instabilidade de pensamento, que eu prefiro chamar de anomalia ideológica, movida por objetivos pessoais, geralmente escusos e prejudiciais aos interesses da coletividade. Dentre as áreas mais vulneráveis, a política tem maior visibilidade, pela repercussão dos acontecimentos e pela produção de nefastos resultados. Mas outros setores também são craques nessa postura reprovável, destacando-se a economia e sua facilidade de corromper outras instituições; a Justiça com sua propalada “formação de juízo de valor” e flexibilidade na aplicação da lei; a cultura e a oscilação do pensamento em nome da renovação das idéias; e, dentre tantas outras, os esportes, onde a paixão e o amor à camisa já não tem muita importância e o que se destaca é a oportunidade de faturamento.
Num país de cidadãos de memória curta e não muito interessados nos problemas nacionais, na concepção dos políticos “trocar de partido como se troca de camisa”, deixar a oposição e virar situação, fazer conchavos fraudulentos de bastidores, são apenas estratégias do abominável jogo do poder, que dita regras viciadas e as impõe como verdadeiras. Neste contexto, o Brasil tem uma história farta que deixa inconformados e corados de vergonha aqueles que acreditam na possibilidade de mudanças desse quadro repugnável e não se cansam de lutar por esse ideal.
Como uma fera indomável, a corrupção e a violação de valores essenciais vêm se impondo como uma regra de normalidade, apesar dos efeitos nefastos e de tanto mal que têm causado à nação. Nessa zaga, o Brasil é marcado por um poderoso esquema de atuação que ignora ética e dignidade, desconsidera leis e normas de convivência social e prossegue atropelando a boa fé dos brasileiros, lesando direitos e interesses coletivos, sem sofrer retração dessa ação devastadora. Sai um esquemão entra outro e, contagiado por um sedativo que inclui entre na sua composição elementos de permanente poder estatizante, o povo tem se comportado como um gigante adormecido, que prefere a comodidade e as pseudo-benesses desse questionável sono, ao despertar para o processo de renovação.
O mal não escolhe sua vítima. Interfere em qualquer segmento por mais impregnado que seja de sentimento coletivo. É triste saber, por exemplo, que o time do coração virou empresa e que uma partida de futebol, que no passado mobilizava uma multidão apaixonada de verdade, agora já não tem o mesmo poder de empolgação. Animar o torcedor, agora depende muito mais da contabilidade dos cartolas e dos jogadores do que da capacidade de emocionar a galera nas arquibancadas com um verdadeiro show de talentos exibindo-se no gramado. O que era antes um espetáculo de garra e paixão virou trabalho como outro qualquer, cuja remuneração varia conforme o fator de produção e não de acordo com o sentimento manifestado para valorizar o desempenho em campo.
É lógico que os atletas precisam ganhar dinheiro e devem ser valorizados conforme o talento de cada um, mas eles não estão dentro de uma fábrica, no balcão de uma loja ou dentro de uma repartição pública. Todo mundo sabe que, como em outros setores da sociedade, no campo dos esportes também há mudanças e evolução, mas é preciso estar antenado, sem perder a essência e os princípios da honestidade, da seriedade e da verdade. Competição esportiva é uma disputa e não um negócio. No esporte deveria vencer quem tem mais talento, enquanto entre os comerciantes o ganhador será sempre aquele que tiver mais habilidade para negociar e estiver disposto a pagar mais pelo mesmo produto.
Os exemplos do cotidiano têm mostrado a deformação de um modelo social que se caracteriza muito mais por interesses imediatos e pessoais do que pela representatividade do papel que deve ser exercido em função do coletivo. Não dá para absorver a função social do trabalho se os seus objetivos não forem direcionados ao bem-estar de toda uma coletividade. Embora tenha se tornado corriqueiro, é frustrante saber que o político eleito na base da confiança para zelar pelos interesses da sociedade se corrompe na primeira oportunidade. Não é fácil admitir que um ídolo dos esportes, de quem se espera lances emocionantes, tenha um desempenho inverso para atender acordos escusos ou porque esteja com problemas de ordem financeira com dirigentes do time. Da mesma forma, também não é fácil aceitar um artista ou intelectual, que muda de posição em troca de migalhas do poder por benefícios pessoais.
Nas esferas econômica, policial, judiciária e outros segmentos do serviço público, apenas para citar as mais freqüentes nos meios de comunicação, os atos escusos se proliferam e quanto mais se denunciam, mais absurdos aparecem. Quanto mal causa um produto vencido ou maquiado, portanto impróprio para o consumo, colocado à venda por ganância do empresário? E o policial corrupto que a troco de propina se compactua com o bandido, atuando em nome da defesa da ordem pública? O funcionário público que desvia dinheiro, manipula dados ou prevarica no trabalho; o juiz que vende sentenças ou o promotor público que inverte parecer, não apenas praticam atos de corrupção repugnantes. Prejudicam pessoas, lesam o erário, enfim, praticam atos que maculam a imagem das instituições e criam um fosso social difícil de ser reparado.
Já está passando da hora de encarar tais desvios com mais rigor e comprometimento, para banir da sociedade as condutas delituosas e livrar o país desse lixo social, que afeta, prejudica, envergonha e revolta toda a nação brasileira. É contra esse tipo de absurdo que a sociedade tem que se insurgir, assumir seu papel de fiscal do patrimônio nacional e dos interesses coletivos e exigir punição para os detratores do bem comum. Só assim, poder-se-ão atingir o aperfeiçoamento democrático e o bem estar social, objetivo que o país vem perseguindo desde os tempos da sua independência, mas ainda não conseguiu por em prática. O momento é mais do que oportuno, é só usar a consciência e o livre arbítrio em favor do bem contra o mal.