Teerã - O Irã baixou o tom dos protestos contra o Ocidente nesta sexta-feira, com a principal oração da semana a manter-se essencialmente religiosa, com poucas referências ao tema da energia nuclear.
Os sermões da mesquita da Universidade de Teerã - uma enorme praça tapada com uma estrutura metálica onde a segurança é apertada e até os cigarros são confiscados - costumam estar cheios de mensagens políticas, com recados para o interior e o exterior do Irã.
Desta vez, o pregador escolhido para os habituais dois sermões, o aiatolá Mohammad Emami Kashami, um dos 12 membros do Conselho dos Guardiães (que garante o respeito pela Constituição), preferiu dedicar-se ao religioso.
Kashami - que sempre disse que, se a comunidade internacional se decidir por sanções contra o Irã, estas serão mais devastadoras para o mundo e para a região do que para os iranianos - concentrou-se na atualidade do culto ao imã Majdi, também conhecido como o "imã do tempo", cuja vinda para salvar o mundo se espera há mais de um milênio.
No entanto, o mestre-de-cerimônias, que conduz a oração e anima a multidão antes das palavras do aiatolá, levou os presentes a gritar "abaixo os Estados Unidos", "abaixo o Reino Unido" e "abaixo Israel" a plenos pulmões, punho no ar e num coro muito afinado.
Para, logo a seguir, todos recitarem em coro uma célebre oração dos xiitas iranianos: "Deus, protege o partido de Khomeini até ao dia do juízo final, mantém com saúde o nosso líder Ali Khamenei e protege os combatentes do Islã".
Na seqüência, veio a referência que se esperava ao tema nuclear, mas sem ir mais além das palavras de ordem habituais: "Morte aos traidores americanos e britânicos, a energia nuclear é um direito inalienável do povo iraniano".
Ministro -- Na mesquita, no espaço reservado às personagens mais importantes, apenas se conseguia identificar o ministro da Energia, Parviz Fattah, porque o presidente Mahmud Ahmadinejad considera que os governantes devem estar onde está o povo: misturados entre os crentes que não chegam a entrar no recinto da universidade e rezam nos seus tapetes colocados nas ruas adjacentes.
Quando está em Teerã, Ahmadinejad tem por hábito ir rezar entre as pessoas que estão na rua, tal como já o fazia quando era presidente da Câmara de Teerã.
Nesta sexta-feira, porém, nem isso aconteceu. O Chefe de Estado manteve-se longe da vista dos poucos jornalistas estrangeiros presentes na capital iraniana.
Nem mesmo depois da oração, quando à saída se mobilizam as pessoas para as demonstrações públicas de repúdio aos países estrangeiros, se assistiu a mais do que a uma saída ordeira das pessoas em direção a suas casas.
Na praça da Palestina, nas imediações da universidade, local privilegiado para manifestações, já nem restavam os cartazes da iniciativa da manhã para assinalar os 40 dias do massacre de Qana, quando os israelenses bombardearam um edifício, matando dezenas de pessoas.