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Seqüestro
Natascha Kampusch dá primeira entrevista à televisão
  • Agência Lusa
  • Quarta-feira, 06/09/2006 - 22:43

    Viena - A jovem austríaca Natascha Kampusch deu nesta quarta-feira à noite a sua primeira entrevista à televisão depois de ter estado durante oito anos seqüestrada e fechada no porão de uma casa nos arredores de Viena.

    Com um lenço violeta na cabeça, para esconder o cabelo e manter algum anonimato, Natascha falou durante 40 minutos com o jornalista da televisão pública austríaca, Christoph Feurstein, que seguiu o caso durante os oito anos de desaparecimento da jovem.

    "Sinto-me bem, dadas as circunstâncias. O que mais quero é recuperar do stress da fuga", foram as suas primeiras palavras perante as câmaras e a primeira vez que o mundo ouviu a sua voz.

    Num alemão muito eloqüente, tendo em conta que passou quase metade da sua vida isolada do mundo exterior, Natasha contou os detalhes do seu seqüestro, da sua vida quotidiana, das primeiras tentativas de fuga e dos seus planos para o futuro.

    Entre estes planos destacou o desejo de criar uma fundação para ajudar outras pessoas que tenham passado pelo mesmo que ela, dando como exemplo as mulheres sequestradas no México.

    "Há uma região onde muitas mulheres são sequestradas durante o caminho de ida ou regresso do trabalho, maltratadas e assassinadas. Quero usar o dinheiro para evitar que ocorram mais desses casos", disse numa clara referência aos crimes da cidade de Juarez, no norte do México.

    A jovem de 18 anos disse que desde o primeiro momento em que foi seqüestrada, a 02 de Março de 1998, sentiu que era "mais forte" que o seqüestrador, o técnico de electrônica Wolfang Priklopil, que se suicidou no passado 23 de Agosto, dia em que Natascha conseguiu fugir.

    "Ele tinha uma personalidade muito instável. Isso porque teve falta de proteção", comentou.

    Assegurou que durante o sequestro "não teve medo" porque o seu seqüestrador lhe disse que os pais iam pagar um resgate por ela e podia voltar para casa no "mesmo dia ou no dia seguinte".

    "Acreditava que me ia matar de qualquer forma, por isso pensei que o melhor era utilizar os últimos minutos ou horas da minha vida para tentar fazer alguma coisa, fugir ou falar com ele", afirmou na entrevista.

    "Disse-lhe que não ia conseguir e que a polícia acabaria por o encontrar", referiu, acrescentando que ela própria acreditava que a polícia a encontraria e tudo "terminaria bem".

    A realidade é que Priklopil só a deixou sair do porão com seis metros quadrados seis meses depois de a ter sequestrado.

    "No princípio estava muito desesperada e furiosa, com raiva porque não mudei de lado quando vi o automóvel de Priklopil e porque não fui para a escola com a minha mãe", disse.

    "Se Prikolpil não me tivesse deixado subir para a casa, tinha enlouquecido", acrescentou.

    Natascha explicou também que durante os dois primeiros anos a sua única fonte de informação foram revistas semanais, até que o seu seqüestrador a deixou ouvir rádio.

    Assim, recebeu informações sobre o mundo e também sobre as buscas que a polícia fazia para encontrá-la, afirmou.

    A jovem disse também que conseguiu "obrigá-lo" a celebrar o Natal e outras festividades.

    "Trazia-me presentes porque as outras crianças podiam comprar coisas e eu não podia comprar nada ali dentro. Aparentemente, ele achava que assim eu podia equiparar-me às pessoas de fora", disse.

    "Tinha um peso na consciência, mas tentava negá-lo. Isso demonstrava justamente que tinha um peso na consciência", sublinhou.

    Assegurou que nunca se sentiu só, porque o seu "coração" estava com a família e centrava-se em recordações felizes.

    "Um dia jurei que ia crescer, ser mais forte para conseguir fugir", afirmou.

    Esse dia chegou no passado 23 de Agosto, quando Natascha apanhou o seu sequestrador distraído a atender uma chamada telefônica enquanto aspirava o carro e pensou "é agora ou nunca", tendo começado a correr para casa dos vizinhos à procura de ajuda.

    Durante a entrevista, a jovem disse também que estava sempre a pensar nas coisas que estava a perder como, por exemplo, um namorado.

    "Sempre pensei em ser igual à maioria das pessoas, sobretudo no que se refere à educação escolar. Sempre senti que tinha um déficit. Por isso comecei a aprender coisas", disse.

    Na última parte do seu sequestro, Priklopil já saia com Natascha à rua, mas ameaçava-a de morte caso pedisse ajuda a alguém. "Não podia arriscar", explicou.

    Sobre os seus sonhos para o futuro disse que quer fazer um "cruzeiro com a família" e uma "viajem de finalistas depois de acabar o secundário".

    Mais de 120 canais de televisão do mundo pediram para emitir a entrevista de Natascha, tendo já sido qualificada como a "entrevista do ano".

    A televisão pública austríaca considera que a entrevista à jovem foi o programa com mais audiência da história do canal.

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