Salvador - Ano de 1624, os holandeses estão invadindo Salvador, eles vêm por dentro, na chamada região do sertão, onde hoje existe o Dique do Tororó. Depois de um ano de luta e vitória contra os batavos, Portugal percebeu que teria que defender a cidade também pelo sertão. Por isso, se ergue a casa da pólvora construída em um campo aberto, que logo recebeu o nome de Campo da Pólvora. Em 1808, a Família Real vem à colônia e desembarca em Salvador. A cidade passa a conviver com o luxo trazido pela nobreza.
O entorno do Campo da Pólvora passa a ser ocupado por comerciantes, advogados, professores, médicos, entre outros, que representavam a classe média alta da cidade. Um hospital vai ser erguido em Nazaré, a casa da pólvora está desativada, é necessário que se construa uma rua para facilitar o acesso à casa de saúde. As casas que margeiam o campo são desapropriadas e demolidas e seus escombros jogados nos buracos feitos para colocar a fiação.
Reminiscências desta época são encontradas por uma equipe de arqueólogos da Universidade Federal da Bahia (UFBa), em convênio com a Prefeitura de Salvador, que trabalham nas escavações das obras do metrô desde 2001. Objetos esquecidos ou deixados de lado, pelos novos ricos que povoavam o entorno do Campo da Pólvora no século XIX, são achados diariamente. "Para um arqueólogo este é um trabalho fantástico, porque como este espaço era uma praça, não foi remexido, encontramos peças inteiras, diferente das encontradas na Lapa, que foi muito mexida", revela a coordenadora da equipe de arqueologia, Leila Almeida.
Entre as preciosidades encontradas está uma tampa de uma sopeira de louça inglesa, datada do século XIX, intacta. "As peças são encontradas em tão perfeito estado que chegamos a identificar os fabricantes e sua datação", completa. Louças inglesas, porcelanas chinesas, faianças portuguesas e objetos pessoais, como escovas de cabelo e de dente, feitas de osso, vidros, moedas, botões, imagens e maquinário, montam o quebra-cabeça que desvenda os segredos da história soteropolitana. "As peças não eram consideradas de valor pelos seus donos, por isso eles, que tinham um padrão de vida alto, deixavam este material de lado", informa a arqueóloga. "Não tinha noção no que poderia encontrar aqui", emociona-se o ajudante Acácio do Carmo. |