É paradoxal a relação entre as práticas de plantio orgânico realizadas por famílias ou pequenos agricultores em seus quintais e pequenas roças, com sérios problemas de preço, embalagem e escoamento dos produtos em pequenas feiras próximas aos seus municípios de origem e o apoio histórico do governo para o agronegócio.
A agricultura em larga escala, como a soja, ou a pecuária, nos diversos cantos do Brasil afora, não só tem dizimado ambientes biodiversos e importantes para o planeta, como a Amazônia, o cerrado, a mata atlântica, como tem protagonizado fatos de violência por uma luta que o presidente Lula colocou como prioritária em sua proposta anterior de governo e ainda não cumpriu: a distribuição e valorização, de fato, da agricultura familiar através da distribuição de terras.
Projetos de Alternativas Alimentares e Agricultura Orgânica, com objetivos de promover a alimentação saudável, através de uma dieta nutritiva e de baixo custo, com aproveitamento integral dos alimentos, ainda não chegaram aos quintais de comunidades que precisam de benefícios..
A riqueza nativa ou incentivada espontaneamente nos quintais e áreas públicas, privadas, reconhecida como biodiversa, existente ao longo de rodovias e interior de pequenas cidades, ainda não foi percebida como potencial para geração de emprego, renda e combate à fome, através da auto-sustentação. Caroços, folhas, talos, raízes e outras partes de frutas, legumes, hortaliças e tubérculos, de alto valor nutritivo, continuam indo parar no lixo, alimentando o desperdício e causando sérios problemas na falta de saneamento.
Governo e empresários reforçam seus focos na pauta de exportações, na balança comercial, no que o Brasil precisa exportar, em detrimento a uma atenção para as suas necessidades internas, de famílias que saem desses lugares sagrados e tranquilos, de solos ricos, com ar puro e água naturalmente tratada, para engrossar o desemprego nos grandes centros urbanos, onde vão comer hot dog de salsinha, tomar coca-cola e usar um sonrisal, como sobremesa..
Temos visto pequenos gestos vindos dos ricos e diversos quintais de famílias pobres, com idéias inovadoras, com mudanças de hábitos em relação ao uso e manuseio de frutas, legumes, hortaliças e um sem número de produtos alimentícios que ainda são desperdiçados, mal utilizados, jogados fora e até esquecidos pelos moradores. Esses projetos, no entanto, não tem se sustentado porque não contam com nenhum tipo de apoio além dos próprios membros da família. Poderíamos estar exportando muitos doces caseiros, com excedentes de frutas desses quintais, por exemplo, se as doceiras do interior pudessem ter contrapartidas para uma produção cidadã, sustentável, com garantias de mercado.
A saúde do povo brasileiro não vai bem e especialistas em nutrição enfatizam a necessidade de uma grande mudança na nova forma de se alimentar, de viver com qualidade, de potencializar as riquezas naturais. Programas que possam multiplicar iniciativas das doceiras, por exemplo, com os filhos, vizinhos e moradores de pequenas cidades poderiam dar rumo à construção de uma rota sustentável, um caminho livre para a cidadania, uma via carregada de coragem, uma estrada cheia de oportunidades e que, além de segurança oferecesse oportunidades para potencializar a riqueza de frutas dos quintais de forma racional, cuidadosa, integrada, como pressupõe os princípios do paradigma da sustentabilidade: usar, produzir, sem degradar, preservando, equilibrando e garantindo a sustentação para o outro, para as futuras gerações, combatente a fome com comida de qualidade, orgânica, natural, barata, sem agrotóxicos, que além de caros, são perversos à saúde e alimentam uma rede comercial cujo maior e único interesse é o lucro rápido.
* Liliana Peixinho é jornalista, correspondente na Bahia do Jornal Folha do Meio Ambiente, articulista de jornais e sites ambientais, coordenadora da AMA - Amigos do Meio Ambiente e da RAMA - Rede de Articulação e Mobilização Ambiental.