Ex-presidente chileno teria sido morto pela ditadura militar
Agência ANSA
Sexta-feira, 18/08/2006 - 15:22
Santiago - Um elemento químico ministrado por médicos a serviço da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990) causou a morte de ex-presidente Eduardo Frei Montalva (1964-1970) em janeiro de 1982, segundo o depoimento de um médico que o operou devido a uma doença menos grave.
"Minha opinião é que houve um agente químico externo, mas não posso determinar o que foi, quem o pôs, como o puseram", advertiu o cirurgião Augusto Larraín, que pôs fim a 24 anos de silêncio e testemunhou diante do juiz Alejandro Madrid, que investiga a morte de Montalva.
A revelação provocou comoção no Chile e a presidente, Michelle Bachelet, falou sobre o tema. "Acredito que é importante não apenas para a família Frei. É importante para o todo o Chile que se saiba a verdade e que os responsáveis respondam por isso", advertiu.
O médico que operou o Montalva de uma hérnia de hiato disse à rede de televisão da Universidade Católica que está convencido de que "houve mãos negras" na morte do ex-presidente que, no começo dos anos 80, se converteu em líder da oposição política a Pinochet.
Larraín operou o ex-presidente democrata-cristão para superar um problema de refluxos gástricos, mas a cirurgia teve complicações que lhe causaram a morte, depois de outras três operações na clínica particular onde estava internado.
Segundo o médico, a lesão que causou a morte de Montalva não é atribuível a uma bactéria, pois a complicação não ocorreu na área do hiato, e, sim, no intestino. "A lesão, que eu não vi e nem a vi depois, apenas poderia ser explicada por uma irritação química local", advertiu Larraín, que suspeita de que alguém possa ter aplicado em Montalva uma compressa com bactérias ou elementos químicos.
Álvaro Varela, advogado da familia Montalva, disse estar convencido de que, depois da morte do ex-presidente, ocorreu o assassinato do ex-químico da Direção de Inteligência Nacional (Dina) Eugenio Berríos.
Berríos desenvolveu o gás sarín e outros agentes tóxicos para a Dina. Trabalhou junto com o norte-americano e ex-agente da Dina Michael Tonwley, vinculado aos assassinatos do ex-comandante do Exército Carlos Prats e sua esposa, Sofía Cuthbert, e do ex-chanceler Orlando Letelier, realizados em Buenos Aires e Washington, respectivamente.
Berríos foi tirado do Chile em cumplicidade com militares uruguaios e depois apareceu morto em uma praia próxima a Montevidéu.