Havana - "Invencível" a 600 complôs registrados por Havana, uma dezena de administrações norte-americanas, a queda soviética e uma oposição que começou a incomodá-lo nos últimos anos, Fidel Castro, herói da esquerda mundial, chegará no domingo aos 80 anos de uma vida tão exposta no público como fechada no privado.
Convalescente desde o dia 31 de julho depois de uma complexa cirurgia intestinal que o obrigou a transferir o poder provisoriamente e pela primeira vez desde 1959 a seu irmão Raúl, o líder cubano completará suas oito décadas de vida em um cenário nunca imaginado, enfrentando uma das situações mais complexas e difíceis.
Fidel Castro, herói da esquerda mundial, chegará no domingo aos 80 anos de uma vida.
Nascido no dia 13 de agosto de 1926 na pequena aldeia de Birán, Fidel Alejandro Castro Ruz é filho do fazendeiro espanhol Angel Castro e Da camponesa cubana Lina Ruz.
A série de episódios que o fortaleceram ao longo de sua vida podem ser contados cronologicamente, exceto sobre o aspecto privado, onde se mistura realidade e fantasia, além do mito que o envolve.
Inimigo ideológico dos Estados Unidos, protagonista e testemunha da história latino-americana e mundial, Fidel dilui sua vida na do país que constrói trabalhosamente desde 1959.
Junto ao carisma admitido até por inimigos, Fidel tem uma oratória formidável e uma memória surpreendente, e outras características menos visíveis porém dedutíveis como a timidez, um certo pudor e um extinto de interesse, conseqüência de sua origem cubana, pela música e pela dança.
"Ele gosta de precisão, exatidão, pontualidade", é "quase tímido, bem educado e muito cavalheiro" e "passa a impressão de ser um homem só. Sem amigos íntimos nem sócios intelectuais a sua altura" com "hábitos de monge-soldado", descreveu o espanhol Ignacio Ramonet em seu recente livro "Cem horas com Fidel", cativado pela personalidade de Fidel, que raramente deixa alguém indiferente.
O homem "dotado de uma altura impressionante, de uma indiscutível capacidade de lidar com as pessoas e também de um poderoso encanto pessoal", para Ramonet, é também o "tirano", "obcecado pelo poder", "ditador cruel", "intolerante" que não aceita ser contrariado, e muitas outras coisas, para os que o condenam dentro e fora de Cuba.
Sempre barbado e vestido com seu clássico uniforme militar, o Comandante permanece alheio aos ditados da moda, identificada pelo consumismo do detestável sistema capitalista promove.
Fidel se casou em 1948, antes de tornar-se advogado, com Marta Díaz Balart, com quem teve seu primeiro filho, Fidel Castro Díaz Balart -"Fidelito"-, um físico formado na Rússia muito parecido com seu pai e que aparece em algumas recepções oficiais e atos.
O casal se divorciou alguns anos depois. Dessa separação restou uma inimizade com os Díaz Balart que fizeram carreira política em Miami por causa do ódio que tinham de Fidel.
Uma mulher loira e de baixa estatura, Dalia Soto del Valle, é sua companheira há décadas e mãe de seus outros cinco filhos homens, todos com nomes que começam com a letra A": Alexis, Alexander, Alejandro, Antonio e Angel, que quase não aparecem, com exceção de Antonio, cirurgião ortopédico e médico da equipe nacional de beisebol, uma das paixões de Fidel, que foi excelente esportista em sua juventude.
O presidente também teve uma filha, chamada Alina Fernández, considerada sua "filha rebelde", que nasceu em 1956 e em 1993 saiu em direção a Miami para não voltar mais, enquanto sua mãe, Natalia Revuelta, optou por ficar em Cuba, implicitamente fiel ao Comandante.
Culto, leitor e interessado em estar sempre atualizado sobre tudo o que acontece no mundo, Fidel reconhece que tem apenas um "ídolo": José Martí, o "apóstolo" e herói nacional de Cuba, cuja vida apresenta semelhanças com a sua.
"Trago no coração as doutrinas do Mestre e no pensamento as nobres idéias de todos os homens que defenderam a liberdade dos povos", disse o Comandante referindo-se a Martí em seu famoso discurso "A história me absolverá", durante seu julgamento em 1953 depois do frustrado ataque ao quartel Moncada, que se transformou em vitória política.
Para explicar suas motivações, Fidel citou Martí e suas reflexões apontadas no livro "A idade de Ouro", que em 1889 o patriota escreveu para as crianças latino-americanas.
"Quando há muitos homens sem decoro, há sempre outros que têm em si o decoro de muitos homens. Esses são os que se rebelam com uma força terrível contra os que roubam a liberdade do povo, o que é roubar aos homens seu decoro. Nesses homens vão milhares de homens, vai um povo inteiro, vai a dignidade humana", escreveu Martí e que leu Fidel, por então com 26 anos.
Mais de meio século depois, a sentença cristalina e diáfana de José Martí o condena ou o absolve, dependendo de quem o julgar.