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:: Opinião ::
Eleição
Calma, prefeito.
  • Por Wellington da Fonseca Ribeiro *
  • Quarta-feira, 15/03/2006 - 18:34

    Take it easy, João 12, John.

    Inflado por uma fantástica votação no segundo turno da eleição municipal de 2004, na qual derrotou o senador César Borges, eleito em 2002 para a Câmara Alta com mais de dois milhões e setecentos mil votos, por força de uma ampla composição de 15 partidos, o primeiro prefeito pedetista de Salvador, 457 anos, capital do desemprego e com a população celeremente subindo para três milhões de habitantes, está sendo estimulado por aves de vários ninhos a renunciar ao mandato conquistado com boa dosagem de sorte. E votos.

    Foto: Silfredo Freitas
    Wellington da Fonseca Ribeiro é jornalista, professor e bacharel em Direito.
    João Henrique foi para o segundo turno com César Augusto Borges, ultrapasssando Nelson Pelegrino, do PT, por uma miúda, pequena, margem de votos.

    O fenômeno eleitoral que beneficiou o prefeito não foi fruto só, somente, de seu prestígio individual, isolado, pessoal, embora ele obteve na eleição para deputado estadual, em 2002, quase 190 mil votos, o mais votado para a AL. O fenômeno foi uma confluência eleitoral proporcionada por 15 agremiações num second time com dois candidatos.

    O mentor natural do grupo do prefeito, ex-governador João Durval, atualmente postulando um dos cargos -- de governador, vice-governador ou senador --, experiente político pela sua vivência das manhas e traições do jogo eleitoral, há algum tempo passado -- o tempo na atividade política é especialíssimo -- admoestou o jovem prefeito de dois fatos marcantes, ambos, contudo, envolvendo renúncia de cargo executivo.

    Primeiro, a renúncia do governador Waldir Pires, em 1989, depois de vencer o candidato do PFL, em 1986, professor Josaphat Marinho, com uma diferença de um milhão e meio de votos, para ser o aspirante a Vice-Presidência da República na chapa do superdeputado Ulisses Guimarães, comandante do velho Movimento Democrático Brasileiro (MDB), antigo MDB de guerra com os seus autênticos, moderados e adesistas do tipo Ney Ferreira e Clemens Vaz Sampaio.

    Até hoje Waldir Pires é rigorosamente criticado por essa renúncia. Muitos não perdoam o hoje ministro Francisco Waldir Pires -- mesmo, mesmo mesmo -- este dizendo, redizendo, explicando, que cometeu um erro de avaliação política. Errar é humano, claro. Mesmo que seja um erro contábil, científico, técnico ou político.

    João Henrique aprendeu a ser prefeito com João Durval Carneiro, seu pai, na esperta, quente e gostosíssima Feira de Santana, a nossa "Princesa do Sertão", maior entroncamento rodoviário do Nordeste.

    Mesmo provido de considerável experiência política, João Durval também renunciou uma vez a um dos seus mandatos de prefeito do segundo colégio eleitoral da Bahia e não se deu bem. A população e o eleitorado não gostou, porém, com o passar do tempo, "senhor da razão", JD conseguiu reverter, em boa parte, o ato renunciatório. Durval foi prefeito de Feira algumas vezes.

    A Arena antiga é filha da UDN - União Democrática Nacional, partido tradicionalmente do campo conservador, a agremiação que mais labutou para a eclosão do golpe militar de 64, tendo, em seus quadros, políticos como o mineiro Magalhães Pinto, ex-governador, o cearense Juracy Magalhães, ex-governador da Bahia, e o talentoso porém reacionário jornalista Carlos Lacerda, que um dia na sua juventude freqüentou o esquerdismo, passando, depois, para o lado oposto. Um típico viracasaca ideológico e, por isso, só por isso, um sujeito venenoso, cavernoso, bifacial, tirano, insuflador.

    Em política clássica, tradicional, básica, quem muda, por exemplo, da direita para a esquerda ou vice-versa, sempre terá desses pólos opostos, adversários antagônicos, certo grau de desconfiança.

    Como se um torcedor do Corínthians passasse a ser palmeirense. Como se um torcedor do Bahia mudasse para ser Vitória. Há, todavia, casos and cases. A regra, por sua natureza, admite exceção. Existem casos, que não são raros, de evolução política.

    O presidente Lula da Silva fica no cargo -- perdendo ou ganhando o próximo pleito de primeiro de outubro -- até o final deste ano e o Governo de Salvador depende muito das verbas federais para a conclusão da primeira etapa do Metrô de Salvador João Paulo II -- como quer parcela ampla e considerável dos baianos da capital e do interior, conforme enquete realizada pelo Jornal da Mídia (clique aqui para ver a enquete) -- e ainda obras de saneamento básico, educação, saúde, meio ambiente e muitas outras.

    Essa operação "esvazia João" é papo furado. Mesmo que o prefeito estivesse fazendo uma administração perfeitíssima, ainda assim ele seria criticado e, muitas vezes, até difamado, injuriado, caluniado, porquanto, isso faz parte do fazer oposição.

    José Ronaldo, prefeito reeleito da terra dos Carneiro, é aspirante em 2010 ao cargo de governador, senador ou deputado federal e ele já afirmou isso. Ronaldo é o melhor nome do PFL para o Senado pois, além de comandar Feira de Santana é presidente da União dos Prefeitos da Bahia, cargo que lhe dá sustentáculo, estrutura, para uma candidatura majoritária agora ou em 2010. O melhor caminho para João Henrique é tentar a reeleição em 2008, e, depois, em 2010, partir para o Governo do Estado. JH é um político novo e pode esperar.

    Além do mais, o ex-prefeito Antonio Imbassahy, eleito ou não para qualquer cargo na próxima eleição de outubro de 2006, é um forte concorrente, adversário, em potencial de João Henrique para a Prefeitura daqui a dois anos, ou seja, em 2008. E, em 2010, também, para governador e aí, também, entra o atual prefeito feirense José Ronaldo, baiano de Paripiranga, conhecido por ser um político focado, embasado, com os pés no chão. Nada de andar "meio desligado, já não sinto meus pés no chão", como canta Rita Lee, bruxa e primeira musa roqueira do país.

    João Henrique, Antonio Imbassahy e José Ronaldo são potencialmente adversários na alta política baiana por razões óbvias, claras.

    Quando um governante não tem defeito em qualquer campo da realidade a oposição cria. Faz parte da dança. É do jogo. Calma e chá de erva cidreira não faz mal a ninguém.

    A serenata tucana para João deixar a Prefeitura vai continuar. Definitivamente, numa coletiva -- se ele quiser -- o atual Prefeito de Salvador deve dizer não a qualquer postulação majoritária nas próximas eleições.

    Trocar o certo pelo duvidoso nunca foi "divino e maravilhoso", no cantar do mano Caetano. É, sim, arriscado, perigoso!

    Será que a alta assessoria do governante da cidade de Thomé de Souza permitirá, colaborará, para que ele renuncie ao cargo no período aniversariante de Salvador, um acidente maravilhosamente azul refletido na imensa e belíssima Baía de Todos os Santos, prantos e encantos?

    Embora pressionado, contudo, com os pés no chão, honrando seu compromisso de não se afastar da Prefeitura de São Paulo, uma das maiores cidades do mundo, José Serra, ex-presidente da UNE, não renunciou.

    Agradecimento

    Para: Angelo Almeida, presidente da Executiva do PDT de Feira de Santana, nosso partido.

    Caro Angelo,

    Agradeço, ex-córde, suas palavras de incentivo e consideração sobre nosso artigo sob o título "Souto, Durval, Wagner e Imbassahy - a sucessão baiana está no ar". Caso reveja o aludido escrito, você constatará que ele, publicado em 30.12.2005, condiz com a realidade dos últimos fatos da sucessão baiana. Trabalhismo e nacionalismo em direção ao socialismo.

    * Wellington da Fonseca Ribeiro é jornalista, professor, poeta (Salve Castro Alves, poeta dos negros escravos) e bacharel em Direito pela USCal em 1987. Serventuário da Justiça da Capital concursado sub-judice. É Campoalegrense-Remansense (BA).

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