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:: Opinião ::
Artigo
Médico analisa a personalidade do fumante
  • Clovis Botelho (*)
  • Segunda-feira, 13/03/2006 - 10:18

    Muitos fumantes apresentam dificuldades de deixar de fumar e, quando conseguem, é com grande sofrimento pessoal, com inúmeras recaídas. A intensidade dos sinais e sintomas da síndrome de abstinência é variável e depende, principalmente, do grau de dependência do indivíduo, o que, por sua vez, poderá estar relacionado com o seu perfil psicológico.

    Por isso é importante atentar para o papel das diferenças individuais no processo de aquisição e manutenção da dependência tabágica.

    Clovis Botelho é autor dos livros "A dinâmica psicológica do tabagismo" e "Você também pode parar de fumar"
    É de se supor que características de temperamento ou de personalidade, como o nível de ansiedade, depressão, auto-estima, entre outros, predisponham o indivíduo a um determinado padrão de consumo de tabaco. Por outro lado, é possível que traços do perfil psicológico do fumante acentuem o desconforto experimentado por ocasião da síndrome de abstinência, dificultando o sucesso em tratamentos para deixar de fumar e contribuindo, portanto, para a manutenção do consumo.

    Dados sobre a correlação entre perfil psicológico e consumo de tabaco podem subsidiar o trabalho de profissionais na área de saúde, na elaboração e aperfeiçoamento dos programas de prevenção do tabagismo e tratamento da dependência. O conhecimento sobre esses fatores psicológicos específicos que aumentam a vulnerabilidade à iniciação do consumo pode, também, contribuir para o delineamento de estratégias preventivas do tabagismo em crianças e adolescentes, com maior eficácia.

    Sabe-se que, de modo geral, fumantes tendem a ser mais extrovertidos, impulsivos e com mais traços de neuroticismo, características anti-sociais, e histórico de desordens depressivas, em relação à ex-fumantes e não fumantes. A literatura sobre personalidade e tabagismo sugere correlação entre consumo de tabaco e desordens neuróticas cresceu fortemente durante as décadas recentes, em países onde a prevalência do tabagismo tem diminuído. Uma das explicações para isso é a de que indivíduos mais "neuróticos" parecem menos inclinados a parar de fumar, mesmo em face à recente pressão social para fazê-lo e, possivelmente, sentem os efeitos da nicotina mais reforçadores, em relação a indivíduos mais estáveis emocionalmente.

    Assim, tem-se a hipótese que muitos indivíduos utilizam o tabagismo para poder relacionar-se melhor com o mundo que o cerca. É de supor que essa característica de personalidade interfira, ou esteja associada de alguma forma, ao grau de dificuldade que alguns fumantes têm durante o tratamento da dependência. Possivelmente, estes pacientes seriam mais beneficiados se na sua terapêutica acrescentasse o tratamento específico para distúrbios de ordem afetiva: psicofarmacológico / psicoterápico.

    Alguns resultados sugerem a hipótese que fumantes tendem ser descuidados consigo próprios e com a sua saúde; possivelmente, a manutenção do tabagismo seja um dos reflexos dessa característica de personalidade. Assim, o colega ao iniciar o tratamento da dependência deve compreender e utilizar abordagem diferenciada para esses pacientes, do que a costumeira visão das prováveis doenças que o fumo acarreta. Supõe-se que terapias baseadas na estimulação da auto-estima e conscientização sobre a importância do cuidado pessoal poderiam beneficiar pessoas com esse perfil durante o processo de tratamento.

    Concluindo, deve-se ter em mente que existem diferentes perfis de personalidade do indivíduo fumante, e que isto deve ser valorizado no momento que o paciente manifeste a vontade de parar de fumar. Ao incorporar esses novos conhecimentos ao arsenal terapêutico do tratamento da dependência tabágica, obter-se-á maior percentual de sucesso. Caso isto não ocorra, continuarão existindo as altas taxas de recaídas, confirmando o fracasso dos

    Clovis Botelho - Professor Titular da Faculdade de Ciências Médicas e do Curso de Mestrado em Saúde Coletiva, da Universidade Federal de Mato Grosso. Doutor em Medicina - Pneumologia - pela Escola Paulista de Medicina / UNIFESP, em 1991.

    Autor dos livros "Você também pode parar de fumar" (Editora Adeptus) e "A dinâmica psicológica do tabagismo" (Editora Entrelinhas) e de vários artigos sobre o tema publicados em revistas especializadas.

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