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Transposição
Governo joga sujo contra o São Francisco, diz Iman.
Quarta-feira, 12/10/2005 - 18:22

Salvador - Enquanto o governo federal insiste no projeto de transposição do rio São Francisco, a comunidade científica, especialistas e ambientalistas o consideram uma decisão equivocada com sérios riscos éticos, econômicos e ambientais. O projeto do governo e as suas consequências foram o tema da edição deste mês do jornal do Instituto Manoel Novaes (IMAN), uma ONG voltada para a defesa do São Francisco e o desenvolvimento sustentável da bacia do rio.

Com o título "Governo joga sujo contra o São Francisco", o IMAN mostra as contradições do projeto de transposição e acusa o governo federal de esconder informações importantes para a população.

Leia a íntegra da matéria:

Enquanto o governo insiste em fazer a transposição, a situação do rio é extremamente preocupante.
O Velho Chico é um gigante. Suas águas percorrem 2.700 quilômetros, desde a Serra da Canastra, na cidade mineira de São Roque de Minas, onde nasce, até a sua foz, entre Sergipe e Alagoas. Com 640 mil quilômetros quadrados e composta por 80 rios perenes e 27 intermitentes, sua bacia abrange 504 municípios em sete estados e mais o Distrito Federal.

Descoberto em 1501, o rio da integração nacional, um dos maiores patrimônios ambientais do Brasil, foi mutilado ao longo de mais de 500 anos de exploração por hidrelétricas, pelo lançamento de todo tipo de rejeitos domésticos e industriais, pelo desmatamento e pelo assombroso assoreamento.

Apesar da fadiga e da necessidade urgente de socorro – leia-se revitalização – o governo federal o ameaça com o “tiro de misericórdia”: o megalomaníaco projeto de transposição do Rio São Francisco, já batizado de “Transamazônica de Lula”.

A comunidade científica, ambientalistas, especialistas em recursos hídricos e populações ribeirinhas são unânimes: a transposição das águas do Velho Chico para o Nordeste Setentrional representa uma decisão equivocada, insustentável em termos políticos e técnicos, com riscos econômicos, éticos e ambientais.

Alto preço - João Abner Guimarães Júnior, professor doutor em recursos hídricos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – um dos estados que seriam beneficiados pelo projeto – faz um alerta: o semi-árido nordestino vai pagar um alto preço se a obra for concretizada. “Durante muitos anos, a obra vai consumir boa parte dos recursos hídricos que viriam para a região e paralisar a ação do estado, reproduzindo dessa forma, em maior escala, a nefasta indústria das secas no Nordeste”, afirma. E sentencia: “Na realidade, o projeto, caso seja implantado, deverá ‘chover no molhado’: levará a água do São Francisco para os principais açudes da região”.

A obra orçada em R$ 4,5 bilhões consiste no desvio das águas do São Francisco por 720 quilômetros de canais de concreto abertos na caatinga. A captação do eixo norte está previsto para ser feito em Cabrobó (PE), abastecendo os rios Jaguaribe (CE), Piranhas-Açu (PB/RN), Apodi (RN) e Brígida (PE). O eixo leste interligará o São Francisco com os rios Paraíba (PB) e Moxotó (PE), com um bombeamento diretamente do reservatório de Itaparica (PE). O projeto destina-se, principalmente, à irrigação – 70% do consumo do projeto serão gerados nos pólos tradicionais de irrigação da região. Apenas 4% das águas teriam fins para o abastecimento difuso que está associado diretamente com o quadro mais grave das secas. “No Rio Grande do Norte, por exemplo, a irrigação consumiria 92% da água destinada ao Estado”, informa o professor.

Manutenção cara - Ele chama atenção para outro aspecto do projeto pouco evidenciado pela propaganda oficial: o alto custo de manutenção do sistema, por envolver um bombeamento em condições bastante desfavoráveis, grandes vazões, desníveis e distâncias. Além do mais, as grandes perdas por evaporação e infiltração irão onerar bastante o custo da água. A operação do sistema será privatizada, envolvendo, inclusive, a água atualmente disponível.

O consumo humano, principalmente das grandes cidades, deverá subsidiar a água dos pólos tradicionais de irrigação, contribuindo com 80% das receitas, tendo em vista que o custo da água, entre R$ 0,04 e R$ 0,07 por m³ é muito elevado para fins de irrigação. “O custo das obras, incluindo o toma lá da cá atual para compensar os estados doadores, só tem crescido nos últimos anos, aproximando-se dos R$ 20 bilhões”, informa.

Riacho inexpressivo - Manoel Bonfim Ribeiro, ex-consultor da Secretaria de Recursos Hídricos do Ministério de Meio Ambiente, conta que existiam até o ano passado 23 grandes obras hídricas paralisadas no semi-árido nordestino. Este ano mais quatro empreendimentos foram abandonados pelo Governo nas ribeiras do São Francisco, equipamentos expostos ao tempo e à sanha de malfeitores. “Seriam mais de 200 mil hectares irrigados produzindo alimentos e que iriam gerar mais de um milhão de empregos, parte das metas do presidente Lula”, conta Ribeiro.

Ele salientou ainda que a água só chegará integralmente às comunidades nordestinas quando o sistema de distribuição for espacial. O projeto da transposição é linear, ou seja, irá formar estirões fluviais, perenizando riachos intermitentes de uma pequenina faixa do semi-árido nordestino – 1.000 km de extensão com 5 km de faixa desapropriada, ou seja, 5.000 km2 representando apenas 0,5% da superfície total do polígono das secas. “E os 99,5% do polígono não serão beneficiados pela transposição. Que absurdo!”, diz. “Um riacho inexpressivo para tanto dinheiro gasto. O problema do Nordeste Setentrional poderia ser resolvido através de três sub-sistemas: adutoras, cisternas e poços tubulares”.

• www.iman.org.br

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