O poderoso general conservador Juracy Magalhães, ex-governador da Bahia, um dos maiores próceres nordestinos entre 1950 e 1975, da União Democrática Nacional (UDN) - partido que depois do golpe passou a se chamar Arena, depois PDS e hoje é o realíssimo PFL - perdeu a indicação do seu nome como candidato à Presidência da República, para o histriônico Jânio Quadros, na convenção nacional desse partido.
Carlos Lacerda, nessa convenção, ficou do lado de Quadros, contra Juracy Magalhães, das bandas do Ceará, radicado em Salvador-Bahia. Jânio Quadros, em 1960, disputa a eleição presidencial contra o general Henrique Teixeira Lott, oficial nacionalista, brasileiro respeitado, patriota de primeira linha, por isso benquisto tanto por militares como, também, por civis, embora tenha levado como candidato do PSD-PTB, grande desvantagem na pugna eleitoral contra Jânio Quadros, demagogo competente, teatral, criativo, político de carreira, tendo passado por, praticamente, todos os mandatos, do Legislativo e do Executivo.
Wellington Ribeiro se define como "getulista, janguista, brizolista, joãopaulista (o papa), cheguevarista e socialista natural".
Lott não teve a mesma sorte de Eurico Gaspar Dutra, fraterno de farda ou hermano de caserna, ambos oficiais superiores da Armada Verde Oliva. Não eram políticos de carreira. Jânio Quadros tinha passado - que o diga a escritora Adelaide Carraro, uma das suas amantes - pelo governo de São Paulo, estado mais rico, importante, indiscutível, sob o prisma da nossa realidade.
Todavia, o vice-presidente João Goulart, companheiro de chapa de Lott, ganhou disparadametne para os candidatos a este cargo nas chapas de Jânio Quadros e Ademar de Barros - Ademar, que ficou conhecido como "rouba mas faz", slogan muito bem colocado em prática por boa parte dos políticos deste País, com destaque especial para os políticos nordestinos, com ou sem mandato, todos, como é sabido à farta, sob os comandos dos últimos (ufa!) coronéis desta região castigada, sofrida, analfabeta, faminta, doente, onde a indústria da seca funciona como uma das minas de ouro para o enriquecimento descomunal desses senhores, caciques que vivem da ignorância da população nordestina.
Getúlio, por suas qualidades, virtudes e defeitos, é o maior estadista brasileiro. É indiscutível. Juscelino, depois de Getúlio, eleito por dois partidos construídos e influenciados por Getúlio, é , deveras, sem gemido, o presidente que deu prosseguimento a praticamente tudo o que Getúlio fez, produziu, implantou, colocando a nação brasileira num patamar social, econômico e industrial desenvolvido para as condições da época.
O jornalista gaúcho-baiano Moacyr Nery considera-o o único estadista deste Brasil quinhentão, vindo, sem seguida, o bom mineiro de Diamantina, Juscelino - "pé-de-valsa" - na qualidade de melhor presidente, até os dias atuais, desta ex-República dos Estados Unidos do Brasil, no dizer dos documentos oficiais e históricos antigos.
Historiadores oficiais, geralmente a maioria, estão atreladíssimos aos poderes públicos e aos políticos. Eles temem ensinar nas escolas de primeiro, segundo e terceiro graus - fundamental, médio e universitário - a força positiva do trabalhismo fundado por Getúlio, depois engendrado por Jango e, em seguida, pelo último grande herdeiro da corrente política varguista, que é o ex-governador dos Rios - Grande do Sul e de Janeiro - Leonel de Moura Brizola, sempre eleito pela vontade eleitoral popular, manifestada nas urnas (coisa da democracia), para cargos legislativos e executivos. Ou seja: nunca obteve mandato biônico, indireto, nomeado, como a maioria dos seus ferrenhos adversários.
Sua vida foi exaustivamente apurada, medida, pesquisada, revirada no período mais duro e cruel da ditadura e, os perquiridores, investigadores, não encontraram nada que maculasse o seu prestígio de homem público honesto, oriundo de família humilde, porém brava e respeitada.
João Goulart morreu no exílio no Uruguai, cuidando de suas propriedades. Homem rico, nasceu em berço de ouro. Escolheu a política não para ganhar dinheiro. Dinheiro ele tinha até demais. Possuidor de vastas áreas territoriais - fazendas, estâncias e gado - era um homem que cultuava, gostava, amava a vida pública. Homem público por excelência. Seu grande mestre foi mesmo Getúlio, na Fazenda Santos Reis, no Rio Grande do Sul, onde Jango se reunia com ele. Getúlio é acusado de ter entregado Olga Benário à Gestapo alemã durante a Segunda Guerra Mundial. Olga era alemã, dizem. Afirmam que ela morreu num campo de concentração germânico, nazista.
Os adversários de Getúlio dizem que a entrega de Olga à polícia alemã foi um crime cometido pelo velho Vargas. Contudo, o próprio Luís Carlos Prestes, o maior comunista deste País, marido de Olga, perdoou o prócer do trabalhismo, que é, no Brasil, a primeira vereda, a free way para o almejado socialismo reciclado, condizente com todos os avanços tecnológicos e científicos deste nosso gostosíssimo mundo moderno em que vivemos.
João Goulart foi derrubado exatamente porque queria implantar as reformas de base de que o Brasil necessitava. Isso contrariava os interesses e as vontades das elites interna e externa. Jango poderia, se quizesse, ter resistido ao golpe. Ele, no entanto, evitou derramamento de sangue. Não era covarde, sanguinário ou assassino, era um homem de coração bom, amigo dos trabalhadores. Foi isso que Getúlio ensinou a ele.
Depois de Jango houve o dilúvio ditatorial. Essa história, milhões de vezes repetida, é para ser gravada na mente e no coração de todos os brasileiros.
Leonel de Moura Brizola, parceiro, cunhado e amigo do presidente Goulart, não chegou à Presidência, em 1989, por causa do fenômeno PT. Sabemos que se fosse Brizola o candidato dos progressistas para disputar a eleição com o elegante playboy da ditadura, Fernando Collor, o resultado seria outro. Gaúcho de raça, homem valente, destemido, certa vez deu uns tapas num jornalista chamado David Nasser, que vivia infernizando a vida do governo de Jango. A galera trabalhista da época gostaria que os "catiripapos" fossem dados em Carlos Lacerda.
Lacerda, mais tarde, se arrependeu de ter apoiado o golpe. Tanto assim que, no exílio, se uniu a João Goulart e a Juscelino numa frente pela redemocratização do Brasil. Esses fatos, somados aos atuais, constituem a fotografia realmente real do Brasil. A esperança não morre, porquanto, ela se alimenta da dinâmica, da velocidade, do fazer. Tudo pode mudar.
As ditaduras não permitem que a corrupção - corruptores e corrompidos -, na grande maioria dos casos, seja explicitada, apurada, publicada, vez que o sistema autoritário não permite a Imprensa, o Congresso e o Judiciário livres.
Por isso, universalmente, a democracia é, de todos os regimes e sistemas políticos, o menos pior.
Alimentemos a democracia, realisticamente, no Ocidente e no Oriente, a melhor e a mais qualificada forma de governo. Democracia sempre. Ditadura nunca. Jamais!
* Wellington da Fonseca Ribeiro é jornalista, professor e bacharel em Direito. Idealizador e fundador da Ala Jovem do MDB baiano (em 1972) e do Movimento Brasil Brizola (MBB em 1989). É Campoalegrense-Ba.