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:: Opinião ::
Trabalhismo
Getúlio, Jango e Brizola - 1
  • Por Wellington da Fonseca Ribeiro *
  • Segunda-feira, 08/08/2005 - 23:56

    O artigo "Pare, Pense e Reflita", do consultor político Chico Bruno, publicado na versátil coluna "Com a Palavra...", página 2, da Tribuna da Bahia do último dia de agosto de 1999, leva-nos a funda imersão recompositiva do triângulo trabalhista composto por Getúlio Vargas, João (Jango) Goulart e o seu cunhado e parceiro político Leonel Brizola e, do outro lado, o jornalista e político do campo conservador, reacionário, Carlos Lacerda, esquerdista na juventude, porém, anos depois, aliado - vibrante e talentoso do golpe de 64, para o qual contribuiu os ex-governadores Ademar de Barros, de São Paulo, e Magalhães Pinto, de Minas Gerais, sintonizados com as forças políticas que derrubaram o presidente João Goulart, herdeiro político - chamavam-no às vezes até de filho - do presidente Getúlio Vargas.

    Descrição da Foto
    Wellington Ribeiro se define como "getulista, janguista, brizolista, joãopaulista (o papa), cheguevarista e socialista natural".
    A era Getúlio continua sendo fundamental para entendermos os dias políticos da atualidade brasileira. A elite dirigente sofisticou-se, contudo, não mudou. Observemos os nomes e sobrenomes dos mandachuvas dos poderes constitucionalmente estabelecídos. A classe média hoje sofre muito com as mudanças dos valores sócio-existenciais, culturais, e, no ângulo econômico, cai em processo de reto empobrecimento.

    As classes populares - fora alguns setores razoavelmente organizados, mobilizados - continuam manipuladas como antes, na era Vargas, sendo que, hoje, a manipulação é mais bem feita, produzida, contando com o que há de melhor a nível tecnológico. A mídia eletrônica - emissoras de rádio e televisão - responde em boa parte por isso. Getúlio Vargas é, pelo que fez e produziu, o maior estadista brasileiro. Morreu aos 71 anos de idade, em 24 de agosto de 1954, no Palácio do Catete, com um tiro no peito. A versão oficial aponta para suicídio.

    Getúlio governou o país em dois períodos. De 1930 a 1945 e de 1951 a 1954. Foi deputado estadual e federal. Ministro da Fazenda do Governo Washington Luís durante dois anos.

    Deixa o governo em 1928, vencendo as eleições para governador do Rio Grande do Sul. Do governo gaúcho Vargas parte para a presidência. O candidato de Washington Luís à sua sucessão, Júlio Prestes, quebrando a tradiconal dobradinha São Paulo-Minas (café com leite) desgostou as lideranças dos dois estados. Surgiu, então, o nome de Getúlio Vargas como candidato oposicionista da Aliança Liberal.

    Para os partidários de Getúlio, a eleição não foi limpa. Os aliancistas não se conformaram com a vitória a "bico de pena", sistema primitivo, artesanal, de aferição ou apuração de voto, obtido pelo situacionista Júlio Prestes.

    Junta-se ao inconformismo com o resultado da eleição presidencial, o assassinato de João Pessoa, em Recife. Pessoa era o companheiro de chapa de Vargas no cargo de vice-presidente. O crime detonou revolta e o pau quebrou. Irrompeu o movimento revolucionário em 3 de outubro de 1930.

    Governantes do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba apoiavam o movimento, revolta que se estendeu aos demais estados e se alargou na própria capital da República, onde as forças armadas derrubaram, depuseram, o presidente Washington Luís a 24 de outubro de 1930.

    Poucos dias depois, Vargas recebeu o Governo da Junta Governativa composta por três oficiais generais. Forma-se o Governo Provisório. Era um período em que revoltas, revoluções, golpes, ditaduras, medravam com facilidade não só no Brasil e na América Latina, mas, também, em boa parte do mundo.

    Getúlio no seu primeiro governo empreende uma política nacionalista. Modernizou a economia do país. Criou o Ministério do Trabalho. A política getulista em direção aos direitos sociais e trabalhistas do operariado brasileiro desgostou profundamente a elite da época, anteriormente beneficiada com o trabalho escravo. Cobrando eleições depois de quase dois anos de Governo Provisório, emerge a Revolução Constitucionalista de São Paulo, em 1932. Em setembro desse ano a revolução foi sufocada.

    Foram realizadas eleições. Em novembro de 1933, tomavam posse os deputados eleitos à Assembléia Constituinte. Em 1934, foi promulgada a Constituição e Getúlio Vargas é eleito presidente da República pelo Congresso.

    Em 1935, houve o levante comunista criado e orientado por revolucionários amadores. Eclodiu simultaneamente no Rio de Janeiro e em Natal, capital do Rio Grande do Norte. Foi sufocado.

    A partir da intentona comunista, que deixou feridas profundas, inicia-se o que podemos chamar de submersa rivalidade entre comunistas, esquerdistas e os autênticos trabalhistas oriundos do velho PTB - Partido Trabalhista Brasileiro - bem como o PSD - Partido Social Democrático -, de Juscelino, Tancredo Neves, Antonio Balbino, Waldir Pires, etc. Ambas são agremiações partidárias criadas e influenciadas por Getúlio, ferrenhas adversárias da ultraconservadora e direitista União Democrática Nacional - UDN -, um celeiro de serpentes venenosas do tipo Carlos Lacerda, ex-governador da Guanabara, homem de notável inteligência oral e escrita a serviço das causas dos conservadores.

    Getúlio Vargas, imagem risonha, sutil de espírito, era um governanate com uma boa dose de humanismo - tornando-o diferente dos tradicionais caudilhos da América Espanhola.

    Até hoje permanece no imaginário popular, principalmente dos trabalhistas, as marcas do velho Gegê: face risonha, imagem patriarcal de pai dos pobres e, por último, a imagem trágica da sua carta-testamento: "Nada mais vos posso dar a não ser o meu sangue".

    Em 1937, Getúlio instala o Estado Novo. Utiliza repressão política. Seus adversários, a elite dos engenhos de cana, ex-senhores de escravos, os poderosos da época, não aceitam o governo modernizante e pré-trabalhista de Getúlio. Evidentemente que o baixinho de São Borja (RS) foi influenciado pelos líderes mundiais do seu período como Adolf Hitler, Mussolini, dentre outros.

    O fato limpo, claro, incontestável, é que Getúlio foi o primeiro presidente que defendeu, fez, elaborou, um estatuto - evoluído e moderno para a época - regulando, normatizando, os direitos sociais e trabalhistas em favor dos operários brasileiros.

    Comunista, socialista ou esquerdista que quiser passar o rodo nisso, negar isso, bate a cara no muro.

    Se existe, existirá ou não o caminho para o socialismo (?) no Brasil, essa via, rua, praça ou avenida, tem que passar pelo que restou de melhor do trabalhismo getulista.

    * Wellington da Fonseca Ribeiro é jornalista, professor e bacharel em Direito. Idealizador e fundador da Ala Jovem do MDB baiano (em 1972) e do Movimento Brasil Brizola (MBB em 1989). É Campoalegrense-Ba.

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