O engenheiro e político Leonel de Moura Brizola é o maior getulista do Brasil. “Piripicado” como diziam os soteropolitanos em décadas roladas. Na época em que os bondes abriam o caminho para os não tão modernos metrôs, embora, para os habitantes desta cidade, atualmente a terceira capital brasileira, o futuro Metrô João Paulo II, “João de Deus” para os brasileiros, seja, por direito básico, diante da realidade urbana de Salvador, 456 anos, primeira capital, o sonho necessário da população e do turismo, atividade que movimenta a economia, a cultura, gera alegria e reduz o cavernoso desemprego que é o maior inimigo da paz social, portanto, da sociedade.
O jornalista Wellington da Fonseca Ribeiro é um dos fundadores do Movimento Brasil Brizola
O doutor Brizola é ícone do movimento trabalhista brasileiro. Um dos mais carismáticos políticos do século passado e início deste, o gaúcho Leonel Brizola morreu em 21 de junho do ano passado, dia do profissional de mídia, área na qual ele brilhava, envolvia, alastrando e expandindo seu carisma forte de político destemido, valente na defesa de princípios ideológicos e políticos norteadores do trabalhismo, mais tarde por ele chamado de “Socialismo Moreno” por ser o morenismo a média dos cruzamentos entre brancos, índios e negros. Para uns, morenos, para outros mestiços ou misturados.
Deputado estadual aos 22 anos. Três vezes governador – uma do Rio Grande do Sul 1959-1962 e duas do Rio de Janeiro 1983-1986 e 1991-1994. Foi também deputado federal pelo Rio, eleito com altíssima votação.
Tornou-se nacionalmente conhecido e respeitado quando, em 1961, liderou a reação aos militares, conservadores e golpistas, muitos destes oriundos do período que antecedeu e derrubou Getúlio Vargas do poder e da vida. Eles não queriam empossar o vice-presidente João Goulart (Jango), substituto do presidente Jânio Quadros, histriônico, mulherengo, mui louco de pinga, populista vitorioso, demagogo de marca maior.
Jango empossado, Leonel Brizola ganha fama de homem valente, destemido, do tipo que topa paradas e não fica só no verbo. João Goulart e Leonel Brizola foram os maiores getulistas deste país, o primeiro cunhado do segundo, ambos, todavia, da melhor escola varguista.
É ponto calmo e pacífico: Getúlio Dornelles Vargas é o maior estadista brasileiro. Governou o país de 1930-1945 e de 1951 a 1954. Comandou a revolução de 1930, que derrubou Washington Luis, encerrando a República Velha. Na Presidência adotou uma política nacionalista e modernizou a economia. Criou o Ministério do Trabalho. Estruturou o Estado brasileiro dando-lhe os fundamentos de um governo organizado, ordenado. Criou vários ministérios e melhorou, reequipando, a máquina militar.
Em 1937, Getúlio movido por ideais transformadores, modificadores – hoje ele seria um grande estadista do campo socialista – instalou com repressão política a ditadura do Estado Novo, porquanto, as transformações sociais que ele empreendeu encontravam duras resistências nas elites da época não muito diferentes das classes dominantes do presente, as quais não abrem mãos da altíssima concentração de renda dentre outros fatores que levam, empurram, os pobres em direção à miséria e os ricos se tornam mais ricos.
Em 1945, Vargas é derrubado pelos militares e seus adeptos saudosistas da eras imperial e colonial, muitos deles senhores de escravos e exploradores de operários e trabalhadores, viciados em mão-de-obra barata, sem os mínimos direitos a não ser comer, procriar, dormir e trabalhar, visando o enriquecimento dos neofeudais daquele tempo, atualmente neoliberais.
Getúlio Vargas contribuiu com a formação do PSD – Partido Social Democrático e do Partido Trabalhista Brasileiro – PTB, pelo qual se elegeu senador. Não o PTB "bichado" de Ivete Vargas e do Golbery do Couto e Silva, mentor do ivetismo adesista, teórico de caserna dos colegas generais presidentes.
Em 1950 é eleito presidente pelo PTB. Implantou o monopólio estatal do petróleo, criando a Petrobrás e nacionalizou a produção da energia elétrica, com a Eletrobrás, com rapidez e eficiência. Era tudo que a elite não queria. Novamente é combatido pela oposição conservadora de civis e militares, invejosos e temerosos do crescimento e do prestigio do trabalhismo, um dos caminhos para o bom nacionalismo em direção de um melhor socialismo humanamente necessário, por imperativo de justiça econômica e social.
A pressão dos conservadores em defesa do status quo, contra as obras do governo getulista aumentavam. Os grupos dirigentes não queriam mudanças a não ser que estas fossem para favorecer as classes dominantes. Praticamente a patota que levou Getulio Vargas ao suicídio em 24 de agosto de 1954 foi a mesma e principal responsável pelo golpe de 31 de março, quase primeiro de abril, que derrubou João Goulart eleito duas vezes vice-presidente com formidáveis votações.
A direita reacionária, amplamente conservadora, não é afeita às transformações, às mudanças, que possam beneficiar as classes populares, os pobres.
Jango em 1946 é eleito deputado federal constituinte. Reeleito em 1950, coordena a campanha presidencial de Vargas de quem é seguramente seu primeiro herdeiro político, vindo, então, em seguida, o ex-governador Leonel Brizola que com o apoio do III Exército do Rio Grande do Sul, e dos legalistas, garantiu sua posse mesmo sob o Regime Parlamentarista em 1961, transformado em Presidencialista por plebiscito dois anos depois.
Goulart estava na mira dessa gente desde a época em que ocupou o Ministério do Trabalho do Governo Getúlio Vargas, entre 1953 e 1954. Jango deixou o cargo sob pressão dos contrários ao aumento do salário mínimo, mínimo que não existia antes do período Vargas.
A era getulista continua sendo fundamental para entendermos os dias políticos da atualidade brasileira. De um lado os progressistas; na outra ponta os tradicionalistas, a direita.
A luta do governo janguista em favor das reformas de base – agrária, fiscal, universitária e política, as quais visavam remodelar o Estado brasileiro –, batiam de frente contra os princípios estanques do conservadorismo. Eis, aí, uma das razões do golpe de 64.
Brizola quando governador do Rio Grande do Sul revolucionou a educação, promovendo, ainda, nos limites do seu Estado, a reforma agrária, conquistas que incomodavam os neofeudalistas, inimigos de ontem e de hoje das classes trabalhadoras.
Duas vezes eleito governador do Rio de Janeiro pelo voto direto, continuou revolucionando a educação com a ajuda do notável professor Darcy Ribeiro que ao lado de Anísio Teixeira são, ambos, os grandes mestres teóricos do melhor ensino oficial.
Educação pública literalmente destruída pelos golpistas, principalmente após o ano de 1968, tomando como base os interesses ideológicos das elites para as quais existem um ótimo ensino particular, muitas vezes financiado pelo dinheiro público.
Disputou duas vezes a Presidência da República e é vice na chapa de Luiz Inácio em 1998. Não obteve êxito. Todavia, topou todas as paradas eleitorais, vencendo muitas, perdendo poucas.
Homem de temperamento forte sofreu horrores durante os seus dois períodos governamentais no Rio. É o político brasileiro mais odiado, caluniado, pela direita civil e militar e pelo clero reacionário.
Campanha impiedosa muitas vezes mentirosa, caluniosa e difamatória da Rede Globo, comandada pelo magnata Roberto Marinho contra o qual os políticos temiam contraditar. Ele não. Não era corrupto e nunca foi ladrão, tendo contestado com veemência o complexo global.
Brigou com o poderoso Roberto Marinho. Sua natureza não permitia covardia, negociata, trambique, maracutaia no jargão petista.
Sobre Leonel de Moura Brizola, falecido em 21 de junho do ano passado, o Senador Antônio Carlos Magalhães – três vezes governador da Bahia, a última em 1990 eleito pelo voto – disse para o jornal A Tarde, edição de 22/06/2004, pagina 11: “Eu divergi muito do Brizola, mas nunca neguei sua coragem e espírito de luta. Ele foi governador em três ocasiões e nunca foi acusado de corrupção”. Brizola, 82 anos de vida limpa.
Pelo que fez, pelas lutas que travou, pelos ideais e posições nacionalistas que defendeu com garra, Leonel de Moura Brizola é para ser considerado o maior getulista deste país. Portanto, por um entendimento transparente, de justiça, ele é para ser conceituado, definido, como um político do nacionalismo correto. Com botas, lenço vermelho no pescoço, chapéu carbonário e "metranca" nas mãos. Bravo Brizola, cabra macho, brasileiro retado. ”Tá rebocado e piripicado”.
* Wellington da Fonseca Ribeiro é jornalista e bacharel em Direito. Idealizador e fundador da Ala Jovem do MDB baiano (em 1972) e do Movimento Brasil Brizola (MBB em 1989). É Campoalegrense-Ba.