Protesto lembra morte de garoto de 10 anos em ação policial na capital paulista

Militantes de coletivos negros fizeram neste sábado (11) um protesto em frente ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, lembrando a morte de um menino de 10 anos em uma ação policial na região do Morumbi, na zona oeste de São Paulo. No último dia 2, o menino estava com um amigo, de 11 anos, em um carro roubado de um condomínio do bairro.

O protesto contra a morte da criança foi organizado por coletivos de militantes negros (Daniel Mello/Agência Brasil)
O protesto contra a morte da criança foi organizado por coletivos de militantes negros (Daniel Mello/Agência Brasil)

Os policiais militares que atenderam a ocorrência alegam que o menino, que estava ao volante, disparou contra eles e que o balearam para se defender.

Vídeos de câmeras de segurança mostram o carro desgovernado, depois parado e um policial se aproximando e fazendo o disparo que atingiu a criança na cabeça. Não foram encontradas marcas dos tiros que teriam sido efetuados pelo garoto. Segundo os policiais, isso porque o menino fez os disparos com o vidro abaixado e fechou a janela pouco antes de ser baleado.

O grupo levou cartazes que classificam o elevado número de mortes de jovens nas periferias como um genocídio da população negra. O ato se opôs a outra manifestação, da qual participaram moradores da região do Morumbi, bairro onde está localizado o Palácio dos Bandeirantes, em apoio à ação dos policiais.

Durante a maior parte do tempo, os protestos ficaram em calçadas opostas, com os manifestantes trocando provocações. Porém, os participantes do ato favorável aos policiais chegaram a se aproximar dos militantes dos movimentos negros para discutir e até trocaram ofensas. Não houve, no entanto, nenhuma agressão.

Versão inconsistente

A versão dos agentes tem, na opinião do ativista Gilson Nascimento, diversas inconsistências. “De dentro de um carro, dirigindo em perseguição, essa criança não está em condição de dar tiros e expor a vida desse policial”, disse Gilson. Ele lembra que, em outros casos, foi comprovado que policiais fraudaram provas para acobertar execuções classificando-as de reação de legítima defesa.

“Estamos aqui para dar voz ao Ítalo, uma criança de 10 anos foi assassinada pela polícia. Nós, que moramos em periferia sabemos, qual é o modus operandi [modo de agir] da polícia. Plantar arma e forjar crimes são as coisas mais comuns que existem”, acrescentou.

“Aceitar que uma criança de 10 anos tome um tiro na cabeça e chamá-la de criminoso é muito mais cômodo do que raciocinar por que essa criança chegou a uma situação em que ela expusesse a sua vida”, destacou Nascimento, ao falar da importância de discutir o contexto social em que vivia o garoto e vivem inúmeros jovens nas periferias das grandes cidades.

A recepcionista Keyla Luenda , de 27 anos, disse que foi ao protesto para pedir o fim da impunidade em caso de execução cometidas por agentes do Estado. “A gente luta para que isso aconteça e que cada vez mais policiais como esses possam ir para a cadeira”, ressaltou a jovem, que também perdeu o irmão, vítima de uma ação policial.

“As pessoas têm que saber que isso acontece diariamente, não é só pelo Ítalo [nome do menor morto pela polícia] ou por meu irmão, é por toda a população”, afirmou a recepcionista.

Em defesa dos policiais

Do outro lado da rua, o deputado federal Major Olímpio (SD-SP), defendeu a atitude dos policiais. “O resultado morte não é desejável nunca. Mas eu prefiro saber da morte de um criminoso-mirim de dez anos, do que de um policial, pai de família que estava ali em função pública”, ressaltou o parlamentar que tem atuação ligada a temas relacionados a segurança pública e a aos interesses corporativos dos policiais militares.

O presidente do Conselho de Segurança do Portal do Morumbi, Celso Neves Cavallini, também se manifestou favoravelmente a ação dos agentes. “[Merece] logio, porque ele tirou da rua um criminoso. Não importa a idade dele”, enfatizou Cavallini que preside um dos conselhor comunitários que analisa as questões relativas à segurança em cada bairro. Para ele, o fato de um dos garotos estar vivo mostra que os policiais apenas reagiram contra uma agressão. “Se o policial tivesse a ideia de matar, teria matado os dois, não um”. (Daniel Mello – Repórter da Agência Brasil)

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