Ocupantes de hotel no DF dizem ter água e alimentos suficientes para até 3 meses

Líderes do Movimento Resistência Popular (MRP) que, desde outubro do ano passado ocupa o Hotel Torre Palace, localizado em um dos principais pontos turísticos de Brasília, disseram hoje (3) à Agência Brasil que têm água e comida suficientes para resistir de dois a três meses ao cerco que, desde o dia 1º, é feito pela Polícia Militar (PM).

Mesmo com água e comida, estresse pode levar ocupantes a deixar o prédio, diz polícia (José Cruz/Agência Brasil)
Mesmo com água e comida, estresse pode levar ocupantes a deixar o prédio, diz polícia (José Cruz/Agência Brasil)

Segundo o porta-voz da PM, capitão Michello Bueno, mesmo que seja verdadeira a informação sobre esse estoque, a tendência é que, aos poucos, os ocupantes do prédio desistam de continuar no local por causa do estresse e da pressão psicológica naturais em situações como esta. Enquanto o PM conversava com a reportagem, um dos ocupantes do imóvel gritava do alto do prédio: “Vou ficar aqui até morrer!”

De acordo com o capitão, a situação é “delicada, porém natural” em situações desse tipo. “Mas a PM está habituada a deparar com todo tipo de mazelas”, disse ele. Entre as preocupações dos policiais está o risco de que ocupantes caiam do prédio, em meio algum tumulto, uma vez que não há esquadrias, nem proteção nas janelas e escadarias. “Esse risco ficaria ainda maior, caso algum helicóptero se aproxime da cobertura. Por isso, temos de ter sempre muito cuidado com esse tipo de aproximação.”

Uma das líderes do movimento, Doriana Nunes disse que, na manhã de hoje (3), havia ainda 53 pessoas no interior do hotel, um edifício de 14 andares e 140 apartamentos. Já a PM estima que haja entre 10 e 14 pessoas. Segundo Doriana, o hotel chegou a abrigar entre 130 e 150 pessoas, entre crianças, trabalhadores e desempregados. Todos ficaram abrigados em quartos a partir do 3° andar. Os andares mais baixos estavam sendo ocupados por usuários de drogas, mas, com a chegada da PM, estes foram os primeiros a deixar o local.

Desde o dia 1º, com a chegada da PM, o prédio está cercado e não é permitida a entrada de ninguém que não seja autorizado pelos policiais. “Eles [policiais] esperaram a gente sair para levar as crianças à escola e, na volta, disseram que estavam desratizando o prédio. Desde então, não nos deixaram mais entrar. Estamos agora dormindo ao relento nesses colchões aqui”, disse Doriana, apontando para o gramado onde estavam cerca de 25 pessoas – na maioria senhoras – ligadas ao movimento. Segundo ela, ninguém está deixando o prédio por medo de não conseguir retornar. “Mas todos estão lá por livre e espontânea vontade”, garantiu a líder do movimento.

Estratégia da PM é esperar cansaço

Coordenando um efetivo de 144 policiais militares, o tenente-coronel Alexandre Lema diz que a principal estratégia “é esperar o cansaço [dos ocupantes] chegar e aguardar que, por iniciativa própria, eles desocupem o hotel”. Segundo o capitão Michello, o cerco feito pela PM tem entre os objetivos pressionar psicologicamente aqueles que ainda resistem na ocupação. “Geralmente, entre o segundo e o terceiro dias, eles começam a se estressar e discutir entre si. Hoje mesmo já saiu uma pessoa dizendo que não concordava com a estratégia da ocupação.”

Michello foi um dos policiais que entraram no prédio durante as negociações. “Percorri todos os andares e observei muita coisa. O interior parece um hotel em reforma ou construção, cheio de entulho. Há quartos arrumados e desarrumados. O que mais me chamou a atenção foi a condição ruim deles… dá pena. Não é uma situação boa e não queria isso para mim. Sei que eles não são bandidos, mas estão infringindo a lei. E estão prejudicando todo o Setor Hoteleiro Norte, o que resulta em muitas queixas de empresários, porque ninguém quer ficar nos hotéis vizinhos. Fora o transtorno nas pistas, que foram fechadas depois deles começarem a jogar pedras”.

“O problema é que o governo do Distrito Federal [GDF] só se preocupa com os empresários desses hotéis e seus negócios”, disse Doriana.

“Aliás, ninguém está aqui porque quer. Estamos aqui exatamente para chamar a atenção da sociedade para o nosso problema. Ninguém gosta de dormir nem aqui, nem na rua com suas crianças. E este governo não cumpre nada do que nos promete há anos. Todos somos cadastrados e a maioria de nós já é habilitada no cadastro de moradias do governo”, afirmou a líder do MRP.

Ao lado de Doriana, Maria Rita de Sousa, de 59 anos, disse que desde os 19 anos integra o cadastro de moradias do governo local. “Há quase 40 anos eu espero alguma coisa e nada acontece. Esse cadastro já até mudou de nome, mas nada muda para a gente”, disse à Agência Brasil Maria Rita. (Pedro Peduzzi – Repórter da Agência Brasil)

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