Eleições nos Estados Unidos: Trump e Hillary têm rejeição superior a 50%

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Leandra Felipe
Agência Brasil

Os dois prováveis candidatos às eleições presidenciais nos Estados Unidos – Hillary Clinton (democratas) e Donald Trump (republicanos) aparecem quase empatados na rejeição dos eleitores norte-americanos. Foi o que revelaram pesquisas de intenção de voto divulgadas nesse domingo (22) sobre a percepção da população norte-americana em relação aos prováveis candidatos. A menos de dois meses das convenções partidárias, os dois foram reprovados por mais da metade dos eleitores.

As sondagens também mostram que a ex-secretária de Estado do governo de Barack Obama aparece com pequena vantagem quando os eleitores são perguntados sobre quem escolheriam em um eventual enfrentamento entre ela e o multimilionário.

Pesquisa divulgada pelo jornal Washington Post- ABC News revelou que 57% do eleitorado disseram ter uma impressão desfavorável tanto de Hillary quanto de Trump. Outra sondagem, também divulgada no domingo, da rede NBC News/Wall Street Journal, mostra a pré-candidata democrata com 54% de rejeição e Trump com 58%.

Sobre a intenção de voto, a pesquisa ABC mostra vantagem de apenas 2 pontos percentuais para Hillary. Ela tem 46% da preferência do eleitorado e Trump, 44%. A projeção da NBC mostra a democrata com 46% e o republicano com 43%. Ambas as sondagens estão dentro da margem de erro.

A rejeição aos dois candidatos aparece em piadas na internet e até como causa de morte em um obituário no estado da Virginia. O obituário de Mary Anne Noland, 68, trouxe a seguinte frase: “Diante da perspectiva de votação em Donald Trump ou em Hillary Clinton, Mary Anne escolheu passar para o eterno amor de Deus, no domingo, 15 de maio de 2016”.

Na verdade Mary, uma enfermeira aposentada, morreu de câncer após intenso tratamento. Mas a frase em seu obituário viralizou na internet. Entrevistados por redes de TV, integrantes da família disseram que a pretensão de Mary não era fazer uma declaração política antes de morrer, mas sim fazer uma piada com dois candidatos que ela não aprovava.

Neutralizar Sanders

Com a alta rejeição, Hillary Clinton tem o desafio de neutralizar o avanço do senador Bernie Sanders, que conquistou até agora 1.577 delegados. Ele não tem chances matemáticas de alcançá-la, segundo as projeções, mas o desempenho dele durante as primárias e o crescimento entre o eleitorado democrata mais progressista incomodou a campanha de Hillary e ajudou a “arranhar a imagem da candidata”.

Hillary tem 2.297 delegados e precisa de mais 86 para garantir a homologação da candidatura na Convenção dos Democratas, em julho. No total, para ser escolhido pelo partido, um candidato deve ter 2.383 delegados conquistados nas primárias.

Mesmo sem chance de alcançar Hillary, Sanders é o candidato que vai terminar a fase das eleições primárias com o melhor conceito entre os eleitores. Tanto a pesquisa Washington Post-ABC News quanto a NBC News-Wall Street Journal mostraram que ele aparece com 41% a 49% de aprovação.

A Agência Brasil conversou com o cientista político Daniel Franklin, da Georgia State University. Ele disse que o discurso de Sanders atingiu o eleitorado mais jovem, como menos de 45 anos, que ainda não tem consolidada uma identidade com o núcleo mais tradicional do partido e tem uma visão mais progressista.

Franklin acrescentou que não se trata de eleitores alinhados a uma visão literalmente socialista, mas o discurso de Sanders vem ao encontro de insatisfações do eleitor que é liberal, mas que não está desapontado com as condições de vida.

“Por exemplo, o sistema universitário é caríssimo. E um estudante pensa que vai passar pelo menos 15 anos pagando a universidade depois de sair. Quando Sanders questiona os lucros exorbitantes do sistema financeiro (Wall Street) em detrimento da dificuldade de ascensão social e econômica, ele toca nessa ferida e fala ao eleitor de classe média não conservador”, comentou.

Outro exemplo é um das frases mais famosas da campanha de Sanders, que estampa a capa do site do candidato e que questiona os baixos salários pagos ao trabalhador médio. “Ninguém que trabalha 40 horas por semana deveria estar vivendo na pobreza”.

Para Franklin, Hillary não conseguiu chegar a esse eleitorado. Além disso, ele não considera que Barack Obama tenha sido um presidente popular – recebe críticas de uma parcela dos democratas que acreditam que ele não alcançou seus objetivos. “Para o eleitor médio, Obama deixou a desejar. Há quem diga que ele prometeu demais e fez pouco, um desgaste natural depois de oito anos no poder”, afirma.

Voo de Trump

Entre os republicanos, Donald Trump chega sozinho à convenção partidária em julho. Apesar da resistência da cúpula tradicional do partido e de suas declarações polêmicas, sobretudo no campo das políticas externa e migratória, ele já tem 1.176 delegados e precisa de mais 61 para alcançar o total necessário: 1.237.

Apesar da rejeição ao seu nome internamente no partido e entre os eleitores mais liberais, Trump foi vencendo, primária após primária, e terminará correndo sozinho até julho. Os esforços de campanha nas redes sociais, como a #NeverTrump (nunca Trump), não surtiram o efeito esperado, que seria o de acomodar eleitores simpatizantes a ele, juntamente com outros nomes que começaram a corrida e desistiram.

Para Daniel Franklin, a escalada vitoriosa do empresário até a convenção tem dois principais motivos – primeiro, a falta de coesão entre os republicanos. Ele explicou que há três grupos que disputam espaço internamente e que atualmente não há um nome no partido capaz de unificar essas frentes.

“Temos um grupo ligado ao setor financeiro (Wall Street), outro grupo tradicional de base evangélica – ao qual pertence o pré-candidato desistente Ted Cruz – e o chamado Tea Party, libertário, que propõe diminuir impostos e o tamanho do Estado”, explica.

O professor destaca que há uma tensão entre eles. Por exemplo, o grupo evangélico é muito poderoso e resiste em indicar nomes ligados ao grupo setor financeiro, porque esse último tem inclinações liberais quanto a temas ligados a direitos civis, como aborto e casamento gay, temas para os quais os evangélicos do partido tendem a ter posições rígidas e conservadoras.

A segunda razão para o avanço do milionário, segundo ele, foi o fato de que Trump soube “ler o eleitor” conservador norte-americano. “Trump soube interpretar o momento do país. E identificou grande parcela de trabalhadores da classe menos favorecida que ainda não se recuperou da crise de 2008”, observou.

O slogan de Trump “Faça os Estados Unidos grande de novo (Make América great again”, provoca no eleitor insatisfeito o desejo de mudança. Franklin lembra que há um achatamento da classe trabalhadora, do norte-americano que trabalha na área de serviços, que não tem qualificação superior e que hoje vive com salários mais baixos do que antes da crise financeira.

“O país está se recuperando, mas essa parcela da população ainda não viu mudanças notáveis. Eles estão incomodados porque não conseguem aumentar o poder de compra e porque a política de Obama aumentou a arrecadação de impostos. Esse eleitor conservador, pragmático e menos ideológico encontra em Trump uma alternativa”, arremata.

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