Brasília se despede do arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé

Luciano Nascimento
Repórter da Agência Brasil

Humanista, de personalidade sensível, simples, de um grande caráter. Um arquiteto que buscava resolver os problemas da população. Foi assim que amigos, colegas de profissão, políticos e admiradores recordaram o arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé.

Responsável por obras espalhadas em várias cidades do país, Lelé morreu aos 82 anos, vítima de câncer de próstata, em Salvador. Os brasilienses puderam prestar suas homenagens hoje (22), na Câmara dos Deputados, para onde o corpo do arquiteto foi transportado, após ter as honras prestadas desde as 8h desta quinta-feira, na Igreja da Ascensão do Senhor, no Centro Administrativo da Bahia, que foi projetado por ele.

Um dos mais conceituados arquitetos brasileiros, Lelé participou da construção de Brasília, ao lado Oscar Niemeyer. Na capital do país, assinou projetos como o do Instituto Central de Ciências, conhecido como Minhocão, e o Memorial Darcy Ribeiro-Beijódromo, na Universidade de Brasília (UnB). Na UnB, ele também lecionou e pediu demissão ao lado de 209 professores e servidores, em protesto contra a repressão na universidade, durante a ditadura militar. Também foi responsável pelos desenhos dos hospitais da Rede Sarah. “Foi um arquiteto diferenciado, nos desenhos e soluções, buscou um compromisso com o socialismo, nas diferentes obras que fez. Era uma pessoa de grande caráter”, disse o ex-reitor da UnB e senador Cristovam Buarque (PDT-DF).

Lelé também se dedicou a obras em comunidades pobres, como na cidade de Abadiânia, interior de Goiás, a 100 quilômetros de Brasília, para onde foi a convite do frei Mateus. Lá ele construiu uma pequena usina de pré-moldados leves em argamassa armada, a fim de erguer escolas rurais e pontes para estradas vicinais.

“Eu não sei o que lamento mais, se o grande arquiteto que o Brasil perdeu, que é uma perda de dimensão nacional, se é o cidadão exemplar, preocupado com os problemas do povo, ou se é o amigo”, lamentou o diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da UnB, José Carlos Coutinho. “Ele fez a arquitetura se aproximar do povo e demonstrou na prática criando soluções simples, com técnicas avançadas mas úteis e, ao mesmo tempo, com o toque de beleza”, sentenciou.

Da convivência com mestres como Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, o arquiteto aprendeu e usou de forma criativa o concreto pré-moldado e estruturas pré-fabricadas. “O Lelé é de uma geração muito especial que floresceu em um momento de muito entusiamo no país, na cultura e na política, com a bossa nova e a construção de Brasília”, recordou o presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil, Haroldo Pinheiro, que também trabalhou com Lelé. “Depois do movimento moderno, foi o arquiteto que conseguiu inovar na arquitetura, dando ênfase à iluminação natural e à ventilação aplicadas a projetos de cunho social”, completou.

Pinheiro lembrou que o desejo de contribuir com o país levou o arquiteto a projetar conjuntos para o Programa Minha Casa, Minha Vida, mas que, por problemas de “burocracia e interesse político”, não foram aproveitadas. Ele lamentou que os gestores públicos não tenham percebido a dimensão da obra de Lelé.

“O que dá pena é que essas habilidades não impressionaram os gestores”, disse. “Quantos Lelés terão que falecer para que a administração pública preste atenção nos elementos de qualidade que têm e permitam que eles trabalhem”, lamentou.

Lelé teve três filhas, Luciana, Adriana e Sônia. Luciana, que nasceu com paralisia cerebral, motivou Lelé a desenvolver trabalhos ligados à reabilitação dos movimentos, especialmente na Rede Sarah. Adriana é arquiteta. Sônia, jornalista. O sepultamento está marcado para as 10h desta sexta-feira (23), na Ala dos Pioneiros do Campo da Esperança.

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